Saquei o celular do bolso e não deu outra: lá estava o erro ortográfico. Paulo Polzonoff para a Gazeta do Povo:
Estava
no meio das compras, prestes a concluir os itens essenciais para dar
início às delícias engordativas, quando senti uma coceirinha meio
estranha no cérebro. Dei mais alguns passos e passei pelo café que
estava na lista, mas o ignorei. Percebi logo que não conseguiria
terminar as compras com essa angústia. Saquei o celular do bolso e não
deu outra: lá estava o erro ortográfico.
Crasso,
como convém chamá-lo. E, neste caso, um tanto quanto inusitado. Troquei
mal por mau – o que nunca me aconteceu antes (dizem). Não que eu
lembre. Uma vez constatado o erro, senti a calva e o rosto queimarem de
vergonha. Olhei para os lados. Era como se todos no mercado apontassem o
dedo para mim e me chamassem de burro. No caixa, a atendente passava as
compras pelo leitor num silêncio que, para mim, era pura zombaria.
“Débito ou crédito?”, perguntou ela na hora fatídica. Nas entrelinhas,
contudo, entendi que ela estava questionando minha capacidade de
escrever. O “tchau” que ela me deu soou como um “nunca mais volte aqui,
seu analfabeto!”.
Entrei
no carro e dirigi feito um louco, me desviando dos radares novos que o
prefeito diz serem capazes de flagrar até motorista porco tirando tatu
do nariz. Foi quando a vergonha deu lugar à revolta com um quê de
depressãozinha. Afinal, o texto estava publicado já há algumas horas e
ninguém – ninguém! – me corrigiu. Um erro tão evidente. Tão... crasso.
Tão humilhante. O mais solitário dos escritores é aquele que não tem
ninguém para lhe dizer que o certo era mal [põe a língua no céu da
boca].
Se
bem que talvez seja melhor assim. Nesses tempos em que tudo o que os
adversários mais querem é um tropeçozinho no português que sirva como
prova da estupidez e, já que estamos nessa toada, má intenção do outro
lado, é até um consolo notar que a geração Paulo Freire não tem capacidade de reconhecer um erro ortográfico. Quanto mais avaliá-lo por sua gravidade ou não.
Porque,
convenhamos, há erros e herros. Errar o mal/mau, por exemplo, é uma
coisa; errar crase é outra totalmente diferente. Errar os porquês é
plenamente perdoável; já o “para mim fazer” é caso para cadeira
elétrica. Em se tratando de erros ortográficos, também é relevante quem
erra. Um cronista que erra é umano; já um ministro da Educação que erra é alguém que, sei lá, vai autoritariamente impor o erro como nova norma. Ou qualquer outro desses delírios aí.
Finalmente
cheguei em casa. Deixei as compras no carro mesmo e corri para o
elevador. Subi os poucos andares que pareciam mais de uma centena
entoando um mantra: mal é o contrário de bem; mau é o contrário de bom.
Diante da porta de casa, a chave parecia não entrar na fechadura. Pensei
em arrombar tudo e gritar “eu preciso corrigir aquele erro!!!”, mas é
que sou exagerado mesmo. Uma vez dentro do apartamento, ignorei os
pedidos de atenção do gatinho e corri para o computador.
Sensação
de alívio, essa de se autocorrigir. É como se estivesse colocando ordem
no mundo. Não, no Universo! Saiu o “u” e entrou o “l”. E tudo o que não
fazia sentido havia apenas um segundo agora parecia cristalino. A grama
voltou a ser verde. Dois mais dois voltou a ser quatro. Me senti tão
bem que ousei até fazer algumas considerações sobre os erros alheios.
Afinal, o que é mais repugnante: um mau que era para ser mal ou quem não
sabe usar o verbo “possuir”? Um porquê que era para ser separado e
acabou junto ou essas pessoas que não sabem organizar a sentença e usam
vírgula depois de travessão? Um há que ficou capenga do agá ou quem
semeia vírgulas a esmo pela frase? Ou ou ou ou – me empolguei.
No
fundo (tá, nem tão no fundo assim) essa coisa de ficar corrigindo os
outros é perversazinha. Porque aquele que corrige raramente leva em
consideração o lapso ou a pressa ou a confusão mental depois de um dia
cheio de trabalho. Na beligerância atual, aquele que corrige sempre
parte do pressuposto de que a pessoa que errou é uma ignorante que, se
não domina o básico da língua, a ortografia, tampouco domina os
elementos mais complexos dela.
Nem
bem desliguei o computador, feliz por não viver mais na era do
jornalismo impresso, quando me bateu a dúvida novamente. Aquele senão no
parágrafo acima é junto ou separado? Na cozinha, minha mulher contava
um sonho ou falava da inflação argentina – não tenho a menor ideia.
Incapaz de continuar alimentando a dúvida quanto à minha própria
capacidade de escrever, saquei o celular do bolso e. Ufa.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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