Um dos muitos problemas com esta atitude mental é que a adoção dos
debates americanos nos chega com um atraso apreciável, numa espécie de
mimetismo retardado, que a ocasional coincidência temporal não chega
para disfarçar. Texto do professor Paulo Tunhas para o Observador:
Lê-se um jornal ou vê-se uma televisão e é certo e seguro: uma boa
parte da conversa gira em torno da culpa e da inocência, do ódio e do
amor, dos pecados e da compensação devida pelos pecados cometidos, da
inferioridade fáctica que é uma superioridade real e da inferioridade
real que aparenta ser uma superioridade fáctica.
Tudo isso, como de costume, nos vem dos Estados Unidos. Não há
certamente Império, mas na cabeça da maioria opinativa é como se
houvesse, ao ponto de praticamente toda a gente se comportar como se
tivesse uma dupla nacionalidade: aquela que o acaso lhe destinou e
aquela que desejaria no fundo ter – a americana. Naturalmente, todas as
tentativas de nos incutir a ideia de uma “cidadania europeia” esbarram
contra esta pulsão básica, tão mais eficaz e poderosa quanto permanece
em larga medida inconsciente e se manifesta o mais das vezes sob a forma
negativa da detestação.
Um dos muitos problemas com esta atitude mental é que a adopção dos
debates americanos nos chega com um atraso apreciável, numa espécie de
mimetismo retardado, que a ocasional coincidência temporal – como, por
exemplo, as manifestações por causa da morte de George Floyd ou a
destruição das estátuas – não chega para disfarçar. A posterioridade faz
parte da essência do mimetismo e a dúvida não incide nunca sobre o
atraso em si, mas sobre o grau com que ele se revela (maior em Portugal
do que na França ou na Inglaterra, por exemplo) e nas particularidades
nacionais que o condicionam.
Lembrei-me (mais uma vez) disto na semana passada, ao ler dois livros
publicados nos Estados Unidos no início dos anos 90: The Content of Our
Character (1990), do académico conservador (negro) Shelby Steele, que
foi bestseller do New York Times de outros tempos, e Culture of
Complaint (1993), do grande crítico de arte (branco e australiano,
embora tendo vivido grande parte da sua vida nos Estados Unidos) Robert
Hughes. Nunca tinha lido nada de Steele, mas, em contrapartida, li, com
invariável prazer, quase tudo aquilo que Hughes (para simplificar: um
homem de esquerda) escreveu nos anos da sua vida.
O que me surpreendeu, por assim dizer, foi a dimensão do acordo que
duas pessoas com pontos de vista em larga medida incoincidentes por
relação à sociedade manifestam no que toca a certos temas essenciais.
Mais genericamente, diria que as questões decisivas e fundamentais são
aquelas em que indivíduos inteligentes e informados de esquerda e de
direita partilham (sem que isso implique a adopção de um ponto de vista
habermasiano sobre uma situação ideal de comunicação – uma ideia, de
resto, interessante) preocupações comuns.
As preocupações de Steele, que é naturalmente sensível a todas as
manifestações de racismo no interior da sociedade americana, giram em
torno de todos os movimentos que se recusam a aceitar o facto de as
oportunidades para os negros americanos terem, em larga medida graças à
acção de Martin Luther King, aumentado exponencialmente. É a reacção
negativa face a essa possibilidade que o preocupa. E o que ele vê, e
mais teme, é a tendência a explorar um sentimento de vitimização,
assente na convicção de uma inocência radical, que assegura
ilusoriamente um poder fundado num sentimento de culpa branco. O orgulho
racial apoia-se numa angústia, ou numa ansiedade, dos brancos face às
suas malfeitorias passadas. Daí toda a conversa em torno da exigência de
reparações (como se os sofrimentos daqueles que sofreram o horror da
escravatura pudessem ser “reparados”) e as inúmeras consequências
perversas da “acção afirmativa”. Não se trata de modo algum de negar que
a memória da escravatura cria uma situação existencial e identitária
que incute um sentimento doloroso de inferioridade – ao qual o “orgulho
racial” aparece como um compreensível antídoto. O problema é que tal
antídoto funciona igualmente como um veneno, e a “política da diferença”
que promove desemboca, o mais das vezes, numa auto-segregação
voluntária que tem como consequência uma recusa das possibilidades de
bem-viver que a sociedade oferece, com consequências desastrosas, tanto a
nível educacional como económico.
Pelo seu lado, Robert Hughes, não menos sensível do que Steele a
todas as formas de discriminação, preocupa-se igualmente com a
permanente manufactura de vítimas imaginárias que se tornou a moeda
corrente na nossa sociedade e com a alucinação de extravagantes culpas
que a acompanha. A manufactura das vítimas vai a par com o culto da
“expressão pessoal” e da “auto-estima”, que funciona como uma potente
barreira a toda a argumentação racional. Os argumentos, quando servem
para alguma coisa, adquirem quase invariavelmente a forma do argumento
ad hominem. Há uma espécie de irracionalismo triunfante, que se
manifesta, entre outras coisas – e o exemplo é desgraçadamente muito
actual -, na atribuição a Colombo de todos os males do mundo, tema a que
dedica várias páginas excelentes, e nas delirantes construções teóricas
“afrocentristas”, que colocam os povos africanos na origem de toda a
cultura ocidental, em todos os seus aspectos: filosóficos, culturais e
até tecnológicos (os africanos teriam, por exemplo, inventado os
aviões). Tal como Steele, Hughes detecta aqui uma tendência voluntária
para a auto-segregação (à sua maneira, a dialéctica da inferioridade e
da superioridade também para ele se encontra em jogo, bem como o
fantasma, transportado pela memória, de uma opressão passada) que se
ergue contra a ideia de uma base cívica que, no contexto de uma certa
multicularidade, nos deve unir.
Esta cultura da queixa e da acusação é, com mais ou menos elementos
próprios e idiossincráticos, adaptada pelos diversos povos da periferia
do Império. Os portugueses não são obviamente excepção. Também aqui a
“memória-inimiga”, como lhe chama Steele, conhece os seus ímpetos
furiosos. Um bom exemplo é toda a recente conversa em torno do “discurso
de ódio”, que a ministra Mariana Vieira da Silva almeja “monitorizar”,
com o auxílio precioso de um cavalheiro que dá pelo nome de Gustavo
Cardoso, e, melhor ainda, a reacção de um vasto número de universitários
ao recente livro de Riccardo Marchi sobre o Chega de André Ventura, um
livro que vou comprar e ler mal possa, por causa deles e das duas
entrevistas que li do autor, que me pareceram muito interessantes.
“Contra a higienização académica do racismo e fascismo do Chega”, chamam
eles ao seu pequeno manifesto. Todo o texto é um perfeito testemunho da
lógica maniqueísta que apontei no primeiro parágrafo e que, à sua
maneira, Steele e Hughes igualmente abordam. A “memória-inimiga”
obriga-os a alucinar o passado no presente e a não ver no presente mais
do que uma estrita repetição do passado. Ao ponto de uma pessoa se
perguntar se, à falta dessa alucinação, algo mais teriam sobre o qual
conversar. A mim, isto levou-me, curiosamente, ao místico sueco Emanuel
Swedenborg. Swedenborg tinha a maravilhosa teoria segundo a qual, depois
da morte, as pessoas, no Céu e no Inferno, levavam uma existência em
tudo semelhante àquela que haviam levado nas suas vidas, apenas com a
diferença que as percepções seriam mais intensas. O que as colocaria num
lugar ou noutro seria a natureza das conversas que preferiam ter. Longe
de mim a pretensão de imaginar a residência futura dos signatários do
manifesto no Céu ou no Inferno, mas não creio ofender ninguém se
manifestar a minha convicção que esta conversa sobre a iminência do
retorno do fascismo arrisca-se a ocupá-los pela eternidade inteira.
Um último exemplo de certas particularidades portuguesas que ecoam a
cultura do queixume de que fala Robert Hughes e a dialéctica da
inferioridade e da superioridade à qual se refere Steele. Com tantos
países da Europa, em particular o Reino Unido, a colocarem entraves à
vinda dos seus cidadãos a Portugal, por causa da taxa de propagação
lusitana do coronavírus, assistimos a mais uma repetição do
momento-Ultimato, com toda a gente a reescrever mentalmente o Finis
patriae de Guerra Junqueiro e a sonhar com lordes cortados às postas a
boiarem no Tamisa. Aos sessenta anos já vi isto tantas vezes que não me
surpreende. Inspirado no vocabulário do seu chefe António Costa – que,
de resto, como uma barata tonta, oscila entre a submissão e a arrogância
–, o ministro Santos Silva adapta de todas as maneiras possíveis as
acusações contra os “repugnantes” e os “forretas” e põe-se a “exigir”
tudo o que lhe passa pela cabeça a vários governos europeus, com
indisfarçadas e temíveis ameaças. Queixamo-nos da inferioridade em que
supostamente nos colocam, reivindicamos a mais radical inocência e
pretendemos por este meio afirmar uma indisputável superioridade. É a
nossa maneira de conceber um “manifesto destino” nacional.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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