A doida mansa que se achava herdeira do Banco do Brasil era mais sensata que os parteiros da crise que atormenta o país. Augusto Nunes:
No comecinho dos anos 60, eu estava flanando não sala de visitas no
meio da tarde quando vi, do janelão que dava para a rua, uma mulher
negra, franzina e maltrapilha estacionar no portão da minha casa em
Taquaritinga e apertar a campainha. Saí para saber do que se tratava.
Ela quis saber se ali era a casa do prefeito. Eu disse que sim.
Perguntou o que eu era dele. Filho, informei. “Então diz pro teu pai que
a filha do Getúlio Vargas veio buscar a chave do Banco do Brasil”.
Achei que aquilo era assunto para gente grande e fui chamar minha mãe.
Ela se identificou novamente e revelou a dona Biloca que o pai lhe
deixara como herança o Banco do Brasil. Com o suicídio, tornara-se dona
da grande instituição financeira, incluídos bens imóveis e funcionários.
Meses antes da morte, numa conversa sem testemunhas, o pai presidente
lhe explicara que as chaves das agências espalhadas pelo país ficavam
sob a guarda do prefeito. Sempre que quisesse ou precisasse, bastaria
solicitá-las ao chefe do Executivo municipal. Era por isso que estava
lá, repetiu ao fim da exposição. Queria a chave do Banco.
Mulher prática, Dona Biloca percebeu que aquilo iria longe, decidiu
passar a pendência adiante e transferiu a solução do caso para o
primogênito ─ que, para sorte de ambas, trabalhava na agência de
Taquaritinga. Explicou que o prefeito estava viajando e que, sempre que
se ausentava da cidade, deixava a chave do banco com o gerente. Depois
de ensinar-lhe o caminho mais curto, recomendou que procurasse um moço
chamado Flávio e transmitisse o recado: “Diga que a mãe dele mandou dar
um jeito no problema da senhora”.
O jeito que deu confirmou que meu irmão mais velho era mesmo paciente
e imaginoso. Ao saber com quem estava falando, dispensou à visitante as
deferências devidas a uma filha de presidente da República, ouviu a
história com cara de quem está acreditando em tudo e, terminado o
relato, pediu licença para falar com o gerente. Foi para o banheiro com
um exemplar do Estadão, deu uma olhada na primeira página e reapareceu
cinco minutos mais tarde com a informação: a chave estava mesmo no cofre
da agência. Havia apenas uma questão burocrática a superar: a filha de
Getúlio teria de buscar ali perto a cópia do documento que confirmava a
paternidade ilustre.
“Liguei para o cartório e a certidão de nascimento da senhora está
lá”, disse Flávio. “É só trazer a cópia”. Ela abriu um sorriso espaçoso
como o do pai, avisou que em meia hora estaria de volta com o papel e se
foi. Reapareceu três ou quatro meses mais tarde — mas no portão da
minha casa, de novo atrás do prefeito. Dessa vez nem chamei minha mãe.
Encaminhei a filha de Getúlio ao moço da agência, que liquidou a questão
do mesmo jeito. O ritual foi reprisado quatro vezes em menos de dois
anos. Até que um dia ela saiu em direção ao cartório e nunca mais
voltou.
A doida mansa que coloriu minha infância revisita-me a memória sempre
que ouço a lengalenga que atribui a interrupção da era lulopetista um
“golpe da direita”. Daqui a alguns anos, é possível que um filho do
governador do Distrito Federal tenha de lidar com um homem de voz
roufenha e uma mulher com o andar de John Wayne, ambos exigindo as
chaves dos palácios do Planalto e da Alvorada.
Não será difícil livrar-se da dupla que só não destruiu o Brasil por
falta de tempo. Lula poderá ser convencido a recuperar- se do cansaço
decorrente do excesso de descanso com mais 111 fins de semana no sítio
em Atibaia. E Dilma deve ser orientada a seguir para a residência
oficial pelo ramal do trem-bala que existe desde 2012 na cabeça baldia
da pior governante de todos os tempos. Como sempre, vai se perder no
caminho.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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