A leitura dessas obras pressupõe a suspensão de qualquer juízo moral da moda para consumo. Luiz Felipe Pondé para a FSP:
Na semana passada, nesta coluna, fiz referência a uma categoria típica da fauna dos tais imbecis aos quais Umberto Eco (1932-2016) fez referência quando falou da catástrofe da inteligência nas redes sociais.
"As
redes sociais deram voz aos imbecis." A afirmação pode ser vista como
um canto do cisne melancólico ou um enunciado de profunda percepção do
contemporâneo. Ou as duas coisas ao mesmo tempo.
Lembro quando, nos anos 1990, o historiador francês Jacques Le Goff (1924-2014)
me falou, numa entrevista para o jornal O Estado de S. Paulo, do seu
temor de que a cultura ocidental estivesse à beira de uma crise profunda
por causa do lixo americano crescente que começava a soprar.
Tanto
um quanto o outro, no meu entendimento, estavam corretos em seus
sentimentos melancólicos e em suas
análises do contemporâneo.
Perguntaram-me:
o que é o idiota digital do qual falei na coluna passada nesta Folha e
qual é a sua relação com os clássicos? Vejamos algumas frases típicas
que podem ajudar a identificar um idiota digital falando de um grande
clássico. Em seguida, proporei algumas poucas
ideias de por que um
grande clássico é um grande clássico.
Como reconhecer um idiota digital falando de clássicos?
"Estava lendo ‘X’ —‘X’ aqui sempre igual a um título de algum clássico— e vi uma frase racista!
Oh! Imediatamente pus o livro de volta na estante e nunca mais vou
abrir esse livro horroroso." "Estava lendo ‘X’ para meu filho e vi uma frase sexista! Oh! Fechei o livro na hora e disse para ele reclamar na escola
por ter adotado esse livro horroroso." "Estava lendo ‘X’ e tinha um
trecho em que pessoas foram mortas numa batalha! Oh! Botei de volta na
estante e nunca mais vou olhar para esse livro horroroso!" Mas deixemos
de lado essas bobagens.
Passemos ao que interessa.
Friedrich Nietzsche (1844-1900)
disse que a intimidade com os clássicos nos deixa céticos. E que essa
intimidade seria a única salvação
para a miserável educação moderna. O
que isso quer dizer?
A
leitura de um clássico pressupõe a suspensão de qualquer juízo moral da
moda para consumo, que é o único tipo de ética disponível para os
idiotas digitais em busca
do sucesso. Eis o ceticismo.
Um
clássico, quando lido sem o filtro de qualquer autoestima ou
narcisismo, faz sentir ódio, desprezo, encanto, vontade de matar,
vergonha de ver em si mesmo sentimentos baixos. Inveja de quem é melhor
do que você, paixão por quem
lhe revela uma beleza que você desconhece
em si mesmo.
A
insegurança mortal do amor, a dúvida constante em relação à fidelidade
da amada ou do amado. A dura descoberta da indiferença dos elementos do
mundo que nos acossam de todos os lados. O choque diante do fato que um
texto datado de 2.000 anos pode ser mais "avançado" do que você.
Como diz Electra na segunda peça da trilogia "Oresteia", de Ésquilo: "Onde está a alegria? Que há isento de dor? Não é invencível a desgraça?".
No
espírito cunhado na filosofia nietzschiana, vemos que o ressentimento,
típico dos idiotas digitais, não alcança a beleza de tal desespero
essencial porque crê nos seus tuítes a favor da causa da moda, a fim de
engajar patrocinadores oportunistas e seguidores anônimos.
Nada
disso está ao alcance dos idiotas digitais porque eles se consideram
membros do enxame dos bons. E o enxame dos bons é constituído pelos
idiotas do bem. Como uma praga de gafanhotos
que não se sabem
gafanhotos, devoram as letras ao sabor do seu puritanismo capenga.
A
leitura dos clássicos nos faz céticos, segundo Nietzsche, porque nos
oferece gotas da condição extramoral a qual ele buscava. A única que nos
faz ver a alma do mundo sem véus.
O
escritor italiano Italo Calvino (1923-1985) dizia que um clássico nunca
acaba de dizer o que tem para nos dizer. Pode ser lido e relido em
momentos diferentes da vida porque o leitor, você, é outra pessoa depois
que o mundo o tocou impiedosamente. E a piedade,
como toda virtude, só
brota num terreno que lhe é hostil.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário