A cautelosa investigação sobre a acusação contra o ex-presidente de ter um canal secreto com a Rússia avança e envolve atual assessor de Segurança Nacional. Vilma Gryzinski:
A
Rússia tem Sergei Lavrov, o atilado, implacável e brutal ministro das
Relações Exteriores. Os Estados Unidos têm dois pesos ligeiros, o
secretário de Estado Antony Blinken e o assessor de Segurança Nacional
Jake Sullivan.
Enquanto
Blinken opera nos bastidores da diplomacia, a crise da Ucrânia trouxe
Sullivan para a frente das câmeras. Coube a ele ser o porta-voz da
estratégia do governo Biden – alardear incessantemente que uma invasão
russa aconteceria a qualquer momento. Durante vários dias, esteve em
todas as televisões anunciando a iminência da intervenção.
Simultaneamente,
outra “crise russa” se desenrola. Como só acontece nas democracias com
um sistema de freios e contrapesos, Sullivan, que assumiu o cargo de
enorme responsabilidade aos 43 anos, também está sendo envolvido na
investigação que apura se houve ilicitudes na campanha para acusar
Donald Trump de ter conspirado com a inteligência russa para sabotar a
candidatura de Hillary Clinton.
Como
nas boas histórias de suspense, a investigação a cargo de um jurista
especial, John Durham, que trabalha em silêncio profundo, tem dado
pistas exatamente da versão contrária: foi a campanha da candidata
democrata que recorreu a truques sujos.
O
mais suspeito de todos: uma empresa de informática recebeu a
incumbência de um advogado ligado a Hillary para se infiltrar nos
servidores da Trump Tower e, mais inacreditavelmente ainda, da própria
Casa Branca.
Por
enquanto, são inferências tiradas a partir dos cautelosos movimentos de
Durham. Até agora, o investigador oficial só apresentou queixa contra o
advogado Michael Sussmann, confirmada por um juizado de instrução no
fim do ano passado, por mentir em depoimento ao FBI. A documentação
sobre a aparente infiltração é um documento separado e não cita nomes.
Mas
rapidamente foi recuperada uma declaração feita por Sullivan em 2016,
quando participava da campanha de Hillary. O trecho mais complicado
dizia que “cientistas de computação aparentemente descobriram um
servidor secreto ligando a Organização Trump a um banco sediado na
Rússia”.
“Esta linha secreta pode ser a chave que desvenda o mistérios das ligações de Trump com a Rússia”.
A
declaração à imprensa agora tem o potencial de sabotar a carreira de
Sullivan – exatamente num momento crucial de confronto com a Rússia.
Obviamente, políticos republicanos estão tentando tirar o máximo possível do caso.
“Jake
Sullivan insuflou a farsa da Rússia. Ele sabia que era mentira. Agora,
ele trabalha na Casa Branca de Biden”, tuitou o deputado republicano Jim
Jordan.
A
senadora Marsha Blackburn avançou mais: “O envolvimento de Jake
Sullivan na farsa da conspiração com a Rússia não deveria permitir que
fale em nome dos Estados Unidos no momento em que as tensões da Rússia
com a Ucrânia disparam”.
No habitual estilo deixa que eu chuto, o próprio Trump disse que espionar a Casa Branca “em outros tempos daria pena de morte”.
A
narrativa de uma ligação espúria de Trump com Moscou começou a ser
construída antes mesmo que ele tomasse posse, com a divulgação do infame
dossiê segundo o qual a inteligência russa tinha fatos comprometedores
sobre o presidenciável, incluindo a cena em que teria compartilhado uma
cama de hotel com duas prostitutas contratadas para praticar o fetiche
sexual conhecido como “chuva de ouro”. Quem não sabia, descobriu o que é
isso.
Trump
tomou posse sob a acusação de gravidade sem precedente: seria ele um
agente, voluntário ou não, a serviço de Vladimir Putin? Figuras do
establishment e os maiores órgãos de imprensa, jornais como o New York
Times e o Washington Post, promoveram essa narrativa, que acabou
redundando no primeiro processo de impeachment contra ele.
O
dossiê acabou sendo desacreditado e Trump arrancou do Departamento da
Justiça a investigação comandada por John Durham, cujos resultados
iniciais começam a aparecer agora. Ainda há muito pela frente.
Sullivan
foi um precoce assessor de Hillary, com currículo de garoto prodígio,
quando ela ocupou o Departamento de Estado, no governo Obama. Orgulha-se
de ter acompanhado a ministra em suas 122 viagens internacionais – um
número impressionante, embora os resultados concretos não tenham sido
exatamente notáveis.
Daí
foi para a equipe de Joe Biden, então vice-presidente, depois passou
para a campanha presidencial fracassada de Hillary e agora ressurgiu
como o assessor de Segurança Nacional de Biden. Com expressão confiável e
habilidade de advogado formado em Yale, ele passa uma imagem de
credibilidade, apesar de não ter a gravitas associada ao cargo.
E
se for tudo apenas imagem? Ou comprovado que Sullivan participou de um
jogo mais do que sujo, ilegal, para sabotar Trump? E o presidente que
tinha o perfil perfeito para ser o vilão na verdade tiver sido vítima?
As
contranarrativas ainda estão sendo construídas. Vão avançar mais quando
o enorme ruído gerado pela ameaça bélica da Rússia à Ucrânia baixar o
volume.
Também
criam uma complicação extra para a hipótese, que vive indo e voltando,
de uma possível candidatura de Hillary Clinton em 2024, caso Biden entre
em parafuso.
Espírito de campanha ela já tem.
“Trump
e a Fox estão alimentando desesperadamente um falso escândalo para
distrair as atenções”, tuitou ela, depois de quatro dias de silêncio
sobre o caso.
“Quanto mais os malfeitos dele são expostos, mais mentem”.
Uma frase que pode ser associada a mais de um político.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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