Coluna de Flavio Gordon para a Gazeta do Povo:
“Por
que teus ossos, devidamente consagrados, enterrados com as devidas
cerimônias / Romperam a mortalha; por que o sepulcro, / Onde te
depusemos tão tranquilamente, / Abriu suas pesadas mandíbulas de mármore
/ Pra te jogar outra vez neste mundo?” (Hamlet, Ato I, Cena 4)
“Quando
você vê os impressionantes comícios de Fidel Castro, capaz de falar por
90 minutos sob um sol de 40 graus, você se pergunta qual a necessidade
de eleições.” (Pierre Trudeau, pai de Justin, em visita a Cuba no ano de
1964).
“Admiro
em alto grau a China, porque a sua ditadura básica tem permitido aos
chineses dar uma guinada em sua economia e dizer ‘precisamos ser mais
sustentáveis’... ‘precisamos começar a investir em energia solar’.”
(Justin Trudeau em 2013, respondendo a uma partidária que lhe perguntara
qual país, além do Canadá, ele mais admirava)
No
dia 13 de agosto de 2006, Alexandre Trudeau, irmão do primeiro-ministro
canadense Justin Trudeau, publicou no Toronto Star um artigo intitulado
“Os últimos dias do patriarca”. Era uma homenagem ao ditador cubano
Fidel Castro, que então completava 80 anos de idade. No texto, Sacha
(era esse o apelido de origem russa utilizado em casa) tratava Castro
como “um grande aventureiro”, “um grande espírito científico”, alguém
cujo intelecto “é dos mais vastos e completos que se pode encontrar”.
Além disso, o ditador seria também “um expert em genética, em
automotores a combustão, em mercado de ações, em tudo... uma espécie de
super-homem”.
“Revolucionário
e orador lendário, o sr. Castro melhorou consideravelmente a educação e
a saúde de seu país (...) Sei que meu pai tinha muito orgulho de o
chamar de amigo.”
Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá, sobre Fidel Castro, por ocasião da morte do ditador cubano.
Sacha
rogava aos leitores que avaliassem Castro “em termos psicanalíticos”,
como se o ditador fosse o grande pai e os cidadãos cubanos, seus filhos –
“frequentemente queixosos, como são queixosos os filhos adolescentes em
relação às exigências de um pai rigoroso”. Sobre o papel mítico de
Fidel Castro no seio da família Trudeau, escrevia o irmão de Justin:
“Cresci
sabendo que Fidel Castro tinha um lugar especial dentre os amigos da
família. Tínhamos em casa uma foto dele: um grande homem barbudo,
vestido em trajes militares, e que carregava nos braços o meu irmão
Michel [irmão mais novo de Justin, falecido numa avalanche em 1998].
Quando conheceu o meu irmãozinho em 1976, Fidel deu-lhe um apelido que o
acompanharia pelo resto da vida: ‘Micha-Miche’. Tempos mais tarde,
quando Michel tinha por volta de 8 anos, lembro-me de o ver reclamando
com minha mãe pelo fato de ter menos amigos do que tínhamos eu e o nosso
irmão mais velho [Justin]. Minha mãe, então, respondia que ele tinha o
melhor amigo de todos: ele tinha Fidel”.
Dez
anos mais tarde, quando o ditador morreu, aos 90 anos de idade, o já
primeiro-ministro Justin Trudeau manifestou seu pesar nos seguintes
termos: “Revolucionário e orador lendário, o sr. Castro melhorou
consideravelmente a educação e a saúde de seu país”. E arrematou com a
velha referência familiar: “Sei que meu pai tinha muito orgulho de o
chamar de amigo”.
O
pai de Justin era Pierre Trudeau, um revolucionário de
extrema-esquerda, assim como o filho. Também primeiro-ministro do Canadá
entre os anos de 1968 e 1984, Trudeau pai tinha um carinho todo
especial por ditaduras comunistas, tendo manifestado por diversas vezes
seu entusiasmo não só pelo amigo Fidel Castro, mas também por Stalin e
Mao Tse-tung. É o que mostram biografias como Three Nights In Havana:
Pierre Trudeau, Fidel Castro, and the Cold War World, do historiador
Robert Wright, e The Truth About Trudeau, do também historiador Bob
Plamondon, obras nas quais se encontra um vasto material documental
sobre a estranha devoção trudeauniana à tirania.
Dentre
vários fatos interessantes, ficamos sabendo, por exemplo, que Pierre
visitou a União Soviética em 1952, na companhia de quatro comunistas
canadenses, a fim de “discutir economia”, ocasião em que teria dito à
esposa do vice-embaixador americano que também era comunista, tendo sua
visita o objetivo de criticar os EUA e louvar a URSS. Que, em 1960, foi à
China justo quando o “Grande Salto” de Mao Tsé-tung, na esteira do
Holodomor ucraniano, resultava na morte por inanição de mais de 20
milhões de pessoas, e que acreditou piamente – a ponto de propagandeá-lo
em sua terra natal – no “paraíso” artificial montado em visitas
cenográficas aos campos e cidades chineses. Que, em 1964, fez sua
primeira visita a Cuba, maravilhando-se com o carisma e a oratória do
ditador caribenho, que o levou a comentar: “Quando você vê os
impressionantes comícios de Fidel Castro, capaz de falar por 90 minutos
sob um sol de 40 graus, você se pergunta qual a necessidade de
eleições”.
Em
1976, já primeiro-ministro, Pierre fez uma famosa visita oficial ao
amigo Castro, sendo recebido na ilha-prisão, junto com a família, com
toda a pompa e circunstância (para maiores detalhes, recomenda-se o
livro de Robert Wright citado mais acima). Ocorreu nessa viagem o
episódio em que Castro pegou “Miche” no colo, momento registrado na
fotografia que a família Trudeau tinha em casa, e à qual Sacha se refere
em sua laudação no Toronto Star. Mas, como informa matéria do The
Ottawa Journal publicada em 13 de abril de 1971, é possível que, em
torno dessa data, Pierre e sua esposa Margaret já tivessem estado em
Cuba (a matéria fala apenas em “ilha não identificada” próxima a
Barbados) para uma “segunda lua de mel”.
Foi
essa discreta segunda lua de mel dos Trudeau que deu origem ao famoso
boato segundo o qual Justin seria filho biológico e bastardo de Fidel
Castro, fruto de um provável caso entre Margaret Sinclair e o ditador
caribenho, a quem esta se referiu certa vez como “o homem mais sexy” que
conhecera, e com quem flertava o tempo todo. Tudo isso sob as barbas de
Pierre, que, adepto do comunismo sexual (assim reza a lenda), teria
consentido com o romance. O boato é naturalmente reforçado pela
espantosa semelhança física entre o falecido ditador e – já se pode
chamá-lo assim! – o ditador debutante.
Se
Justin Trudeau é realmente filho de Fidel Castro não se sabe. Mas aqui a
ciência política deve ceder lugar à literatura. Pois há um sabor de
trágico shakespeareano (e talvez freudiano) em todo o histórico familiar
do atual primeiro-ministro canadense. Se formos analisar o caso “em
termos psicanalíticos” – para seguir a sugestão de Sacha Trudeau –,
parece haver uma filiação, se não factualmente biológica, decerto
manifestamente espiritual, entre ele e o tirano caribenho. Algo como uma
vocação ditatorial herdada, qual doença genética, pelo clã dos Trudeau.
Só
essa espécie de maldição familiar, como que transmitida pelo sangue,
explicaria a bizarra invocação da Lei de Emergências, nunca antes usada
numa pretensa democracia como a canadense, e que, segundo o jornalista
americano Matt Taibbi (editor da outrora trudeauniana Rolling Stone),
leva o primeiro-ministro a viver o seu “momento Ceaușescu”, ou, na
opinião do humorista Bill Maher, a falar como Adolf Hitler. Como tuitou o
próprio Justin em 2012, parecendo referir-se ao Justin de 2022: “Quando
um governo começa a tentar coibir ou evitar o dissenso, é sinal de que
está rapidamente perdendo a sua autoridade moral para governar”.
Com
efeito. “Trudeau foi longe demais” – é o que afirma categoricamente o
Toronto Sun em editorial. O emasculado Justin, principal liderança woke
do mundo, já perdeu totalmente a sua autoridade moral para governar. E
onde falta autoridade sobra autoritarismo. O que nos faz lembrar do
alerta lapidar de Jordan Peterson, que parece ter sido concebido para
Trudeau: “Se você acha que os homens durões são perigosos, espere até
ver do que são capazes os homens fracos”.
Sim,
nesse ponto a análise política torna-se mesmo ineficaz. Porque só um
desejo inconsciente, neurótico e trágico de agradar ao “pai”
fantasmagórico, uma obsessão por realizar o projeto de vida do espectral
“patriarca”, poderia nos dar pistas de como, da noite para o dia, o
cidadão canadense foi dormir no Canadá e acordar em Cuba.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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