O zelota raivoso não consegue enxergar qualquer tipo de barganha possível para aplacar sua aspiração totalitária, sua ânsia antidemocrática de impor seus candidatos goela abaixo do país. Alexandre Borges via Gazeta do Povo:
Quando
a psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross popularizou seu modelo de estágios
de luto não imaginava que seria aplicável à política, mas o eleitor é
inseparável do indivíduo. E parte do eleitorado brasileiro está lidando
com o pânico pela possível alternância de poder de uma maneira que a
psiquiatria pode nos ajudar a compreender.
O
tradicional modelo em cinco estágios de enfrentamento de traumas começa
com a fase de negação. Muitos eleitores negam que as vacinas poderiam
ter sido compradas mais cedo, salvando milhares de vidas, que houve
corrupção no MEC, que a Terra seja redonda, que pesquisas eleitorais
tenham validade ou que o bilionário orçamento secreto seja o que é.
Os
negacionistas simplesmente dão os ombros, olham para o outro lado e
ignoram a realidade, vivendo confortavelmente em bolhas cognitivas e
câmaras de eco formadas pela despudorada mídia governista e seus infames
arrivistas. As redes sociais ajudaram a levantar muros de contenção
para blindar mentes fanáticas e engajadas de qualquer contato com fatos.
Romper esse dique do eleitor em negação é tarefa quase impossível,
mesmo para amigos e parentes.
Quando
a primeira fase consegue ser superada, entra a raiva. É aquele momento
em que o eleitor militante compra briga com todo mundo que conhece,
especialmente nos grupos do zap, mandando áudios inflamados, textos em
caps lock ou compartilhando conteúdos produzidos pelos picaretas de
sempre. Você com certeza conhece alguém que está, neste exato momento,
mergulhado na ira a ponto de defender golpes de Estado e violência
contra adversários. O próximo sete de setembro tem o potencial de reunir
vários deles nas ruas, lamentavelmente. A repetição de episódios
trágicos como o do terrorista de festa de aniversário em Foz do Iguaçu é
um risco real.
Para
superar a fase da raiva, a mais perigosa de todas, é preciso caminhar
para algum tipo de negociação, o estágio em que o paciente tenta lidar
com o trauma por conta de algum tipo de barganha, republicana ou não.
Para os políticos que podem ser apeados do poder este ano, o preço para
distensionar o ambiente é claro: algum tipo maroto de imunidade que
impeça um juiz de primeira instância de colocar algemas neles. Os
profissionais da política estão, neste exato momento, tentando articular
algum tipo de saída negociada como esta.
Muitos
eleitores estão empacados na fase da raiva, da qual são os mais
prejudicados ao comprometerem suas relações pessoais em nome de
políticos, por falta de algum tipo de oferta de negociação. O zelota
raivoso não consegue enxergar qualquer tipo de barganha possível para
aplacar sua aspiração totalitária, sua ânsia antidemocrática de impor
seus candidatos goela abaixo do país, e por isso flertam com ideias
abjetas e destrutivas, do tipo oposto aos princípios conservadores que
muitos acreditam abraçar.
É
preciso que se ofereça alguma saída honrosa (ou negociada) para ele ou
teremos que conviver por muito tempo com uma espada de Dâmocles golpista
sobre nossas cabeças. O Brasil precisa ser pacificado para ter uma
mínima chance de lidar, a partir do ano que vem, com as bombas fiscais
armadas pela base governista no Legislativo para anabolizar a tentativa
de reeleição do presidente.
Qual
negociação é essa? O que pode ser pendurado na frente dos zelotas para
que parem de acalentar ideias antidemocráticas? É o que os adultos da
sala precisam urgentemente elaborar. A terceira via, que poderia ser um
tipo de negociação, é carta fora do baralho. A menos de dois meses da
eleição e a poucos dias do sete de setembro, temos que nos apressar.
Caso
haja sucesso da negociação cognitiva com os eleitores enlutados, eles
poderão passar rapidamente por uma leve fase de depressão e chegarão,
tão pacificamente quanto possível, à aceitação para que o Brasil possa
voltar a um mínimo de normalidade democrática.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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