MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

sábado, 11 de julho de 2020

O que aprendemos sobre a letalidade da Covid-19 seis meses depois da 1ª morte no mundo?

POLITICA LIVRE
brasil
Seis meses após o registro da primeira morte causada pelo novo coronavírus, durante o surto inicial da Covid-19 na China, a maior parte dos fatores de risco que podem fazer com que a doença seja letal já está relativamente clara, embora alguns detalhes ainda sejam complicados de elucidar.
O cenário é mais ou menos o mesmo desenhado desde que o vírus Sars-CoV-2 começou a causar sintomas graves em milhares de pessoas pela primeira vez. Idosos, obesos, membros do sexo masculino e os que já sofrem de problemas como doenças cardíacas, diabetes, câncer e mau funcionamento dos rins correm risco consideravelmente maior de morrerem do que o restante da população.
É o que mostrou o maior estudo sobre o tema já feito até agora, englobando 10.926 mortes relacionadas à ação do coronavírus no Reino Unido (veja infográfico). Ben Goldacre, da Universidade de Oxford, e Liam Smeeth, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, garimparam esses dados num universo muito maior, com mais de 17 milhões de pacientes atendidos no sistema público de saúde britânico, o que aumenta a confiabilidade estatística das conclusões.
Além das chamadas comorbidades (problemas de saúde que o paciente já tinha antes de ser infectado), fatores sociais também foram importantes para as mortes na amostra britânica, a exemplo do que tem sido visto no Brasil e em outros países. Os membros dos 20% mais pobres da população corriam, no Reino Unido, quase o dobro do risco de morte. Esse aumento do risco é comparável ao verificado entre as pessoas que não são classificadas como brancas (11% da amostra britânica).
“Não verificamos se isso se dá por falta de acesso a atendimento médico ou por questões genéticas, mas levamos em conta que há uma prevalência mais alta de problemas médicos entre as pessoas dessas etnias”, explica Goldacre.
Por outro lado, os dados, supreendentemente, não indicaram um risco aumentado de morte para pacientes fumantes. “Pessoas que fumam têm probabilidade maior de desenvolver problemas cardíacos, por exemplo. Levamos em conta as doenças do coração dos pacientes na nossa análise. É possível que, ao fazer isso, tenhamos deixado em segundo plano um aumento real do risco causado pelo fumo”, diz o pesquisador britânico.
Como a Covid-19 se espalhou com rapidez pela população mundial, sem que a maioria dos casos, com sintomas leves ou assintomáticos, fosse detectada oficialmente, os números oficiais sobre infectados e mortes não mostram de modo preciso a letalidade real causada pela doença.
Com cerca de 70 mil mortos para 1,8 milhão de casos confirmados, a letalidade oficial no Brasil é de 4%, pouco abaixo da americana (4,6%) e chinesa (5%). Análises que investigam a presença de anticorpos contra o Sars-CoV-2 na população mostram, no entanto, que muito mais gente teve contato com o vírus. Com isso, a letalidade real deve estar entre 0,5% e 1% dos infectados.
“O leigo vê esse dado e acha que 0,5% é nada. Na verdade, é muito alto”, explica o epidemiologista Paulo Lotufo, da USP. “A mortalidade anual no Brasil hoje é da ordem de 5 mortes por 1.000 habitantes, 7 por 1.000 habitantes. Ou seja, 0,5%. É como se você jogasse aí uma coisa nova com praticamente o mesmo peso”, diz o pesquisador, para quem a melhor maneira de calcular o real impacto do novo coronavírus seria calcular o excesso de mortes —ou seja, as mortes acima do limiar esperado todos os anos—, dado que não sofre com o problema da subnotificação.
Segundo Lotufo, embora as mortes tendam a ser maiores nos grupos com fatores de risco como os citados anteriormente, outra conclusão importante dos levantamentos sobre a prevalência da doença na população é que todos os grupos e todas as faixas etárias estão sujeitos a contrair o vírus. Isso faz com que, mesmo entre pacientes jovens e saudáveis, o número de mortes e casos graves seja considerável, simplesmente porque não existia imunidade alguma contra o vírus na população.
Além disso, as diferentes manifestações severas da doença reforçam a ideia de que ela é multissistêmica, diz o especialista da USP —ou seja, é capaz de afetar gravemente múltiplos tecidos e órgãos do corpo.
A Covid-19, portanto, não é uma doença respiratória, mas algo que pode afetar os rins, o coração e a circulação no cérebro. “O vírus influenza [da gripe] faz algo parecido, aumentando o risco de acidentes vasculares cerebrais, por exemplo, mas o risco de AVCs associado à Covid-19 parece ser sete vezes maior do que o visto no caso da gripe”, exemplifica Lotufo.
Folha de S. Paulo

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