Bolsonaro e Lula adaptaram seus programas de governo ao longo dos anos, mas enquanto a campanha do presidente alivia a carga ideológica, os petistas repetem os mesmos erros. Duda Teixeira para a Crusoé:
Disponíveis
no site do Tribunal Superior Eleitoral, TSE, os programas de governo
costumam ser ignorados pela população e, não raro, até pelos próprios
candidatos. Alguns nem sequer sabem o que está escrito lá. Mas, por
esses textos serem elaborados por assessores graduados, eles permitem
vislumbrar os debates que ocorrem dentro dos gabinetes e antever o que
seus candidatos podem vir a fazer, em caso de vitória. Na área de
política externa, o programa de governo de Jair Bolsonaro traz uma
importante melhora em relação ao que foi apresentado em 2018. No
documento petista, antigos chavões que nunca apresentaram bons
resultados continuam presentes, ainda que tomando cuidados para não
suscitar reações indignadas.
Quando
Bolsonaro tentou pela primeira vez a Presidência, há quatro anos, seu
programa colocava a diplomacia a serviço de valores próprios.
“Deixaremos de louvar ditaduras assassinas e desprezar ou mesmo atacar
democracias importantes como EUA, Israel e Itália. Não mais faremos
acordos comerciais espúrios ou entregaremos o patrimônio do povo
brasileiro para ditadores internacionais”, dizia o texto. Bolsonaro
perfilava-se, então, como um representante dos brasileiros que sentiam
repulsa pelos empréstimos do BNDES para obras nas ditaduras de Venezuela
e Cuba e pela escravidão no programa Mais Médicos. Estados Unidos e
Israel eram citados porque seus líderes, Donald Trump e Benjamin
Netanyahu, tinham afinidade com Bolsonaro. Na Itália, Matteo Salvini, de
extrema-direita, simpático ao brasileiro, era vice-primeiro ministro. O
programa ainda prometia uma “ênfase nas relações e acordos bilaterais”,
sem dar atenção para as organizações multilaterais.
O
atual programa está mais circunspecto. Fala-se em promover uma
interação com países “que se encaixem no ambiente democrático”, mas sem
ataques diretos a ditaduras. Em vez de relações bilaterais, o programa
valoriza acordos e organizações internacionais. “O país se destaca como
defensor histórico de uma ordem global multipolar, alicerçada no direito
internacional e centrada na Carta das Nações Unidas”, diz o texto.
Uma
das explicações para essa atenuação do discurso está na saída, em março
do ano passado, de Ernesto Araújo do Ministério de Relações Exteriores,
de onde ele atacava o “comunavírus” e o “globalismo”. O diplomata
Carlos França, que o substituiu, passou a comandar uma diplomacia mais
pacata e mais ao estilo do Centrão. “Este programa marca uma ruptura com
o anterior, porque a ideologia deixou de ordenar a política externa”,
diz o especialista em relações internacionais Heitor Erthal, pesquisador
do Observatório de Regionalismos, que faz análises dos programas de
governo. “O Carlos França trouxe de volta alguns princípios tradicionais
do Itamaraty, como o da não intervenção em questões externas e a
resolução pacífica dos conflitos. Isso deu um ar maior de normalidade.”
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| Celso Amorim: a ideologia de sempre. |
Também
contribuiu o fato de que Estados Unidos, Israel e Itália tiveram trocas
de governo e Bolsonaro não tem o mesmo entrosamento com o americano Joe
Biden, os israelenses Yair Lapid e Naftali Benett e os governantes
italianos que vieram depois, como Mario Draghi. Assim, aquilo que eram
relações pessoais ou entre governos, e não entre estados, desmoronou.
Por fim, o atual presidente viajou para Rússia, Hungria, Bahrein,
Emirados Árabes e Catar, o que inviabilizou as críticas a ditaduras.
O
programa da coligação que apoia Lula traz em negrito a ideia de
recuperar uma “política externa ativa e altiva”, que “nos alçou à
condição de protagonista global”. A expressão foi cunhada e propalada
por Celso Amorim, que foi chanceler de Lula entre 2003 e 2010. Uma de
suas principais marcas foi a negociação com a teocracia iraniana, que
resultou em um acordo com a Turquia sobre o destino do urânio
enriquecido — uma parte dele seria entregue a Ancara, para evitar que
Teerã quantidade suficiente para fabricar bombas atômicas. Festejado
pelos petistas como um grande feito, o tal acordo foi ignorado por todas
as grandes potências. Como chanceler, Amorim também fortaleceu os laços
com os ditadores cubanos Fidel e Raúl Castro, com o venezuelano Hugo
Chávez e com o cocaleiro boliviano Evo Morales. Nesse trabalho, embora
no comando do Itamaraty, ele precisou se submeter ao assessor da
presidência para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, um velho
quadro do PT que faleceu em 2017. Nenhum desses países
latino-americanos é citado no programa do PT, mas a intenção de retomar
as conversas com eles transparece. O PT propõe reconstruir “a cooperação
internacional Sul-Sul com América Latina e África” e “fortalecer
novamente o Mercosul, a Unasul, a Celac e os Brics”. Em entrevistas,
Amorim também defende a retomada de relações diplomáticas com a ditadura
do venezuelano Nicolás Maduro.
A
Unasul é uma das principais incógnitas. Esse grupo foi criado em 2008
pelo venezuelano Chávez basicamente para projetar influência em países
governados pela esquerda na região. Sem mostrar utilidade, afundada em
dívidas e atacada por sua cumplicidade com autocracias, a Unasul foi
abandonada por diversos países, incluindo o Brasil, em 2019. Sua sede em
Quito, no Equador, foi desativada. Estaria o PT querendo ressuscitar
esse bloco que teve uma função majoritariamente ideológica
aproveitando-se da vitória de partidos de esquerda na América Latina?
Pois é exatamente isso. Celso Amorim disse no ano passado que a Unasul
vai reviver: “A volta de governos progressistas na América do Sul
propicia, obviamente, o retorno da Unasul”.
Amorim
está, portanto, na contramão de Bolsonaro, que esvaziou a diplomacia
ideológica. Outro ponto do programa petista fala em retomar políticas
“como o Mais Médicos”. Cuba abandonou o projeto no final de 2018, porque
Bolsonaro denunciava o confisco dos salários dos profissionais cubanos.
Apesar disso, a assistência médica em áreas remotas e de periferia foi
mantida com médicos brasileiros e estrangeiros recebendo salário
integral. Cuba, curiosamente, não aparece nas perguntas que jornalistas
fazem ao ex-chanceler, que só fala com blogueiros aliados. Numa possível
vitória de Lula, se Amorim não se tornar ministro, ele deve sair-se
como assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, no
mesmo modelo do cargo que ocupou Marco Aurélio Garcia. Enquanto a
diplomacia bolsonarista aprendeu algo depois de provar as turbulências
da Presidência, a petista sempre volta ao mesmo lugar errado.
BLOG ORLANDO TAMBOSI


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