BLOG ORLANDO TAMBOSI
Ele é um “realista pragmático”, segundo o filósofo que criou as bases teóricas para o “grande projeto euroasiático” que inspira o presidente russo. Vilma Gryzinski:
Por que o maior país do mundo, com extraordinários recursos naturais, quer tomar um vizinho, muito menor e mais fraco?
A
Rússia não precisa de nada do que a Ucrânia tenha, exceto pela própria
Ucrânia e o que ela significa: uma peça vital num projeto de poder muito
maior, que coloca o país como centro do “grande projeto euroasiático”
traçado pelo homem que faz a cabeça de Vladimir Putin, o filósofo
Alexander Dugin.
Inevitavelmente,
ele é chamado de “Rasputin de Putin” – por coincidência ou não, tem a
barba comprida que marca intelectuais e loucos, quando não ambas as
coisas, da grande tradição russa de personalidades excêntricas e
geniais. O próprio Dugin dá uma versão escorregadia sobre a importância
das suas teorias estratégicas sobre Putin: “Minha influência sobre ele é
forte, embora indireta”.
Ambos
são, obrigatoriamente, marcados pelo colapso da União Soviética e o
enorme vácuo que deixou. Já virou lugar comum repetir uma frase famosa
de Putin sobre a queda do império vermelho – “A maior catástrofe
política do século XX” -, mas Dugin traça um trajeto mais específico.
“A
partir de 1991, eu comecei a preencher este vazio disseminando minhas
ideias entre o oficialato e os tomadores de decisões, explicando por que
os Estados Unidos e o Ocidente continuavam a pressionar a Rússia embora
a Guerra Fria tivesse acabado”, diz ele.
“Eu
falava sobre a importância de uma nova ideia sobre a geopolítica russa
que deveria ser diametralmente oposta aos objetivos dos centros
irradiadores ocidentais e deveria abranger a criação do bloco
eurasiano”.
“Ele
não é um ideólogo, é um realista pragmático, mas entende que a minha
visão é a certa se a Rússia quiser se jogar de cabeça nos desafios que
virão nos próximos anos”.
Dugin
falou isso em 2018 e as jogadas de Putin parecem espelhar suas teorias,
inspiradas, entre outros, numa das figuras mais misteriosas do fascismo
italiano, Julius Evora, que misturava ocultismo com uma rejeição a
todos os fundamentos do pensamento ocidental, incluindo democracia,
liberalismo e cristianismo.
“Os
livros de Evora mudaram minha vida. Nunca tinha visto ninguém descrever
as contradições do mundo moderno como ele”, diz Dugin, que se apresenta
como um “tradicionalista” e propõe uma “quarta teoria política”, acima
da democracia liberal, do marxismo e do fascismo.
Nos
momentos mais ambiciosos, o “grande projeto euroasiático” vai de Dublin
a Vladivostok, numa espécie de delírio de grandeza conduzida por
“russos étnicos”. Nos mais realistas, ele reconstrói a esfera russa
“tradicional”.
Nessa
visão, restaurar a Ucrânia (e a Belarus) como parte integrante da
Rússia não é um capricho de autocrata, um desafio ao Ocidente flagrado
num momento de fraqueza, mas uma etapa fundamental no processo de
separar a Europa dos Estados Unidos e avançar na criação do grande
projeto euroasiático.
O comentarista inglês Charles Moore resumiu no Telegraph, em termos bem diretos, as motivações de Putin.
“Vladimir
Putin é nosso inimigo. Não quero dizer que ele pessoalmente alimente um
ódio escaldante contra nós (embora isso possa ser verdade, apesar de
estacionar seu bilhões de origem espúria conosco).”
“O
que quero dizer é que ele acredita que o Ocidente é o inimigo eterno da
Rússia e o melhor para a Rússia é nos derrotar sempre que possível.
Quando perdemos, a Rússia ganha, e vice-versa”.
Esta
é, muito simplificadamente, a teoria de Alexander Dugin. Muitas de suas
ideias, em especial quando entram na esfera da antiglobalização, são
simpáticas ao populismo de direita da Europa, incluindo os partidos
liderados por Marine Le Pen, na França, e Matteo Salvini, na Itália. Ele
também já teve um encontro com Steve Bannon (“o único intelectual
americano familiarizado com Evola e Guenon e interessado em Heidegger”,
elogiou). Daí o elo conceitual entre o putinismo e movimentos
conservadores não tradicionais.
Dugin
já criou um Partido Eurásia e o Movimento Internacional Eurasiano. São
expressões e ideias que lembram Orwell, quando não teorias
supremacistas.
“O
euroasianismo é uma combinação tóxica de ideias tiradas da metafísica,
do simbolismo, do esoterismo e do racismo”, diz a escritora Claude
Forthomme. “Tem raízes profundas na bizarra visão histórica etnocêntrica
de Dugin na qual a Rússia ocupa o lugar central e o Ocidente a
periferia. O liberalismo ocidental é totalmente rejeitado e o povo russo
é promovido a senhor do continente. Dugin argumenta que ele surgiu na
aurora dos tempos e antecede todos os outros povos. Por isso, tem o
direito de mandar nos outros povos do continente euroasiático”.
O que Putin aproveita desse cozido e o que ele deixa no fundo do caldeirão?
Estamos
vendo agora. O que parecia inconcebível, dobrar um país inteiro na base
da força bruta, está acontecendo em plena Europa. E Alexander Dugin
começa a parecer como uma figura bem mais importante do que um guru
barbudo cheio de ideias alucinadas.
Muitas
delas constam do site Geopolitica (com o mote “Carthago delenda est”,
referência não à cidade adversária de Roma, mas aos inimigos atuais),
que tem uma seção voltada para o Brasil, em português – entre outras
doze línguas.
Importante: Dugin é brilhante, cheio de nuances, e reconhece que “é impossível” assimilar a Ucrânia ocidental à Eurasia.
“Nem
Stálin conseguiu integrar estes territórios e ele empregou métodos
bastante duros”, comenta, obviamente subdimensionando os “métodos”
stalinistas.
“Só
deveríamos tomar o que podemos realisticamente assimilar e defender.
Stálin entendeu isso muito bem em relação à Europa, procurando em
diversas ocasiões a sua ‘finlandização’ ou ‘neutralização’. Não
conseguimos assimilar a Europa Oriental e continuar a segurá-la pela
força teria sido suicídio”.
“Construir um império – ou reavivar um império perdido – é uma arte complicada e não é um processo linear ou monótono”.
De monotonia é o que ninguém pode reclamar nesse momento de intersecção entre a dupla Putin e Dugin.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
Nenhum comentário:
Postar um comentário