BAHIA NOTICIAS
por Fábio Pupo e Marianna Holanda | Folhapress
A preocupação do governo com a lei eleitoral tem travado medidas
na área econômica no momento em que elas poderiam ajudar a popularidade
do presidente Jair Bolsonaro (PL) na corrida pelo Palácio do Planalto.
As medidas foram desenhadas para dar alívio tributário a pessoas
físicas e empresas, facilitar o acesso a crédito e até atrair capital
estrangeiro ao país. Com as incertezas sobre possíveis infrações à
legislação neste ano, as iniciativas têm sido analisadas com mais
cautela —e, como consequência, parte já foi descartada.
A principal iniciativa é a correção da tabela do Imposto de Renda da
Pessoa Física, promessa feita por Bolsonaro na campanha eleitoral de
2018. O então candidato havia anunciado que ampliaria a isenção para
todos que ganham até R$ 5.000 por mês, depois disse que a medida seria
mais restrita e, agora, nada deve sair do papel.
De acordo com integrantes da área econômica, a ampliação da faixa de
isenção neste ano criaria uma gratuidade a apenas parte da população —o
que poderia ferir a legislação. A medida poderia ajudar a popularidade
de Bolsonaro enquanto ele aparece na segunda posição das pesquisas, mas
não é mencionada mais pelo governo nem como parte da "minirreforma
tributária" costurada atualmente entre governo e Congresso.
O governo até tentou corrigir a tabela com um projeto de lei enviado
no ano passado ao Congresso com objetivo de alterar também outros pontos
do Imposto de Renda. Mas o projeto foi alvo de resistências em
diferentes frentes, sobretudo de empresários que temiam aumento de carga
tributária, e acabou sendo enterrado pelos parlamentares.
A lei eleitoral proíbe, no ano da disputa, a "distribuição gratuita
de bens, valores ou benefícios por parte da administração pública",
exceto em situações extremas (como calamidade ou emergência) ou em casos
de programas sociais autorizados em lei e que já eram executados no ano
anterior.
Outra medida que entrou na análise sobre possível conflito com a lei
eleitoral é a isenção do Imposto de Renda para investimentos de
estrangeiros no Brasil. A proposta é estudada ao menos desde fevereiro e
chegou a ser anunciada pelo ministro Paulo Guedes (Economia) em março,
mas não saiu do papel até agora.
"Estaremos removendo impostos em investimentos estrangeiros em
títulos privados. Deveremos anunciar isso na semana que vem", disse o
ministro à Folha em 1º de março. Após dois meses e meio, a iniciativa
ainda não foi implementada devido à cautela sobre a lei eleitoral.
A medida é defendida na equipe econômica como um meio de beneficiar
investimentos privados de longo prazo, mas também de facilitar a entrada
de dólares no país no momento em que o câmbio pressiona a inflação —que
atrapalha os planos de reeleição de Bolsonaro.
Diante do problema, o governo passou a contar com o Congresso para
tentar destravar ao menos parte das propostas. No caso do Imposto de
Renda para estrangeiros, a solução encontrada foi a medida ser inserida
em um projeto de lei e receber aprovação dos parlamentares.
Ainda assim, ainda haveria a necessidade de análise sobre a lei
eleitoral no ato da sanção —já que o ato do presidente poderia
configurar um conflito com a legislação. Nesse caso, a medida teria
chance de valer caso o Congresso derrube o veto do presidente.
Foi o que aconteceu quando o governo vetou o programa de renegociação
de dívidas de micro e pequenas empresas. Aprovado pelo Congresso, o
Relp (Programa de Reescalonamento do Pagamento de Débitos no Âmbito do
Simples Nacional) foi barrado por Bolsonaro com a justificativa oficial
de que o texto tinha inconstitucionalidade e contrariava o interesse
público por gerar renúncias de receitas.
Integrantes do governo, no entanto, afirmam que os pontos levantados
oficialmente poderiam ser contornados e que foi a lei eleitoral a
principal preocupação para o veto presidencial. Depois, o Congresso
derrubou o veto e o Relp entrou em vigor —sendo posteriormente
regulamentado pela Receita Federal.
Diferentes integrantes do governo relatam que houve também uma
análise rigorosa a respeito do possível conflito entre a lei eleitoral e
o texto sobre os programas de crédito Pronampe (Programa Nacional de
Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte) e PEC (criou o
Programa de Estímulo ao Crédito), já aprovado pelo Congresso. O texto já
está às vésperas do prazo final para sanção (próxima quarta), mas agora
os relatos são de que Bolsonaro deve dar aval com apenas algumas
sanções (sem relação com a lei eleitoral).
O entrave com as medidas tem sido observado enquanto membros do
governo relatam que as análises sobre a lei eleitoral estão sem
critérios claros, ora ganhando passe livre e ora sendo barradas.
Parte do governo entende que o Imposto de Renda para estrangeiros,
por exemplo, não afetaria as eleições e não geraria votos para
Bolsonaro. A legislação e a própria jurisprudência do TSE (Tribunal
Superior Eleitoral) também não são vistas como claras no governo.
Na equipe econômica, a avaliação é que a equipe tentou barrar diferentes iniciativas da classe política ao longo do mandato de Bolsonaro e que agora os papeis se inverteram -a pasta tenta dar prosseguimento às medidas e o Palácio do Planalto segura.
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