Bonecas russas: a vida sacrificada das meninas que fazem milagre no gelo.
Nem
guerra na Ucrânia nem fila de visitantes estrangeiros no Kremlin, para
muitos russos o assunto é Kamila Valieva, retratada em outdoors com
emotivas mensagens de apoio.
A
história de Kamila, que começou a participar de competições
internacionais há apenas quatro meses, virou o principal assunto da
Olimpíada de Inverno na China.
Será
que a menina de apenas 15 anos, capaz de dar um salto quádruplo e
aterrissar sobre um único pé como se fosse a coisa mais natural do mundo
– e não com o peso corporal aumentado em até dez vezes -, precisava
mesmo tomar um remédio para angina para turbinar um desempenho
prodigioso?
Nunca
nenhuma das hipóteses poderá sem comprovada. Mesmo que Kamila consiga
outros feitos com ficha limpa, ficará sempre a sombra do doping olímpico
– e da desculpa patética de que ela poderia ter se “contaminado” ao
tomar água no mesmo copo que o avô, cuja saliva com traços de
trimetazidina teria passado traços da substância para a neta.
Outras
duas substâncias usadas como remédios para o coração foram encontradas
na amostra de Kamila, segundo revelou o New York Times, mas não estão na
lista dos proibidos. Evidentemente, a patinadora revelação não tem
problemas cardíacos.
“Doping”
e “Rússia”, infelizmente, viraram sinônimos. Com atletas fabulosos, a
reputação do país foi arrastada para a lama depois da Olimpíada de
Sochi, a cidade perto da qual Vladimir Putin tem o seu mais luxuoso
palácio. Lá foi foi montado o esquema industrial de doping revelado por
ninguém menos do que Grigori Rodchenkov, o diretor do laboratório onde
mais de cem amostras de urina de atletas russos “turbinados” foram
escandalosamente trocadas.
O
castigo risível do Comitê Olimpíco Internacional – os atletas russos
competem sem bandeira nem hino nacional – possivelmente é uma das causas
da repetição da malandragem. A decisão de manter Kamila na competição,
embora sem cerimônia de medalhas, também causa repulsa mesmo entre as
pessoas que se compadecem da situação da adolescente, obviamente incapaz
de decidir sozinha tomar uma substância proibida. Seu choro depois de
mais uma apresentação sublime, com primeiro lugar absoluto, foi de dar
pena.
Kamila
é uma das “bonecas russas” de Eteri Tutberidze, a técnica de cacheados
cabelos loiros que já foi chamada de Cruella de Vil da patinação.
Eteri
é um cadinho de etnias (georgiana, armênia, russa) e uma personalidade
dominante do tipo visto em espores como a patinação e a ginástica
olímpica, onde os técnicos viram quase objeto de culto por parte de
meninas dedicadas e perfeccionistas, o tipo de personalidade ideal para
os sacrifícios enormes exigidos por modalidades em que, como no balé,
todo mundo tem que sofrer para alcançar o impossível, sempre com uma
expressão de naturalidade e graça.
A
técnica também seleciona suas “bonecas” pelo tipo físico: corpos quase
pré-pubescentes, ainda com quadris estreitos que dão um tipo específico
de centro de gravidade. Começa as experiências na infância, construindo a
base de força e agilidade que permitirá sua marca registrada, os saltos
quádruplos.
Segundo
os críticos, as meninas de Eteri têm prazo de validade: duram dos 15
aos 17 anos. Depois, nem os corpos prodigiosamente treinados aguentam.
Cedem às contusões e fraturas por esforço repetitivo. As placas de
crescimento também se fecham, diminuindo a flexibilidade, o corpo
amadurece e a combinação disso tudo encerra precocemente carreiras que
poderiam avançar pelos vinte e poucos anos.
O
técnico francês Benoît Richaud, uma estrela da categoria, comentou para
o Business Insider: “Eteri foi brilhante em sua abordagem ao ser a
primeira a encontrar um método para ensinar os saltos quádruplos para as
meninas, e o método funciona, mas só até os 17 anos. O que as
patinadoras fazem depois disso?”.
A
Rússia tem uma escola própria em matéria de balé, ginástica e
patinação, famosa pelo atleticismo, a combinação de força e
flexibilidade que permite os saltos mais altos, as piruetas mais
elaboradas e os espacates mais negativos.
Os
melhores viram estrelas fixas, cobertos de honrarias e admiração muito
além das Olimpíadas. Ou até mais do que isso, como aconteceu com Alina
Kabaeva, a medalhista olímpica de ginástica rítmica que se tornou,
segundo as fofocas, extremamente próxima de Putin. Tenha ou não tido um
relacionamento com ele, do qual nasceram filhos gêmeos, a linda Alina
mostrou flexibilidade suficiente para se tornar presidente do conselho
do National Media Group, um grupo privado de televisão.
Em
todos os lugares, os sacrifícios exigidos por modalidades como
ginástica ou patinação são quase incompreensíveis para as pessoas fora
desse mundo. As exigências podem causar distúrbios não apenas físicos
como emocionais. O caso de Simone Biles, na Olimpíada de Tóquio, mostrou
isso.
Simone,
a ginasta mais medalhada do mundo, ficou noiva ontem de Jonathan Owens,
um jogador de basquete com o dobro de seu tamanho. Está feliz da vida e
pronta para se aposentar das competições. Tem 24 anos.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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