Agora a “famiglia” Bolsonaro, juntamente com o Centrão, apoia a PEC que o ministério de Guedes apelidou de “PEC Kamikaze”. Irá Guedes exonerar-se? Não creio. Guedes é Guedes. Ele já deu provas suficientes de que não é Sergio Moro. Artigo do professor José J. de Espíndola para a Gazeta do Povo:
Diz
o jornal Folha de S.Paulo de 12 de janeiro: “Em mais um revés para
Paulo Guedes, o presidente Jair Bolsonaro (PL) dividiu a
responsabilidade pela execução do Orçamento de 2022 entre o Ministério
da Economia e a Casa Civil, deixando a caneta também nas mãos de Ciro
Nogueira (PP), cacique do Centrão. O decreto exige anuência da pasta de
Ciro Nogueira para detalhes operacionais de gastos, que antes ficavam
apenas sob Paulo Guedes”. Mais uma vez Bolsonaro pôs uma raposa a tomar
conta do galinheiro. O “galinheiro”, no caso, é o Orçamento da
República, onde fica boa parte do dinheiro do contribuinte brasileiro. A
raposa da vez, Ciro Nogueira, é um dos caciques do que existe de mais
fisiológico, de mais distorcido, de mais corrompido, de mais nefasto na
política brasileira: o Centrão.
Vale
lembrar, mesmo que rapidamente, alguns dados da carreira política do
hoje todo-poderoso Ciro Nogueira, chefe da Casa Civil e dono de fato do
Orçamento. Ele entrou na política aos 26 anos e, passados já 27 anos,
não fez outra coisa perceptível ao cidadão comum além de política.
Presidente do PP, Ciro está envolvido em três investigações criminais no
STF. Dá para antecipar que isto vai dar em nada, não porque Ciro seja
inocente, mas porque o STF é aquele buraco negro que conhecemos, onde
tudo que lá entra, em termos de investigação e processo, jamais escapa
de seu horizonte de eventos. Ou decide em favor do poderoso, ou deixa a
decisão para as Calendas gregas. Ciro, portanto, não tem de se preocupar
com o STF, como de fato demonstra não se preocupar. A impressão – que
não é de hoje – é de que há algo de podre no reino de nossa suprema
corte.
Segundo
a Folha de S.Paulo de 15 de agosto de 2018, Ciro Nogueira registrou um
crescimento de 1.082% em seu patrimônio entre 2010 e 2018, ano em que
informou à Justiça Eleitoral possuir um patrimônio equivalente a R$ 23,3
milhões – em 2010, ele informara ter R$ 1,9 milhão em bens. Entre os
bens declarados pelo então senador há uma aeronave avaliada em R$ 2,8
milhões e participações em empresas que somam R$ 19,3 milhões.
Resumindo, Ciro Nogueira é um fenômeno da multiplicação de bens,
mormente quando se pensa que sua única atividade (percebida) em todos
estes anos foi a política. Vale aqui lembrar o genial Millôr Fernandes:
“Tome nota, amigo: as aparências não enganam”.
Ciro
Nogueira é, desde 4 de agosto de 2021, por nomeação de Jair Bolsonaro, o
chefe da Casa Civil da Presidência da República. E agora, também por
decisão de Bolsonaro, divide com Paulo Guedes a responsabilidade (ou
será irresponsabilidade?) pela execução do Orçamento da República.
Bolsonaro é assim: não se conforma em se associar ao pior, mas exige o
pior entres os piores.
No
início de fevereiro, surgiu a informação de que o senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro, validou uma PEC
que objetiva gerar uma redução nos impostos sobre os combustíveis. Foi
um ato apenas pessoal de Flávio, ou isto indica um apoio orquestrado?
Como “as aparências não enganam”, penso que a assinatura de Flávio
representa, pelo menos, o consenso da “famiglia” Bolsonaro, se não o do
Centrão. A conferir. O projeto já foi intitulado pelo ministério de
Paulo Guedes de “PEC Kamikaze”, já que deverá gerar um impacto negativo
de mais de R$ 100 bilhões nos cofres da União. Trata-se de uma
irresponsabilidade fiscal, fazendo com que o sistema tributário seja
violado. O objetivo da irresponsabilidade fiscal é claramente
eleitoreiro. Em um ano eleitoral, Bolsonaro, juntamente com o Centrão,
faz de tudo, até mesmo uma PEC irresponsável, visando alavancar suas
hoje duvidosas possibilidades de reeleição. Este governo é uma sucessão
de frustações.
O
leitor sabe que este extremo cinismo de Bolsonaro não deve ser motivo
de risos, mas de choro. Choro e raiva. Choro e raiva cidadãos. Choro e
raiva que todo farsante provoca nas pessoas de bem e livres da
imunização cognitiva, portanto capazes de inteligir a pilantragem dos
piores pilantras.
Jair
Bolsonaro, no governo, tornou-se a antítese do que se dizia ser na
campanha eleitoral de 2018 e no início de seu governo, até notar que
“tinha um Flávio Bolsonaro no meio do caminho” – seu filho senador, em
risco de sofrer um processo de cassação no Senado, sem prejuízo do que
viesse a sofrer posteriormente na Justiça. A partir daí, Bolsonaro
começou a cortejar o Centrão e a fritar publicamente Sergio Moro, tido
como obstáculo para a blindagem do filho na Polícia Federal. A fritura
pública durou até que veio à tona toda a truculência de Bolsonaro contra
Moro naquela vergonhosa reunião ministerial de 22 de abril de 2021. No
Twitter, Moro escreveu: “O acesso ao vídeo da reunião ministerial do dia
22/4 confirma o conteúdo do meu depoimento em relação à interferência
na Polícia Federal, motivo pelo qual deixei o governo”. A continuada
interferência de Bolsonaro na PF é agora assunto diário na imprensa
independente.
Mas,
antes, a saída de Moro do governo de Bolsonaro já estivera por um fio.
Foi quando Bolsonaro, em um briefing, momentos antes de embarcar numa
viagem internacional, anunciou a intenção de dividir o Ministério da
Justiça e Segurança Pública em dois: um Ministério da Justiça e um
Ministério da Segurança Pública. Ou seja, Bolsonaro “estudava” tirar a
segurança pública – o mais visível e mais bem-sucedido setor do governo –
das mãos íntegras, competentes, eficientes e eficazes de Sergio Moro
(alguma semelhança com a divisão da responsabilidade pela execução do
Orçamento de 2022 entre o Ministério da Economia e a Casa Civil,
deixando a caneta também nas mãos de Ciro Nogueira, “cacicão” do
Centrão?).
Naquele
infame briefing, Bolsonaro esgarçou sua imensa caixa de mentiras e
falsidades, como já demonstrei aqui mesmo na Gazeta do Povo. No mesmo
dia Moro deixou clara sua intenção de renunciar, quando foi assediado
por ministros (em geral da área militar) para não sair do governo,
garantindo que Bolsonaro não faria o que anunciou que faria. De fato, no
dia seguinte, do país onde estava, Bolsonaro comunicou que não haveria a
divisão do ministério de Moro – divisão que garantira na véspera.
A
interferência na Polícia Federal foi a gota d’água para que Moro
achasse que “enough is enough” e decidisse abandonar o governo antes que
ele se tornasse esta vergonha atual. Mas Moro é Moro e Guedes é Guedes.
Cada um com seus princípios éticos e morais, ou falta dos mesmos. O
fato é que pessoas íntegras são regidas por princípios; os outros, nem
tanto. Moro não estava no governo por conveniências pessoais e,
consequentemente, não aceitava engolir sapo, mormente quando o sapo era
identificado como o interesse escuso de Jair Bolsonaro de interferir na
PF para blindar sua “famiglia”. Moro não permaneceu no governo porque
isso se tornara incompatível com os interesses do Estado e com sua
honra. É muito significativa a correspondência – hoje pública – trocada
entre a deputada bolsonarista Carla Zambelli e Sergio Moro, horas antes
deste oficializar sua exoneração do governo. Escreveu Zambelli: “Por
favor, ministro, aceite o Ramage [amigo da “famiglia” Bolsonaro, como
novo chefe da PF] e vá em setembro para o STF. Eu me comprometo a fazer o
JB prometer”. A resposta de Moro foi curta e definitiva: “Prezada, não
estou à venda”.
A
administração de Guedes tem sido atropelada por interferências nada
republicanas do Centrão, sempre escudadas em Jair Bolsonaro. As reformas
que prometera na campanha ficaram – à exceção da reforma da Previdência
– na promessa. As privatizações, vitais para uma administração
saudável, também ficaram, em boa parte, no tinteiro. O boicote a Guedes é
público e notório e conta sempre com Jair Bolsonaro dando apoio ao
Centrão. A atual divisão de responsabilidade pela execução do Orçamento
de 2022, entre o Ministério da Economia e a Casa Civil, deveria ser a
gota que faltava para Guedes pedir o chapéu, sair do governo e assim
zelar por sua reputação. Guedes, entretanto, não se exonerou. Agora a
“famiglia” Bolsonaro, juntamente com o Centrão, apoia a PEC que o
ministério de Guedes apelidou de “PEC Kamikaze”. Irá Guedes exonerar-se?
Não creio. Guedes é Guedes. Ele já deu provas suficientes de que não é
Sergio Moro.
José
J. de Espíndola é engenheiro mecânico, mestre em Ciências em
Engenharia, Ph.D. pela Universidade de Southampton (Inglaterra),
ex-coordenador nacional de Pós-Graduação das Engenharias III da
Capes/MEC, doutor honoris causa pela UFPR e professor titular aposentado
da UFSC.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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