A prevenção e a recuperação, guindadas à condição de prioridade da Política Nacional de Drogas, merecem o apoio de todos nós. Carlos Alberto Di Franco para o Estadão:
Ruy
Castro, o brilhante autor de O Anjo Pornográfico e Chega de Saudade,
livros obrigatórios para quem gosta de um belo texto, foi certeiro,
corajoso e politicamente incorreto numa de suas antigas colunas na Folha
de S.Paulo. Ao comentar a Política Nacional de Drogas do governo que
investe na abstinência do usuário, em vez da redução de danos, Castro
fechou com a proposta. Armado de uma sinceridade afiada, fruto da
experiência vivida e sofrida, não fez concessões.
Considerou
um equívoco, marca registrada da política de redução de danos, a
referência aos usuários cujo grau de dependência seja mais baixo. “Na
condição de dependente químico que se tratou há 31 anos e tem se mantido
à distância dos produtos, aprendi, comigo mesmo e com usuários e
dependentes com quem convivi, que as duas categorias não formam uma
mesma pessoa. Um usuário pode passar a vida usando sua droga em
quantidade razoável para seu organismo – e apenas para este – sem se
tornar dependente. Mas, se a dependência se instalar – ou seja, se o
organismo passar a exigir a droga para se manter estável –, não haverá
mais possibilidade de autocontrole.” E concluiu, carregado de realismo e
com uma chispa de ironia: “Bater papo com o terapeuta no consultório e
continuar bebendo ou cheirando só fará bem ao terapeuta”. É isso aí.
Rigorosamente.
As
drogas avançam. Devastam. Matam. No mercado da cocaína o Brasil exerce
triste liderança. O País é hoje o maior espaço consumidor da droga na
América do Sul e, provavelmente, o segundo maior nas Américas. Cresce em
progressão geométrica a demanda doméstica. Ademais, somos hoje um
importante corredor de distribuição mundial. As consequências dessa
assustadora escalada podem ser comprovadas nos boletins de ocorrência de
qualquer delegacia de polícia. O tráfico e o consumo de drogas estão na
raiz dos roubos, das rebeliões nos presídios e da imensa maioria dos
homicídios.
Multiplicam-se,
paradoxalmente, declarações otimistas a respeito das estratégias de
redução de danos. O essencial, imaginam os defensores dessa corrente,
não é a interrupção imediata do uso de drogas pelo dependente, mas que
ele tenha uma melhora em suas condições gerais. A opção pela redução de
danos pode ser justificada em determinadas situações, mas não deve ser
guindada à condição de política pública. Afinal, todos sabem que, assim
como não existe meia gravidez, também não há meia dependência. Embora
alguns usuários possam imaginar que sejam capazes de controlar o
consumo, cedo ou tarde descobrem que, de fato, já não são senhores de si
próprios. Não existe consumidor ocasional. Existe, sim, usuário
iniciante que, frequentemente, engrossa as fileiras dos dependentes
crônicos. Afinal, a compulsão é a marca do usuário de drogas. Um cigarro
de maconha pode ser o começo de um itinerário rumo ao desespero.
Mas
os “vanguardistas” não desistem. Defendem, irresponsavelmente, a
criação de locais especiais de “uso seguro” das drogas para dependentes
graves. Nesses espaços não haveria repressão ao consumo. Os viciados
seriam estimulados a substituir drogas pesadas por outras supostamente
leves, como a maconha. A pretensa inocuidade da maconha termina,
frequentemente, no sequestro da esperança e do futuro.
A
descriminalização da maconha está na pauta do Supremo Tribunal Federal
(STF). É provável, muito provável mesmo, que o resultado seja oposto à
vontade popular – o povo não deseja um Estado leniente com o consumo de
entorpecentes. Mas o ativismo judicial não está nem aí para o sentimento
da sociedade. Creio, amigo leitor, que o motivo real para este
julgamento não é a descriminalização do consumo de pequenas quantidades
de maconha. Esse é apenas o pretexto, o primeiro passo, o cavalo de
Troia de uma engenharia de costumes muito maior: a legalização não
apenas da maconha, mas de toda a sorte de entorpecentes. Existe uma
agenda mundial para a naturalização do consumo de drogas. E o STF,
passando por cima do Congresso, está alinhado com a perversa estratégia
global. Ativismo judicial na veia.
Alerta
o respeitado psiquiatra Ronaldo Laranjeira, professor do Departamento
de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp): “Artigos
recentes mostram de uma forma inquestionável que o consumo de maconha
aumenta em muito o risco de os jovens desenvolverem doenças mentais. Do
meu ponto de vista, essa geração que consome maiores quantidades de
maconha do que a geração anterior pagará um alto preço em termo de
aumento de quadros psiquiátricos”.
Recomendo
um excelente filme sobre drogas: Ben is back (Ben está de volta). Com
Julia Roberts e Lucas Hedges, mostra o impacto das drogas no âmbito de
uma família. Interpretação carregada de realismo e sem fugas
politicamente corretas. Vale a pena.
O
hediondo mercado das drogas está dizimando a juventude. Movimenta muito
dinheiro. Seu poder corruptor anula, na prática, estratégias meramente
repressivas. A prevenção e a recuperação, guindadas à condição de
prioridade da Política Nacional de Drogas, merecem o apoio de todos nós.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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