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| Não se engane: o réu não está pedindo perdão. |
O jornalista Seleme, em seu texto, faz crer que o eleitorado petista
(não militante) é vítima de um grande complô de centro-direita que o
estigmatiza só (!) por causa da corrupção da "virtuosa" Era Petista.
Paulo Polzonoff Jr. para a Gazeta do Povo:
O jornalista Ascânio Seleme, do Globo, surpreendeu absolutamente
ninguém ao publicar, no último sábado (11), um manifesto intitulado “É
hora de perdoar o PT”, no qual conclama a população brasileira a perdoar
o Partido dos Trabalhadores. Pelo que vi em minha bolha, as reações ao
chamamento de Seleme variaram entre o “Jamais!” e o “De jeito nenhum!”.
Seleme, contudo, toca num ponto importante e sobre o qual não há
qualquer consenso: em que momento deixaremos o PT/Lula para trás?
Antes de tentar abordar a possibilidade/necessidade de perdoar o PT
política e individualmente, convém dar uma espiadinha nos argumentos de
Seleme, que começam com a seguinte frase: “Não há como uma nação se
reencontrar se 30% da sua população for sistematicamente rejeitada”. Ele
está falando, obviamente, dos 30% do eleitorado supostamente fiel ao
PT.
Mas o que dizer da rejeição aos conservadores, aos evangélicos, aos
liberais e até aos bolsolavistas que o mesmo PT nutre e estimula?
Seleme, em seu texto, faz crer que o eleitorado petista (não militante) é
vítima de um grande complô de centro-direita que o estigmatiza só (!)
por causa da corrupção da "virtuosa" Era Petista. “Ninguém tem dúvida de
que os malfeitos cometidos já foram amplamente punidos”, escreve o
jornalista, mostrando que “ninguém” é uma palavra com significado
completamente oposto, a depender de quem vê o mundo.
Adiante, ele diz que “Hoje, respeitadas as suas idiossincrasias
naturais, homens e mulheres de esquerda devem ser convidados a
participar da discussão sobre o futuro do país. Têm muito a oferecer e
acrescentar”. Será que têm mesmo? Porque o que mais vejo os homens e
mulheres de esquerda fazendo é “tomar e tirar”. E não estou me
referindo, aqui, à corrupção. Trata-se de uma forma de ver o mundo e de
fazer política que tem como objetivo silenciar o debate e destruir
qualquer ponte que se queira criar. De Tabata Amaral a David Miranda,
passando por Randolfe Rodrigues, Gleisi Hoffmann, Jandira Feghali e
quetais, só vejo intenção de impor uma visão de mundo que o outro
extremo, aquele que a esquerda não cansa de xingar de violento, racista,
misógino, homofóbico, inculto, indiferente e perverso, rejeita no todo
ou em parte considerável.
Adiante, Seleme escreve uma sequência de quatro afirmações
apaixonadas. Três delas são equívocos assustadores e uma delas, no
contexto geral da argumentação, só pode ser lida como uma confissão de
cinismo. Confira comigo no replay: “Mas o PT é maior que isso e, como já
foi dito, para ladrões existe a lei. Imaginar que o partido repetirá
eternamente os mesmos erros do passado é uma forma simples, fácil e
errada de se ver o mundo. Os erros amadurecem as pessoas, as
instituições, os partidos políticos. Não é possível se olhar para o PT e
ver só corrupção. O petismo não é sinônimo de roubo, como o malufismo”.
E os três parágrafos seguintes podem ser resumidos da seguinte forma.
Primeiro, o PT deve ser perdoado porque, quando no poder, teve a
oportunidade de pôr em prática seu autoritarismo latente, mas não pôs.
Se não fez isso antes, não fará mais. Em segundo lugar, ele sugere que
qualquer um que não tenha “boa vontade” para com o PT faz parte de “um
grupelho ideológico, burro e pequeno”. Por fim, deve-se perdoar o PT
porque “o Brasil não tem tempo para esperar por uma outra esquerda,
renovada e livre da influência do PT” e “O país precisa se reencontrar
logo para construir uma alternativa ao bolsonarismo, este sim um
problema grave que deve ser enfrentado por todos”.
Dessa vez vai ser diferente
Apesar da argumentação bastante falha, baseada em pressupostos para
lá de questionáveis, o manifesto de Ascânio Seleme é compreensível. Ele
dialoga justamente com o militante petista que se sente excluído do
debate público porque jura de pés juntos que, apesar do Lula Livre
pichado na parede do quarto, nunca compactuou nem jamais compactuará com
métodos heterodoxos de governo.
Seleme só ignora um elemento importante nesta equação: o trauma do
brasileiro. Politicamente, ainda estamos muito distantes de perdoar o PT
enquanto instituição, seus principais líderes e também militantes. E
não é só por causa da roubalheira. A corrupção é só a parte mais visível
de algo mais profundo, de uma ojeriza pelos métodos, pela retórica,
pelos personagens – pela tragédia inteira.
É preciso deixar de marginalizar os 30% do eleitorado petista e
construir pontes? Idealmente, sim. Mas, se essa ponte há de ser
construída (e não superfaturada!) tendo por base a misericórdia, a
segunda-chance, o dessa-vez-vai-ser-diferente, é preciso levar em conta
que, no mundo muito concreto da luta político-eleitoral, talvez não
exista nada mais valioso do que o perdão.
E como concedê-lo de boa vontade, como pede o articulista, se
politicamente o PT continua se aliando com o que há de mais nefasto no
mundo das ideias? Como perdoar uma instituição que, por exemplo,
felicita o Partido Comunista chinês por seus 99 anos de uma história
macabra? Que apoia o regime de Nicolás Maduro? Uma instituição cujos
olhos brilham diante da realidade da Coreia do Norte e Cuba. E que não
passa um dia sequer sem apontar o dedo para o resto das pessoas, dizendo
que elas são fascistas?
Em se tratando de Partido dos Trabalhadores, seu eleitorado, os
militantes, os líderes e sub-líderes, e a instituição como tal só terão
alguma chance de serem perdoados depois que pedirem desculpas e mudarem
de atitude – mas daí isso desconfiguraria o petismo enquanto movimento
político. Enquanto modo de pensar. Enquanto forma de ver os outros seres
humanos.
A jornada mais difícil
Há algum tempo, acho que quando Lula estava prestes a ser preso, em
2018, e fez aquele comício todo embriagado de si mesmo no Sindicato dos
Metalúrgicos, propus em minhas redes sociais uma pergunta muito simples:
se Lula viesse a público, pedisse desculpas, dissesse que merecia ficar
um tempo na cadeia, doasse todo o patrimônio para uma instituição de
caridade e jurasse jamais pegar num microfone novamente, você o
perdoaria?
Poucos se atreveram a responder. Alguns me chamaram de comunista e
petista enrustido. As poucas respostas giravam todas em torno de uma
questão: como acreditar no arrependimento de Lula? Sim, foi a esse ponto
que chegou a credibilidade do sertanejo que se tornou operário na
cidade grande para depois virar Presidente do Brasil.
Tenho para mim que o perdão é a Virtude das Virtudes. É aquilo que
realmente nos diferencia dos bárbaros. Mas é algo que demanda certo
estado de espírito, certo contexto e uma altivez toda especial tanto de
quem perdoa quanto de quem é perdoado. Perdão que se pede assim,
publicamente, cheira a mentira. Perdão que se dá publicamente fede a
vaidade.
Mais do que isso, o perdão é um gesto extremamente pessoal, íntimo.
Do oprimido para o opressor, em silêncio, depois de uma profunda
reflexão. Não pode ser dado e recebido, portanto, assim no atacado.
Do ponto de vista pessoal, é bastante possível perdoar o PT e o
petismo. Talvez até seja mesmo recomendável. Afinal, ficar acumulando
raiva e rancor não faz bem para a saúde. Mas, para usar um termo da
moda, não se trata de uma jornada fácil. Até porque para perdoar assim é
preciso, antes de mais nada, abdicar do conceito muito secular de
justiça a que estamos apegados – e que às vezes é só um codinome para
vingança.
Ainda não tive a oportunidade de me submeter a esse processo. O PT
simplesmente não é um assunto muito presente em minhas preocupações
existenciais, espirituais, metafísicas. O que, pensando bem, talvez até
tenha sido uma forma acidental de perdoar por meio do esquecimento.
Digo, o PT existe, Lula existe, o 13 existe, Gleisi Hoffmann e Dilma
Rousseff e Zé Dirceu existem.
Mas apenas como um elemento a mais numa paisagem muito maior, mais complexa e admirável do que isso.
[Se você gostou deste texto, mas
gostou muito mesmo, considere divulgá-lo em suas redes sociais. Agora,
se você não gostou, se odiou com toda a força do seu ser, considere
também. Obrigado.]
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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