Elvira Nabiullina, a presidente do Banco Central que acumulou muitos créditos no passado recente, faz um retrato funesto do efeito das sanções. Vilma Gryzinski:
Bons
tempos aqueles. Agora, além da missão impossível de segurar uma
economia brutalmente ferida pelas sanções de mais de trinta países
desenvolvidos contra a Rússia, a presidente do Banco Central está na
posição nada confortável de única integrante da elite dirigente a falar a
realidade dos fatos, publicamente, para Vladimir Putin.
E
falar sem meias palavras – embora estas tenham sido criteriosamente
medidas. O alerta que ela fez no começo da semana foi simplesmente
espantoso, uma vez que Putin colocou a si mesmo na posição de rei
incapaz de ver que está nu, cercado por sicofantas que dizem só o que
ele quer ouvir.
“O
período em que a economia conseguiu viver das reservas terminou”, disse
Nabiullina à Duma, o congresso da Federação Russa. “Já no segundo
trimestre ou começo do terceiro, entraremos numa etapa de mudança
estrutural”.
Até
agora, acrescentou, as sanções afetaram principalmente o mercado
financeiro, mas daqui em diante “começarão a prejudicar cada vez mais
setores da economia real”.
E
não adianta esperar que o Banco Central interfira no aumento dos preços
– 17% de inflação em março -, decorrentes das dificuldades para a
importação de componentes porque isso “impediria que as empresas se
adaptem”.
A
mulher que fala como um Milton Friedman redivivo tem um extraordinário
crédito de confiança com Putin: ela controlou a inflação no passado,
reorganizou a economia russa, alinhou a política monetária com a dos
bancos centrais de países desenvolvidos, formou reservas de mais de 600
bilhões de dólares e fechou mais de 400 bancos podres. Aguentou firme
quando setores atingidos reagiram de forma torpe, divulgando um vídeo do
marido dela, Yaroslav Kuzminov, diretor da Escola Superior de
Economia, com outra mulher.
Quando
Putin começou a guerra e o rublo desabou, conseguiu virar o jogo. Muita
gente diz que ela quis renunciar, mas Putin não só não deixou como
agora indicou Nabiullina para mais um mandato de cinco anos.
Na
primeira vez que falou em público depois do início da invasão, estava
vestida de preto, o que foi interpretado como uma forma de luto.
Provavelmente é um exagero, mas Nabiullina usa broches para mandar
mensagens implícitas, uma tática que remete a Madeleine Albright, a
recentemente falecida ex-secretária de Estado americana.
Há
apenas cinco anos, quando a Rússia já havia anexado a Crimeia e estava
sob a primeira onda de sanções, Nabiullina foi eleita a presidente de
banco central do ano, na Europa, pela revista britânica The Banker. Em
2018, foi convidada como palestrante de destaque pelo Fundo Monetário
Internacional e coberta de elogios por sua presidente, Christine
Lagarde.
“Elvira
e eu somos grandes fãs de ópera”, disse Lagarde, ressaltando que a
convidada tem “todas as qualidades” dos grandes maestros, incluindo
“personalidade, intuição e liderança”.
É
claro que Nabiullina, que é de origem tártara, tem sido criticada por
ajudar Putin a formar o “tesouro de guerra” e no passado fez concessões
como deixar que o poderoso Igor Sechin refinanciasse a dívida externa da
Rosneft, a gigante do petróleo. “Um presidente de banco central
independente teria recusado, mas Nabiullina não é independente”,
criticou o Moscow Times, um site independente de notícias sobre a
Rússia.
Poucas
horas depois que ela fez sua análise sombria para a Duma, Vladimir
Putin a desmentiu, dizendo que “a estratégia de blitzkrieg contra a
economia russa fracassou e a situação está se estabilizando”.
É
claro que ele está errado e ela está certa. Putin também já avisou que
pretende fazer o governo gastar mais para estimular a economia. Como
conciliar isso com a taxa de juros que Nabiullina elevou,
emergencialmente, para 20% (agora 17%, com mais uma redução em vista)? E
como – e até quando – dizer ao rei que, se não está despido, pelo menos
deixou de vestir várias peças de roupa?
Nem no Brasil ser presidente de banco central poderia ter se tornado uma atividade tão dramática.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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