MEDIÇÃO DE TERRA

MEDIÇÃO DE TERRA
MEDIÇÃO DE TERRAS

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Especialista ressalta a importância da amamentação para a mãe, para o bebê e a relação com o meio ambiente: "Decisão saudável e ecológica"

Hospital Icaraí


Obstetra do Hospital Icaraí, Drª Flávia do Vale destaca a necessidade de conscientização e quebra e tabus sobre o aleitamento; Semana Mundial da amamentação terá programação de lives nas redes sociais

O aleitamento materno traz muitos benefícios. Segundo o Ministério da Saúde, qualquer criança pode - e deve - se alimentar apenas do leite materno nos seus seis primeiros meses de vida, e não precisa comer ou beber nenhum outro tipo de alimento. Assim, a celebração da Semana Mundial da Amamentação, que vai do dia 01 a 08 de agosto, carrega não só o peso da informação sobre técnicas e cuidados para as mães na hora de amamentar, mas evidencia também a necessidade da conscientização sobre a produção e consumo de alimentos para crianças. Além disso, mostra que é imprescindível a mudança de postura social no entendimento do assunto, que abrange, entre outros pontos, a busca pelos direitos e relação das mulheres com o trabalho.

Neste ano, o tema será "Apoiar a amamentação para um planeta mais saudável". Para a coordenadora da obstetrícia do Hospital Icaraí, de Niterói, Drª Flávia do Vale, é primordial também pensarmos no impacto da alimentação infantil no meio ambiente, com a finalidade de encontrar meios de proteger vidas, promover e apoiar o aleitamento materno, para melhorar a saúde do planeta e de seu povo. Ela ressalta que amamentar “é uma decisão também ecológica, com menos impacto no meio ambiente do que o fácil uso de mamadeiras e fórmulas de leite”.

 

Confira a entrevista com a Drª Flávia:

Quais os benefícios da amamentação para a mulher e o bebê?

Drª Flávia do Vale: “Os lactentes correm um risco maior de morrer devido a diarreia e outras infecções quando são amamentados apenas parcialmente ou não são amamentados em absoluto. A amamentação também melhora o coeficiente intelectual e a preparação para a escola, além de reduzir o risco de câncer de mama nas mães.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda iniciar a amamentação nos primeiros 60 minutos de vida. O aleitamento materno como forma exclusiva de alimentação até os seis meses de idade e, de maneira completar, até os dois anos.”

Até quanto tempo a criança pode ser amamentada?

“Os bebês que são exclusivamente amamentados têm 14 vezes menos probabilidade de morrer do que os que não são amamentados. Atualmente, no entanto, apenas 41% das crianças de 0 a 6 meses são amamentadas exclusivamente e só 32% continuam amamentando até os 24 meses.”

Por que ainda é um tabu a amamentação em público?

“Nos dias de hoje, mesmo com toda exposição e banalização da nudez, ainda é comum ouvirmos relatos de mulheres sofrendo constrangimento por amamentar em público. Em alguns países isso é altamente criticado e repudiado, até mesmo proibido. Por isso é importante promover, apoiar e informar sobre a amamentação, que é um ato natural de alimentar um bebê. Precisamos quebrar tabus e entender, simplesmente, que, quando a mulher coloca os seios para fora da blusa para amamentar, ela não está se exibindo se forma sexual, e que amamentar é um ato biológico do ser humano.”

Como o conhecimento científico deve se sobrepor a essas barreiras de comportamento social?

“Independentemente de onde o bebê nasça, o leite materno é ideal para atender às necessidades nutricionais das crianças e reforçar o desenvolvimento do sistema imunológico. Especialmente nos países em desenvolvimento, onde a falta de água potável coloca os bebês em risco de contrair doenças que debilitam gravemente a saúde, aumentar a amamentação pode impedir mortes maternas e de crianças. Diminui o risco de as mães desenvolverem câncer de mama, câncer de ovário, diabetes tipo 2 e doenças cardíacas.”

Qual a importância de a mulher estar preparada, cuidando de sua saúde física e mental, para poder passar um bom aleitamento ao bebê?

“A rede de apoio a mulher é de suma importância nessa questão. Apesar de se dizer que amamentar é um ato natural e de instinto, é também um momento novo, desafiador e de aprendizado para mãe e para o bebê. Logo, os primeiros dias e semanas são de muito aprendizado e necessita paciência e treino. É importante apoiar as mulheres nessa fase. Elas estão cansadas, inseguras, com privação de sono, algumas com dor do pós operatório, sem contar com as alterações hormonais do pós parto e o corpo que ainda fora de forma. Tudo isso gera estresse. E, ainda por cima, é muito comum os “palpiteiros” que dizem como fazer, “não é desse jeito”, “ninguém da nossa família conseguiu amamentar”, “tadinho, tá morrendo de fome”, e outras tantas frases batidas. Isso só pressiona a mulher e a deixa mais insegura, não contribui para o sucesso da amamentação.”

Qual a importância de uma data como a Semana Mundial da Amamentação?

“Ela tem como objetivo mostrar os enormes benefícios que a amamentação pode trazer para a saúde e o bem-estar dos bebês e para a saúde materna, com foco em boa nutrição, redução da pobreza e segurança alimentar, bem como a proteção e apoio aos direitos das mulheres de amamentar em qualquer lugar e a qualquer momento.

A cada ano ocorre uma proposta nova. No ano passado o tema foi “Empoderar mães e pais e favorecer a amamentação. Hoje e para o futuro!”, com o intuito de incentivar a a promoção de políticas voltadas para a família, a fim de permitir a amamentação e ajudar os pais a cultivar e se relacionar com seus filhos no início da vida, quando mais importa.”

Como o debate do tema pode ajudar a educar as famílias?

“Existe uma necessidade emergente de educar a sociedade como um todo, pois a criança não é de responsabilidade exclusiva da mãe. Atualmente, a mamadeira e a alimentação com fórmula estão em alta. A mulher moderna reclama de falta de tempo, geralmente é sobrecarregada pelos afazeres domésticos e do trabalho, nem sempre tem uma licença maternidade garantida e precisa voltar a trabalhar de forma precoce. Por isso, muitas consideram a facilidade do leite com mamadeira, mas, enquanto isso, esquecem que o bebê e frágil e precisa e carinho e cuidado.”

 

Lives

A partir de sexta-feira, dia 31/07 e até a próxima (dia 07/07), o Hospital Icaraí promove encontros entre médicos para conversas sobre assuntos relacionados ao tema da amamentação. Além da Drª Flávia, participarão especialistas das áreas de pediatria, neonatotologia, enfermagem, nutrição e mastologia. As lives serão sempre às 20h, no perfil @hospitalicarai, no Instagram.

Veja a programação completa:

Sexta - 31/07 

Tema: Mamãe saudável, bebê saudável  

Dra. Luísa Ávila (Obstetra e Fetóloga) e Dra. Flávia do Vale (Coordenadora da Obstetrícia)

Segunda - 03/08 

Tema: Mitos e verdades da amamentação

Dra Virgínia Gontijo (Pediatra Neonatal) e Helen Valmont (Gerente de Enfermagem da UTI Neonatal)

Terça - 04/08 

Tema: Os desafios da amamentação no prematuro e após a UTI Neonatal 

Dr. Alan Araújo Vieira (Consultor Técnico da UTI Neonatal da Perinatal no Hospital Icaraí) e Dra. Regina Abreu (Neonatologista)

Quarta - 05/08 

Tema: Como a alimentação da mãe impacta no leite materno?

Ingrid Batista - Nutricionista e Dra. Flávia do Vale (Coordenadora da Obstetrícia)

Quinta - 06/08 

Tema: Amamentação na Prática - os primeiros dias

Maria Patrícia Lima - Enfermeira do Berçário e Dra. Flávia do Vale (Coordenadora da Obstetrícia)

Sexta - 07/08 

Tema: Benefícios da amamentação a longo prazo e complicações da amamentação 

Dra. Raphaela Coelho - Mastologista do INCA e Dra. Flávia do Vale (Coordenadora da Obstetrícia)

 

 

Plantão Hospital Icaraí

Assessoria de imprensa: Goldoni Conecta

Tel: (21) 96441-5211 (Kelly Goldoni)

Email: imprensa@hospitalicarai.com.br

 




Goldoni Conecta

Rodrigo Arantes
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O remédio que a imprensa e a elite te escondem


É o mesmo que leva o povo americano a seguir leis que ele mesmo faz e ser o mais rico do mundo. Fernão Lara Mesquita para o Estadão:


Existe alternativa para o “presidencialismo de coalizão”? É possível um “ideológico”, que não caia no toma lá, dá cá?

Não há resultado colhido que amacie a elite autoritária que insiste em “ensinar”, em vez de humilde e democraticamente aprender com “esse povinho que deus pôs aqui”, e a tudo responde com mais Estado, fiscalização e polícia. De instituições que educam não se fala jamais. Por que não partidos verdadeiros, em vez destes de comprar e vender? E financiamento de campanhas como o povo quiser, e não esses, de meretrício? E representação? Quem representa quem naquele disco voador sobre o Planalto Central que caga “políticas públicas” nas costas do Brasil?

Esta semana saiu balanço de meio de ano dos processos de recall e das questões para voto (ballot mesures) que cumpriram os requisitos para subir às cédulas da eleição de novembro nas cem maiores cidades dos EUA. Desde 1.º de janeiro o povo pôs em marcha 97 processos de recall visando 120 funcionários, de prefeitos para baixo. Quanto às questões para voto, 109 de alcance estadual já cumpriram os requisitos para qualificação.

Cada Estado, cada cidade define quais funcionários quer nomeados ou eleitos. A orientação geral é que todos com funções de fiscalização do governo, como promotores públicos ou fiscais de contas, ou contato com o público em funções sensíveis, como as de xerife ou policial, são diretamente eleitos e estão permanentemente sujeitos a recall. Qualquer cidadão pode iniciar um processo e se colher as assinaturas de uma porcentagem dos eleitores daquele cargo naquele distrito eleitoral (em geral entre 10% e 15%), convoca-se nova votação para a destituição e eleição do substituto.

Qualquer cidadão pode, também, propor uma lei ou desafiar uma do Legislativo local para referendo colhendo assinaturas. Tudo conferido pelo secretário de Estado, ela sobe à cédula da eleição mais próxima e quem tem ou não direito de votar cada questão é somente quem mora dentro do distrito eleitoral afetado, o que pode ser positivamente aferido no sistema de voto distrital puro, que amarra cada representante eleito aos seus representados pelo endereço.

Entre as 109 “questões para voto” já qualificadas há 65 legislatively referred, isto é, propostas dos Legislativos locais afetando questões como impostos ou outras que em votações anteriores os eleitores definiram como de referendo obrigatório, 26 leis de iniciativa popular, 5 referendos convocados pelo povo e 7 bond issues.

Os bond issues são pedidos de autorização a eleitorados de distritos específicos para emissão de dívida para melhoramentos em escolas públicas (a serem pagos só pelo bairro servido por ela com um aumento temporário do IPTU), municipalidades (a compra de um carro de bombeiros ou o aumento dos salários de determinada categoria de funcionários, por exemplo), construção de estradas e pontes (a serem pagas com pedágios), etc. Tudo precisamente definido - custo do bem, valor do empréstimo, juros, prazo de pagamento - para um “Sim” ou um “Não” apenas dos eleitores beneficiados pela obra.

Na longa lista das ballot measures desta compilação há temas como: poderes de nomeação de funcionários pelos juízes estaduais; reformulação geral da linguagem da Constituição (Alabama), seguida de ratificação pelo eleitorado; regras de financiamento de campanha; normas de taxação do petróleo; autorização para oculistas fazerem pequenas cirurgias; aprovação de verba de US$ 5,5 bi (Califórnia) para pesquisa de células-tronco; regras de imposto industrial; anulação de lei de iniciativa popular anterior proibindo “ações afirmativas” em que o Estado discrimina por raça, sexo, cor, etnicidade ou origem nacional quem ele vai ou não beneficiar; compra de áreas para reserva ambiental; legislação de caça e pesca; reformulação do sistema de redução de penas dando poderes aos parentes das vítimas de opinar nesses julgamentos; regulação da função de motorista de aplicativo; alteração das normas para provedores de tratamento de diálise; reintrodução de lobos cinzentos em áreas selvagens; aumento do salário mínimo por hora; regulamentação do uso de maconha medicinal ou recreacional; mudança da bandeira estadual (Mississippi); mudança das regras de eleição de governadores...

A lista é infindável. Mas cada caso processado por esse sistema é mais um que sai do circuito das possibilidades de superfaturamento ou compra e venda de resultados, o que explica suficientemente por que o povo americano, que pratica esse sistema há pouco mais de cem anos, segue as leis que ele mesmo faz e se tornou o mais rico do mundo.

Por que, então, nossas imprensa e elite não estudam e divulgam esse método autoaperfeiçoável tão óbvio de provimento de soluções? Pela mesma razão por que não tocam nas lagostas e vinhos tetracampeões da privilegiatura, nem mesmo quando mais da metade do País está reduzida a viver da esmola de um Estado falido, cuja arrecadação a pandemia fez cair 30% só no mês passado. Uns porque estão deslumbrados pela luz do próprio umbigo, outros porque a doença deste país é sistêmica e quase nada está ou quer estar livre de contaminação.

BLOG  ORLANDO TAMBOSI

Fica combinado assim


Coluna de Carlos Brickmann, publicada nos jornais de quarta-feira:


Bolsonaro erguer uma caixinha de hidroxicloroquina com os braços estendidos acima da cabeça, como Bellini, que celebrizou o gesto ao festejar nossa primeira Copa do Mundo, é ridículo. Insistir em louvar a hidroxicloroquina para as emas é ainda mais ridículo. Devolver ao Governo Federal a hidroxicloroquina que receberam de presente, como fizeram alguns Estados, é tão ridículo quanto. E nocivo: a hidroxicloroquina é remédio padrão para malária, para lúpus, usada nestes casos há mais de 70 anos. Deixar os pacientes à míngua, ou pagando o triplo, é inaceitável, além de ridículo. Pode-se ir mais longe: se o médico prescreve hidroxicloroquina e o paciente concorda, por que impedi-los de combater a Covid de seu jeito?

Há uma explicação lógica para a devolução da hidroxicloroquina à União. Os três milhões de doses que o Brasil ganhou de Trump e da Novartis vieram em cartelas de cem comprimidos, que deveriam ser fracionadas em cartelas de menos de cinco comprimidos. É tarefa para um exército de farmacêuticos, e cara. Como não havia verba para o fracionamento, devolveu-se o remédio.

É uma explicação simples, lógica e imbecil. Se o remédio veio de graça, que se enviem as cartelas às farmácias populares para distribuição gratuita. E sejam entregues aos médicos que as solicitarem. O que não se admite é deixar sem remédio que dele necessita – para malária, lúpus ou coronavírus.

Chega de política partidária em Saúde. Deixem o médico trabalhar.

Risco visível

Esta coluna não discute Direito. Nem teria sentido: alguém que não sabe nem o endereço das faculdades não vai debater com mestres pós-graduados no Exterior, para os quais até a toga tem de vir embebida do saber de alfaiates vizinhos a escolas internacionais. Mas creio que está sendo violado um dos artigos basilares da Constituição americana, a Primeira Emenda, que inspirou todas as constituições democráticas: a proibição da censura.

Opinião sem censura

Cada pessoa é livre para dizer o que pensa, mas pode ser processada por quem se sentir atingido. Entendo a posição do Supremo, achincalhado por ministros na presença silente de Bolsonaro, ameaçado de fechamento por um dos filhos do presidente, com fundamentalistas chamando um ministro para a briga, perturbando a paz de seus vizinhos e ameaçando persegui-lo onde quer que esteja.

Mas, se entender é fácil, justificar não é possível: que houve manifestações mal-educadas, grosseiras, injuriosas, isso houve, mas que os responsáveis sejam processados na forma da lei e não proibidos de falar.

Rolha nos outros

Calar Twitter, Facebook e outras redes é censura prévia, sim. Até mais, porque se censura a pessoa, e não o que ela iria dizer, se pudesse. Não diga que no caso a censura prévia é aceitável. Censura nunca é aceitável. Já fui proibido, no tempo da ditadura, de escrever o nome “Leonardo”. Era o nome do censor e ele temia ser ironizado sem perceber. Por isso, o grande artista era apenas “Da Vinci”.

E não pense que os atingidos até que merecem. Pois censura começa com os outros, sempre. E a rolha termina em todos nós.

Bom exemplo

Donald Trump Jr., filho mais velho do ídolo de Bolsonaro, foi punido pelo Twitter com doze horas de bloqueio. O zero à esquerda de Trump pegou suspensão por ter defendido a hidroxicloroquina numa série de tuítes em que atacou adversários democratas e o Dr. Anthony Fauci, aliás assessor do pai, por rejeitarem o remédio. Incrível: pela Constituição, o Congresso não pode criar restrições à liberdade de expressão. Mas o Twitter pode?

Como nos ensinou aquele ministro, se abrir uma brecha, por ela passa toda a boiada.

Nasce torto...

Esta coluna tem ótimas fontes na Bahia. Mas nem tinham de ser tão boas. Por mais escandalosa que seja a gastança, lá também estão providenciando. Agora é uma licitação do Tribunal de Justiça baiano, a quase R$ 1 milhão por mês, para contratar serviço de 116 motoristas para desembargadores, servidores e serviços gerais. São 61 motoristas para 61 desembargadores. Há mais 43 para coordenação de transportes, três para Varas da Criança e Juventude, dois para o Fórum, dois para o Fórum da Família, cinco para o Almoxarifado. Dizem que com isso se reduz o custo do transporte.

...morre torto

Este colunista tem outra sugestão para reduzir o custo do transporte. Só ficariam um ou dois carros na reserva, os demais seriam vendidos. Um app atenderia a Suas Excelências com carros de luxo e motoristas apreciados pela clientela, a preços normais. Como de hábito, manutenção e combustível ficariam a cargo do aplicativo. Quem quisesse um carro melhorzinho, sempre com o mesmo motorista, poderia comprar, com seu próprio dinheiro, talvez um Bentley (andei uma vez, gostei muito) e contratar, de seu bolso, aquele motorista em quem confia. Sabe que funciona? Nos Estados Unidos é assim.

Eleição de Bolsonaro tornou possível o acordão contra a Lava Jato, diz procurador Carlos Lima.


“Esse momento é o pior de todos porque a Lava Jato se encontra completamente abandonada de qualquer tipo de apoio dentro dos órgãos de Estado”, afirmou o ex-procurador da Lava Jato Carlos Fernando Lima em entrevista à Gazeta do Povo:


“Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria.” A frase, que se tornou um dos clássicos da política nacional, foi dita em 2016 pelo então senador Romero Jucá (MDB-RR) em uma conversa ao telefone com Sergio Machado, ex-presidente da Transpetro. A sangria a que Jucá se referia eram as investigações da Operação Lava Jato, que haviam chegado a dezenas de políticos brasileiros, incluindo ex-presidentes e figuras de peso no Congresso. A sugestão de Machado foi o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e a celebração de um “grande acordo nacional” para conter o avanço da Lava Jato.

Agora, em 2020, esse acerto político está em andamento e a Lava Jato vive seu pior momento desde que a operação começou, em 2014. A afirmação é do procurador aposentado Carlos Fernando Lima, ex-integrante da força-tarefa de Curitiba.

Segundo ele, a eleição do presidente Jair Bolsonaro permitiu o “acordão” para “estancar a sangria”. “O que nós vemos hoje é uma perseguição. Aquele acordão do começo do mandato de Bolsonaro sugerido por algumas autoridades, na minha opinião se refere ao acordão para o ‘vamos estancar a sangria’, nos moldes do que foi dito em uma gravação da Lava Jato. É preciso estancar a sangria e foi esse o acordão que surgiu com a eleição de Bolsonaro”, afirmou Carlos Lima em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo.

“Esse momento é o pior de todos porque a Lava Jato se encontra completamente abandonada de qualquer tipo de apoio dentro dos órgãos de Estado”, diz o ex-integrante da operação. “Hoje temos uma Polícia Federal que está sob controle do presidente. O Poder Executivo nomeia o procurador-geral e acena com uma cadeira no STF. O STF, infelizmente, está sob a presidência de [Dias] Toffoli (...). Nós temos um Congresso Nacional que tem a função de fazer o impeachment do presidente e do PGR e dos ministros do Supremo. No entanto é onde estão os maiores investigados pela Lava Jato”, explica Lima. Para ele, acabar com a Lava Jato virou uma necessidade desses grupos políticos para dar um recado: "que ninguém mais tenha a ousadia de investigar pessoas poderosas".

Na entrevista, o procurador aposentado também diz acreditar que o país possa estar diante de uma perseguição política com fins eleitorais. “Podemos estar diante de um abuso, de uma perseguição política em relação a possíveis e eventuais candidatos a presidente ou outros cargos.”

Ele usa o exemplo das investigações em curso no país envolvendo governadores. “Num momento em que vemos as diversas ações contra diversos governadores, não estou dizendo corretas ou incorretas, mas ações extremamente rápidas... Eu conheço investigações há mais de 30 anos e pouquíssimas vezes eu vi investigações tão rápidas atingir poderosos de uma maneira tão significativa como agora”, afirma Lima.

Confira a entrevista completa de Carlos Lima à Gazeta do Povo:

O procurador-geral da República, Augusto Aras, disse que a Lava Jato em Curitiba é uma “caixa de segredos” e afirmou que há 50 mil documentos invisíveis à corregedoria do Ministério Público Federal (MPF) no banco de dados. O senhor foi membro da força-tarefa. Há falta de transparência no trabalho do grupo?

Carlos Lima: Veja bem, o trabalho de equipes investigativas tem natureza sigilosa. O sigilo é imposto na decisão que concede, pelo juiz de primeiro grau, acesso a informações de quebras de sigilo ou mesmo de buscas e apreensões. Então não cabe falar em transparência de informações sigilosas. Porque o acesso essas informações sigilosas são dadas pelo Judiciário para os procuradores do caso . Há um equívoco da PGR [Procuradoria-Geral da República], e acho que também do ministro Dias Toffoli em querer acessar esses documentos sem pedir autorização ao juiz competente. Era possível fazer um pedido caso a caso a um juiz para que ele determinasse ou não o compartilhamento [de informações]. Sempre foi assim que funcionou. O que me parece que está havendo é um completo desconhecimento de como funcionam as investigações. Investigações não são transparentes porque não são administração pública. São medidas que têm natureza jurisdicional.

O senhor acredita que há um cerco da PGR contra a Lava Jato?

Carlos Lima: Evidente que há um cerco e um desejo que vai além de derrubar a própria concepção de forças-tarefas, que ele chama de lavajatismo. Há sim o interesse de minar a independência do Ministério Público, [há o interesse em promover] uma subordinação do Ministério Público, do membro que atua na ponta, ao procurador-geral da República. Isso nós vemos em diversos aspectos. Desde as tentativas que estão sendo feitas de calar procuradores, com as repetidas representações e processos administrativos contra Deltan Dallagnol [coordenador da força-tarefa da Lava Jato], por exemplo, até mesmo esse acesso – na minha opinião, indevido – a informações sigilosas das diversas investigações por todo o país.

Isso tudo mina a independência do Ministério Público e cria, na minha opinião, um grande monstro, uma PGR que não só tem a possibilidade de arquivar ou processar quem deseje, mas também de conhecer todas as investigações do país.

Nesse momento em que estamos vivendo, em que o próprio presidente [Bolsonaro] demonstrou interesse de conhecer e controlar investigações, o fato de centralizar todas essas investigações na mão do PGR [procurador-geral da República], indicado pelo presidente da República e ainda por cima com interesse em uma cadeira do STF, tudo isso é muito preocupante e muito grave [Bolsonaro afirmou recentemente que Augusto Aras seria um bom nome para ele indicar ao Supremo].

O alvo, na sua opinião, é a Lava Jato em Curitiba, especificamente, ou as forças-tarefas como um todo? 

Carlos Lima: Sim, [o alvo é] a própria configuração constitucional do Ministério Público pós-88. O que nós estamos vendo é que se deseja um retorno do Ministério Público controlado pelos procuradores-gerais, como era antes de 88, para que nenhuma outra Lava Jato apareça. E também é sintomático que isso venha de um procurador-geral da República anterior a 88, que preferiu permanecer com o direito de ser advogado do que ingressar no novo regime jurídico pós-88. [O objetivo] não é só calar essa Lava Jato. É destruir essa Lava Jato de tal modo a que ninguém mais tenha a ousadia de investigar pessoas poderosas. O que nós temos no atual momento é uma luta pela preservação do Ministério Público tal qual foi desenhado em 1988 e não uma simples quirera entre a PGR e a Lava Jato de Curitiba.

A PGR lançou uma ofensiva para obtenção de dados de investigações da Lava Jato. Além de uma decisão do presidente do STF, que permitiu à PGR acessar a esses dados, o procurador-geral também editou uma portaria que altera regras de sigilo de documentos do MPF e que lhe dá mais poderes para obter dados de investigações. Como o senhor vê esses fatos?

Carlos Lima: Quando surgiu a polêmica com o presidente [Bolsonaro], naquela questão de ele querer acesso a informações e querer controlar investigações da Polícia Federal, eu disse na época que existem três grandes motivos pelos quais as pessoas políticas e poderosas desejam acesso ao controle de investigações. Uma delas é para tirar proveito, pode ser econômico ou político. Outra é para proteger os seus familiares, a si mesmo e seus amigos. Foi a tese que foi explicitada pelo presidente naquela reunião [ministerial, do dia 22 de abril]. A terceira é perseguir adversários políticos.

Num momento em que vemos as diversas ações contra diversos governadores, não estou dizendo corretas ou incorretas, mas ações extremamente rápidas. Eu conheço investigações há mais de 30 anos e pouquíssimas vezes eu vi investigações tão rápidas atingir poderosos de uma maneira tão significativa como agora. Nessas circunstâncias, nós temos que tomar cuidado e questionar essa centralização de informações. Não só informações de investigações passadas, mas de investigações em andamento. A compartimentação das investigações não tem nenhum outro objetivo que não a própria segurança do investigado. Se tivermos tudo isso acessível facilmente, teremos a possibilidade muito maior que seja mau usado. Se for, ainda por cima, centralizado na mão de um procurador-geral, nós teremos que confiar no caráter desse procurador-geral.

Qual a sua opinião sobre a criação da Unidade Nacional de Combate à Corrupção e ao Crime Organizado (Unac), gestada pela PGR? [A Unac centralizaria em Brasília as grandes investigações de corrupção do país].

Carlos Lima: Eu tenho algumas restrições históricas em relação à Unac. Eu prefiro o modelo de forças-tarefas. Existe uma discussão entre os dois modelos. Eu creio que a Unac corre o risco de se burocratizar não chamando pessoas que tenham interesse em investigar, mas sim, muitas vezes, pessoas que se acomodam na carreira. Isso pode tornar as investigações ainda mais complexas, mais difíceis. Principalmente, me preocupa centralizar em um órgão só, e é necessário discutir muito bem isso para saber como se darão as decisões que serão tomadas dentro dessa Unac. Se nós criarmos um grande procurador dessa unidade, que controle todas as informações, todas as investigações relevantes do país, nós estaremos dando muito poder para uma pessoa só. Isso é preocupante. É melhor que tenhamos um modelo descentralizado, com todas as críticas que se podem fazer aos modelos de força-tarefa, mas que são democráticas pela própria natureza. É melhor do que dar poder excessivo para uma estrutura que pode ser tanto burocrática quanto autoritária.

Recentemente, Augusto Aras pediu que o STF, a partir de agora, só autorize acordos de delação da Polícia Federal se houver concordância do MP. O que o senhor acha dessa movimentação?

Carlos Lima: Eu tenho manifestação em jornais na época contra a possibilidade da Polícia Federal fazer acordos [de colaboração premiada]. São razões técnicas, pura e simplesmente. Mas que, correta ou não a decisão do Supremo, estariam superadas pela decisão do STF [a Corte entendeu que a PF pode celebrar acordos de delação sem a participação do MP]. Infelizmente, no Brasil o Supremo decide e muda suas decisões conforme o sabor dos ventos. Não há nada garantido em uma jurisprudência no Brasil, mesmo do Supremo Tribunal Federal. Eu creio que a posição intermediária, manifestada pelo procurador-geral, está tecnicamente mais na direção de garantir que o titular do direito de acusar, que é o Ministério Público, exclusivamente, tenha participação nessa decisão. Mesmo porque só o Ministério Público pode denunciar uma pessoa. Então você excluir ou dizer que essa colaboração é suficiente só poderia ser feito pelo Ministério Público.

Mas, neste momento atual, eu duvido das boas intenções do procurador-geral. Acho que o que ele deseja agora é que não apareçam novas colaborações do tipo de Sergio Cabral [ex-governador do Rio de Janeiro], do qual ele pediu uma série de arquivamentos de assuntos que nós, população, sequer sabemos do que se trata. O que é muito grave, porque supostamente envolveria pessoas com prerrogativa de foro. Neste momento, o que me parece, é um desejo, dentro dessa campanha contra o lavajatismo, de que se retorne a um certo controle de colaborações que envolvam pessoas politicamente relevantes.

O senhor considera que esse é o momento mais difícil para a Lava Jato até agora?

Carlos Lima: Esse momento é o pior de todos porque a Lava Jato se encontra completamente abandonada de qualquer tipo de apoio dentro dos órgãos de Estado. Hoje temos uma Polícia Federal que está sob controle do presidente. O Poder Executivo nomeia o procurador-geral e acena com uma cadeira no STF. O STF, infelizmente, está sob a presidência de Toffoli, que tem se mostrado bastante pródigo, especialmente nas férias, em determinar uma série de medidas que depois, como aconteceu no caso Coaf, não se sustentam juridicamente. Nós temos um Congresso Nacional que tem a função de fazer o impeachment do presidente, do PGR e dos ministros do Supremo... No entanto é onde estão os maiores investigados pela Lava Jato.

Então o que nós temos é que o sistema de freios e contrapesos não está funcionando adequadamente. Na verdade, o que existe é um grande acordão nacional no sentido de deixar as coisas como eram antes da operação Lava Jato.

Quantos processos éticos e disciplinares foram abertos na Câmara dos Deputados [contra parlamentares envolvidos na Lava jato]? Quantas investigações efetivamente estão andando na Procuradoria-Geral da República? Até me parece que o grupo de trabalho da operação Lava Jato na PGR foi desfeito. Qual o interesse do atual presidente da República em apoiar investigações, quando boa parte dessas maiores investigações hoje se referem a rachadinhas envolvendo os gabinetes de seus filhos?

Nós temos uma maioria da população que está a nosso favor. Temos relevantes ministros do STF e do STJ, desembargadores e juízes que são favoráveis a continuidade do combate à corrupção. Entretanto, a maior parte dessas pessoas está aturdida e calada. A Lava Jato é a única voz que se contrapõe, mesmo com todos os riscos de [os procuradores] serem questionados. Basta ver a abertura da última sindicância em relação a Deltan Dallagnol porque ele fez uma crítica técnica à decisão do Toffoli a respeito do compartilhamento [do banco de dados da operação]. Nós vemos que a Lava Jato é a única voz e está em franco ataque para ser calada. Depois disso, infelizmente a imprensa está em um relativismo muito grande. Qualquer informação e qualquer afirmação tem o mesmo valor. Então nós, como sociedade, estamos completamente desamparados. E a Lava Jato encontra-se sozinha.

O ataque à Lava Lato é um ataque à democracia?

Carlos Lima: É um ataque a nossas instituições republicanas e democráticas. Porque quando você dá poder excessivo para alguém que está no topo... A Lava Jato submete seus pedidos a quatro graus de jurisdição: o poder de primeiro grau, segundo grau, STJ e STF. É muito grave quando você dá um poder excessivo ao procurador-geral da República, que pode arquivar o que ele desejar, sem controle do STF, e pode processar e investigar quem ele desejar. É muito grave especialmente num ambiente em que estamos, com essa dúvida sobre a influência do presidente Jair Bolsonaro sobre a Polícia Federal e o Ministério Público. Podemos estar diante de um abuso, de uma perseguição política em relação a possíveis e eventuais candidatos a presidente ou outros cargos. Isso é muito grave, nós temos que viver em um país em que as instituições funcionem de maneira republicana e democrática, coisa que hoje eu não confio estar acontecendo.

Como sair dessa confusão? O senhor enxerga alguma luz no fim do túnel?

Carlos Lima: Tem uma grande mobilização dessas pessoas que estão dentro das instituições, no sentido de fazerem valer a sua voz e fazer mudar os posicionamentos das diversas instituições, principalmente no STF. Há também uma parte do Parlamento que ainda apoia as investigações. Mas não vamos ter uma mudança significativa. Ao contrário, as mudanças nos últimos anos têm sido para pior. Como está muito difícil, não creio que teremos avanço no curto prazo. Minha esperança é que o silêncio dos bons, como diria Martin Luther King, não prevaleça. Que eles voltem a se manifestar, se contrapor. Que a imprensa volte a discutir os fundamentos de uma informação dada por alguém, não simplesmente aceitá-la como mais um relatório, não mais uma notícia opinativa e investigativa. Eu gostaria que não se tornasse comum o que está acontecendo hoje, que é esse relativismo moral em que o acusado da Lava Jato pode ser nomeado para um ministério ou para órgãos importantes dentro da Câmara; e que um procurador da República que ousa discutir tecnicamente uma decisão do Supremo [Deltan Dallagnol] é processado. Essa discrepância entre condutas e condições é que está realmente acabando com a nossa República.

O senhor já foi otimista em relação ao futuro...

Carlos Lima: No curto prazo não temos como ser otimistas. Ainda acredito no longo prazo porque eu acredito que a experiência do combate à corrupção, os princípios republicanos, vão prevalecer. Entretanto, o que nós vemos hoje é uma perseguição. Aquele acordão do começo do mandato de Bolsonaro sugerido por algumas autoridades, na minha opinião se refere ao acordão para “vamos estancar a sangria”, nos moldes do que foi dito em uma gravação da Lava Jato. É preciso estancar a sangria e foi esse o acordão que surgiu com a eleição de Bolsonaro.

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Os sinistros do Tribunal


O STF tem hoje duas funções básicas: destruir os conservadores e proteger os criminosos. Notas de Paulo Briguet, editor do Brasil Sem Medo:


1. A palavra sinistro significa, ao mesmo tempo, incêndio, esquerda e desastre.

2. Na manhã de segunda-feira, a Polícia Federal fez uma operação tendo como alvos a empresa do irmão da primeira-dama do Piauí — a deputada federal Rejane Dias (PT) — e a Secretaria de Educação do governo estadual petista. Numa incrível coincidência, um incêndio atingiu o setor de informática da Secretaria Estadual de Saúde do mesmíssimo Piauí.

3. Na semana passada, o presidente Donald Trump determinou o fechamento do consulado chinês em Houston (Texas) e acusou funcionários chineses de espionagem. Por uma outra notável coincidência, vizinhos do consulado gravaram as imagens de uma imensa fogueira nos fundos do consulado. O corpo de bombeiros foi chamado, mas os funcionários chineses não permitiram a entrada deles no local.

4. Ao refletir sobre esses dois episódios sinistros, fiquei pensando em outros atos de destruição que têm marcado as manifestações da esquerda no mundo inteiro: as derrubadas de estátuas, os quebra-quebras, o cancelamento de personalidades, os incêndios. Sem falar, é claro, nos espancamentos e assassinatos. A esquerda sempre tem por objetivo destruir, demolir, censurar, queimar alguma coisa — de provas de crimes a seres humanos.

5. Pensando ainda nos sinistros da esquerda, lembrei-me de um genial romance de Ray Bradbury, “Fanrenheit 451”. O livro se passa em um futuro distópico, em que os livros são todos proibidos: as pessoas só podem ver televisão. Nesse mundo, os bombeiros não apagam incêndios com água; eles os provocam com lança-chamas. E o principal alvo dos bombeiros incendiários são os livros clássicos: ou seja, a alta cultura.

6. Não é por acaso, portanto, que entre os principais alvos dos sinistros do STF estejam os conservadores brasileiros, justamente aqueles que defendem o resgate da alta cultura como pressuposto básico para a salvação do país.

7. Não é por coincidência, também, que o mesmo Tribunal da Vergonha que ataca os conservadores seja uma espécie de guarda pretoriana dos corruptos da esquerda. O caso de Toffoli, que queimou com uma canetada o impeachment de Witzel, é mais um gesto emblemático dos tempos que vivemos. Assim como o abismo atrai o abismo, o sinistro chama o sinistro. E assim o país é consumido em um grande incêndio de crime, mentira e ódio.

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.

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Querem combater o racismo? Recolham dados.


Em vez de manifestações ideológicas, quem quiser combater discriminações racistas tem por onde começar: recolha de dados para realçar padrões de discriminação e discutir soluções ajustadas à realidade. Artigo de Alexandre Homem Cristo para o Observador:


Haverá poucas discussões mais estéreis do que esta sobre se Portugal é um país racista. Estéril porque é uma discussão geralmente associada a crimes que envolvem brancos e negros, a quente (sem que os factos estejam apurados e as investigações policiais realizadas) e sem que seja claro se a cor da pele foi a motivação para o crime. Estéril porque limita as manifestações de racismo a crimes de ódio e violência, quando esta será apenas a ponta do icebergue de inúmeras formas diárias de discriminação, que condicionam vidas e encolhem horizontes. E estéril porque estes debates efémeros e generalistas nunca colocam as perguntas realmente importantes. Como estas: quando comparadas a brancos com as mesmas qualificações, as minorias raciais em Portugal são prejudicadas (e, se sim, quais e em que grau) no recrutamento para empregos, nos rendimentos, na habitação e na realização de contratos de arrendamento, no acesso a serviços financeiros, na participação em negócios?

É sempre uma desilusão constatar que estas perguntas rareiam no debate político que rodeia o racismo. Não porque o racismo não seja um tema político predominante, mas porque as abordagens que lhe são feitas caem em declarações políticas (no melhor dos casos) ou em meros oportunismos para canalizar agendas partidárias/ ideológicas. Seja para manifestações e contra-manifestações (como esta e esta ou esta e esta, onde o racismo deixa de ser verdadeiramente o foco). Seja para defender que a “solução” para o racismo é abolir o modelo económico capitalista (como se o racismo fosse uma invenção dos mercados e não tivesse pergaminhos históricos noutros contextos sociais e políticos). Ora tudo isto não é apenas a soma de oportunidades perdidas, é uma forma indirecta de instigar ódio e ressentimento social, e uma perversão que converte os partidos em ninhos de abutres, à espera de vítimas de racismo ou de crimes violentos que encaixem nas suas narrativas. É contraproducente, claro, mas é sobretudo moralmente ignóbil.

O debate sobre o racismo não deve circunscrever-se a isto. Mas, em boa verdade, é difícil encaminhá-lo para outro lado: faltam indicadores e recolha de dados objectivos, que permitam compreender a extensão de discriminações racistas na sociedade portuguesa. Ou seja, aquelas perguntas acima — sobre discriminações raciais no recrutamento profissional, na escolaridade, nos rendimentos, nas oportunidades — não têm resposta. Nos levantamentos estatísticos que orientam as políticas públicas, não há dados étnicos/ raciais que possibilitem o cruzamento com indicadores económicos, sociais e profissionais. E como não é possível aplicar um tratamento sem antes proceder a um diagnóstico, torna-se inconsequente enfrentar uma questão como o racismo sem dados, às escuras e à mercê de percepções (positivas ou negativas) que poderão não corresponder à realidade. Quem quiser realmente promover políticas públicas contra discriminações racistas tem por onde começar: a defesa de recolha de dados que incluam a dimensão racial, de forma a realçar padrões e discutir soluções que estejam ajustadas à realidade.

Não ignoro que o tema é sensível e que, no ano passado, já foi alvo de uma ampla discussão à volta da inclusão de identificação étnica nos Censos 2021 — a decisão foi a de não incluir questões étnicas nos Censos, uma decisão que o Presidente da República considerou sensata, apesar de o grupo de trabalho formado a este propósito ter dado parecer positivo. Aquando deste debate, dei os meus dois tostões para a discussão nesta coluna. E não só mantenho a posição crítica à decisão do INE e ao apoio da Presidência, como creio que a emergência de inúmeras discussões fúteis e gratuitas sobre o racismo em Portugal tem valorizado a minha posição: se queremos mesmo combater o racismo nas suas múltiplas manifestações, precisamos de dados empíricos e informação fiável, na medida em que nenhum desafio social se derrota optando pela ignorância. É, aliás, o que já se faz em algumas áreas do Estado, meio às escondidas. Na Educação, por exemplo, publica-se o perfil escolar dos alunos de etnia cigana — porque, goste ou não de aplicar indicadores étnicos, essa informação é relevante para a monitorização de um sistema educativo com aspirações de constituir elevador social.

O que temos não serve: manifestações e contra-manifestações, num debate submetido à baixa política, promovido pelo sensacionalismo e limitado a percepções movidas pela ideologia. Dito de forma simples: combustível para os extremismos que promovem o ressentimento e fragmentam o tecido social. Isto em nada contribui para melhorar a vida daqueles que são efectivamente vítimas de racismo. Por isso, vire-se a agulha. Não interessa discutir se Portugal é ou não um país racista. Importa simplesmente constatar que o racismo existe em Portugal (como em todos os países), que estará mais enraizado numas áreas da sociedade portuguesa do que noutras e que, para lhe dar resposta, é necessário um conhecimento objectivo e sustentado em dados, para orientar a discussão construtiva de soluções. Continuar de olhos vendados, sem dados e sem indicadores comparáveis é somente alimentar populismos.

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Novos ambientes de trabalho são como matadouros com pufes


A lógica produtiva atingiu o nível simbólico dos contos de fadas. Luiz Felipe Pondé, via FSP:


Dissociação é um termo em psicologia que descreve uma espécie de fragmentação da vida psíquica ou do comportamento. Alguém pode, por exemplo, viver uma vida dupla, sem ter plena consciência do que está fazendo. Ou praticar algo completamente dissociado do resto de sua vida, tampouco tendo plena consciência disso.

Filmes já criaram assassinos em série que eram excelentes pais e maridos. Ou uma excelente mãe e esposa pode ter casos amorosos em viagens a trabalho como se nada tivesse a ver com sua vida familiar. Pai, marido e assassino frio. Mãe, esposa e promíscua.

Muitos especialistas entendem que algum grau de dissociação se faz necessário para suportar as enormes contradições que a vida "normal" nos impõe.

Talvez só Deus e seu intelecto infinito (como diria Descartes no século 17), e, por tabela, sua consciência infinita, suportaria uma integração absoluta de todas as dimensões infinitas da vida e suas antinomias (contradições insolúveis).

No plano dos mortais como nós, dissociação demais –todos concordam– seria patogênico.

Refiro-me hoje a um tipo específico de dissociação que acomete as gerações mais jovens, principalmente ao adentrarem o mercado de trabalho.

Independentemente desse tipo de dissociação, vale lembrar que no grande romance "Pais e Filhos", de Ivan Turguêniev, do século 19 (e que só ele merece uma coluna), o jovem Bazárov, primeiro grande niilista da literatura russa, representante da geração dos anos 1860 na Rússia, os liberais radicais e ancestrais dos bolcheviques, já nasceu doente.

Melancólico, dissociado afetivamente, cheio de ressentimento e autoengano, o jovem, que depois virou calça jeans, já nasceu doente. Mas, voltemos a nossa pauta de hoje.

Os jovens que adentram o mercado de trabalho hoje vivem uma dissociação que pode ser caracterizada da seguinte forma: o mercado que os recebe oferece, no plano estético ou sensorial, um ambiente de trabalho que parece uma balada.

O ambiente parece um lounge, um "everlasting" êxtase (um êxtase sem fim), com horas flexíveis de trabalho, home office descolado, ambientes de relaxamento, colegas lindas, a saúde como modelo de vida escorrendo pelas academias, causas sociais veganas de espírito, promessas de carros caros, "rooftops" com vista para o futuro, trabalho em diversos países do mundo, enfim, o trabalho e o mundo como um imenso parquinho ao alcance deles.

A vida será muito mais legal, livre, feita de escolhas e divertida do que a de seus pais e mães, atordoados, tristes e ridículos (querendo ser jovens).

Já tentei dizer para pais e mães que os filhos e filhas deles acham ridículo quando eles querem ser jovens, mas esses tolos não escutam a sempre discreta voz da razão.

Na verdade, esses jovens vivem e viverão num mercado de trabalho mais agressivo, mais competitivo, mais violento, mais sem limites, com mais demandas e mais metas 44 horas por dia. A exigência de competência será muito maior em todos os níveis, ainda que empacotada para presente.

A dissociação patogênica aqui, dito de forma resumida, é: apesar de aderirem a uma vida "saudável", criativa e "rotinafree", os jovens –aqueles mesmos que fazem mimimi quando se fala de matadouros de gado– marcham, docilmente e felizes (sonhando com iPhones e capitais globais) para matadouros com pufes, ioga e comida orgânica.

O chamado marketing de causas ajuda muito nesse processo dissociativo que cobrará um alto preço em ansiolíticos e antidepressivos. Uma leitura que pode ajudar é "Winners Take All" (Vencedores levam tudo), de Anand Giridharadas, publicado pela editora Alfred A. Knopf, em 2018. Nesta obra, o autor mostra como o engajamento social das grandes marcas é para inglês ver.

Mas esta batalha é perdida. A lógica produtiva atingiu o nível simbólico dos contos de fadas e as antigas princesas medievais hoje são mulheres que trabalham 200 horas por dia, felizes por serem cativas.

Olho para o passado recente da pandemia e vejo como já nos seus primeiros dias o mercado do coronavírus se organizava ao redor dos delinquentes e dos conscientes.

A pandemia mostrou que nem um vírus está a salvo.

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A via mística da direita


O mais lamentável é a curiosa mistura do Sermão da Montanha e da não-violência à Gandhi que Marcelo julgou oportuno introduzir pelas suas palavras no coração dos portugueses. Artigo do professor Paulo Tunhas para o Observador:


Com mais um fim do mundo – financeiro, económico e social – a aproximar-se, a direita anda mais estranha do que nunca. Parece que se deixou de preocupar com o futuro do país e enveredou pelo consolo do misticismo. Para o cidadão comum, não apresenta nenhuma alternativa discernível ao projecto de poder do PS de António Costa, antes pelo contrário: apoia-o de todas as maneiras possíveis e imaginárias, mesmo que isso signifique pactuar com erros, mentiras e ilusões. Para todos os efeitos, serve-o. E isso, repito-o, com mais uma catástrofe de dimensões bíblicas à porta e já a entrar pela casa dentro. Tanto desinteresse, tanta ausência de vontade, é obra. Não sei se de Deus ou do Diabo, mas suspeito que do segundo.

Marcelo, por exemplo, discursou no outro dia em Ovar. Um dos temas foi a questão das restrições impostas por vários países europeus, em particular do Reino Unido, às visitas a Portugal dos seus cidadãos, por causa da taxa de propagação da Covid por estas bandas. E o que disse o nosso Presidente? Cito: “Nós fomos e somos um exemplo. Não precisamos das lições alheias para sermos um exemplo. Não dependemos de listas alheias para sermos um exemplo, não retaliamos contra ninguém para sermos um exemplo. Não fechamos a porta àqueles que nos fecham a porta, porque entendemos que é assim que damos um exemplo”.

Por uma vez, a conhecida obsessão de Marcelo com o facto de sermos (basta-nos querer) os melhores do mundo não é o mais lamentável do seu discurso. O mais lamentável é a curiosa mistura do Sermão da Montanha e da não-violência à Gandhi que ele julgou oportuno introduzir pelas suas palavras no coração dos portugueses, quando deveria estar a discutir um problema que é susceptível de uma análise racional: porque é que nos revelamos incapazes, apesar de um assinalável esforço colectivo, em combater eficazmente a actual pandemia? A chamada “ética da convicção” é uma coisa muito linda e respeitável, mas trazê-la para primeiro plano – “não retaliamos”, “não fechamos a porta”, etc. – quando o que se exige do primeiro magistrado da nação é antes de tudo o exercício da “ética da responsabilidade” – o que fazer para evitar a presente situação que desgraça o país, como combater eficazmente aqui o surto pandémico – não é apenas, perdoe-se a palavra, uma tontice. É uma declarada manifestação do que se poderia talvez chamar a ética da irresponsabilidade. Marcelo poderá ser uma pessoa muito inteligente, mas a sua inteligência tem por vezes, e até começa a ser a regra, efeitos deletérios para o país. O salto para a nossa suposta exemplaridade mística é um salto para o abismo. Nada daquilo se aproveita para melhorar a nossa situação. E isso, apesar de tudo, interessaria um bocadinho, não é?

E que dizer de Rui Rio, o chefe nominal da oposição, uma oposição que tem a particular e muito original característica de o não ser? Não é que Rio sofra de fraqueza de vontade, a célebre akrasia dos gregos. Não vê o melhor, aprovando-o, e, por falta de carácter, faz o pior. Não é nada disso. Pura e simplesmente, ele não vê o melhor. Em última análise, Rio não tem vontade de disputar com Costa o lugar de primeiro-ministro. Quando muito, ele aceitaria ser nomeado, por um outro qualquer processo que não envolvesse conflito, para o cargo. E isso obviamente espelha-se nas intenções de voto que as sondagens à sua maneira evidenciam: Costa e o PS aumentam a sua distância para com Rio e o PSD. São apenas sondagens, é claro. Mas alguém me explica porque carga d’água alguém, fora os mais militantes dos aficionados do PSD, votaria num indivíduo que patentemente não deseja levar a cabo o necessário combate político para ser primeiro-ministro?

A mim, isto lembra-me as eleições presidenciais francesas de 1995. Vivia na altura em França e tenho boa memória delas. O PSF queria que Jacques Delors fosse o seu candidato. Delors gozava então de um imenso prestígio e era, como se diz, um candidato ganhador. Concorresse ele e a vitória era praticamente certa. E Delors queria obviamente ser Presidente da República. Uma coisa, no entanto, ele não queria, puro tecnocrata com imenso apreço por si mesmo que era: submeter-se ao combate eleitoral, que obviamente via como uma degradação do seu eminente estatuto. E, em finais de 1994, recusou aceitar a candidatura. O PSF acabou, à falta de melhor, por escolher Lionel Jospin, um trotskista “entrista” no PSF, que acabou por perder, na segunda volta, para Chirac.

Foram, de resto, umas eleições muito divertidas. Chirac tinha um acordo com o então primeiro-ministro, o seu “amigo de trinta anos” Édouard Balladur: este último não se candidataria às presidenciais, acontecesse o que acontecesse. Mas as danadas das sondagens começaram a dar-lhe uma votação excelente, e ele, apoiado por um muito jovem Nicolas Sarkozy, não resistiu e traiu o compromisso com Chirac. Chirac reagiu energicamente e começou a subir. E foi aí que Balladur fez uma coisa extraordinária. Para contrariar a imagem de distância para com as pessoas que via como um obstáculo ao seu sucesso, simulou uma avaria no helicóptero que o transportava para um comício já não sei em que cidade e pôs-se a pedir boleia na estrada. Que coisa mais humana, que melhor prova de proximidade com o homem da rua, se poderia esperar? Azar dos azares, descobriu-se que a senhora que lhe deu boleia trabalhava no seu gabinete (ou era casada com alguém que com ele trabalhava, disso já não me lembro) e que tudo não passara de uma encenação. Chirac acabou por o eliminar na primeira volta das eleições.

Mas voltemos a Portugal e a Rui Rio. Rio sofre de um problema parecido com o de Delors. Considera-se muito a si mesmo e notoriamente encara a banal luta política como contrária aos seus elevadíssimos princípios éticos, que não cessa de apregoar. Com uma singularidade que o distingue de Delors. À imagem de certos místicos franceses do século XVII, Fénelon e Madame Guyon, que mereceram a condenação de Bossuet, Rio parece ter adoptado uma particular versão do quietismo marcada pelo “puro amor”, que implica passividade, o abandono e um consentimento a uma vontade maior, a de Deus, que traz consigo, qual acto heróico, o sacrifício da abolição da vontade própria e um repouso todo ele feito de desinteresse e indiferença, uma abnegação absoluta que é uma forma de não-vontade. A excepção a esse sacrifício da vontade dá-se apenas quando Rio lida com os seus opositores no partido, invariavelmente “deploráveis”, para falar como uma célebre candidata presidencial americana, por acaso derrotada.

A questão que se coloca é: a quem, ou a quê, abandona Rui Rio a sua vontade? Alguns sugerem que, em virtude de uma intensa fascinação pela personagem, o seu “puro amor” é consagrado a Costa. Pela minha parte, creio que o abandono místico se dirige a outra coisa, a saber à “ética” que não lhe sai nunca da boca. Ou, pelo menos àquilo que, no seu desdém pela banal política, ele chama “ética” e que aos seus olhos aconselha, para dar apenas um exemplo, a abolição dos debates quinzenais para que o primeiro-ministro “possa trabalhar” em paz e sossego.

Seja como for, é triste que, numa situação tão grave quanto a nossa, uma situação que até ao fim do ano assumirá proporções verosimilmente trágicas, a direita – pelo menos a de Marcelo e a de Rio – enverede tão afoitamente pela via régia das consolações místicas. Fénelon e Madame Guyon viam o “puro amor”, também concebido como caridade, como algo que transcendia e superava a esperança, ainda maculada pela vontade do interesse próprio. E isso toda a gente pode perceber: a “não-vontade” de Marcelo e Rio arrisca-se a dar definitivamente cabo do que nos resta de esperança. É a primeira consequência do actual caminho místico da direita.

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Por que o Twitter baniu a médica que defende a cloroquina?


Até o filho de Donald Trump foi temporariamente suspenso por retuitar Stella Immanuel, tratada como maluca por causa da divergência sobre o remédio. Vilma Gryzinski:


Vejam se existe uma diferença entre as seguintes declarações:

“No meio de uma crise, estou lutando por um tratamento amplamente apoiado em dados que, por razões completamente opostas ao entendimento da ciência, foi escanteado. Por causa disso, dezenas de milhares de pacientes com Covid-19 estão morrendo desnecessariamente. Estou me referindo, claro, ao medicamento hidroxicloroquina”.

“Nos últimos meses, depois de tratarmos de mais de 350 pacientes, não perdemos nenhum. Nem um diabético, nem alguém com pressão alta, nem alguém com asma, nem um idoso. Não perdemos nenhum paciente. A hidroxicloroquina com zitromax e zinco funciona”.

Dois médicos disseram isso. Ambos foram igualmente polêmicos.

O primeiro é Harvey Rich, professor de epidemiologia na faculdade de saúde pública de Yale. Seu artigo na revista Newsweek passou quase despercebido.

A segunda declaração foi feita por Stella Immanuel, médica proveniente de Camarões que estudou na Nigéria e trabalha em Houston, no Texas.

Como pastora de uma igreja que fundou, ela falou em tom apaixonado em defesa do medicamento.

Foi banida do Twitter, Facebook e YouTube depois de 17 milhões de visualizações, tendo sido retuitada pelo presidente americano Donald Trump e seu filho Donald Trump Jr, este suspenso por um pequeno intervalo.

A suspensão de Trump Jr. veio com o aviso sobre o motivo do castigo: “Determinamos que esta conta viola as Regras do Twitter. Especificamente, por violar a política relacionada com a divulgação de informação enganosa e potencialmente perigosa em relação à Covid-19”.

As redes sociais realmente pululam com teorias conspiratórias que, quanto mais absurdas, mais adeptos conseguem.

Mas desprezo, descrédito e ridicularização foram reservados apenas a Stella Immanuel.

No New York Times, ela foi tratada por “uma mulher que se identifica como a doutora Stella Immanuel”.

Os outros médicos, reunidos por políticos conservadores para falar em frente à Suprema Corte, foram descritos assim: “Um grupo de pessoas que se denominam ‘Médicos na Linha de Frente da América’ e usando jalecos brancos”.

Além de desmerecer os participantes, o jornal também leu suas mentes, dizendo que participaram de “um vídeo planejado especificamente para apelar aos conspiracionistas da internet e conservadores ansiosos por reabrir a economia, com cenário e personagens para emprestar credibilidade”.

O Times foi até brando comparado ao tratamento que o site Daily Beast reservou a Stella Immanuel.

“Sexo com espíritos” e “esperma diabólico” foram as expressões usadas para ridicularizar os sermões que ela faz como pastora, atribuindo doenças ginecológicas e disfunções sexuais a espíritos malignos que atormentam infelizes durante o sono – os íncubus e súcubus dos antigos tempos da Igreja católica.

Se tivesse identidade ideológica desse veículos de comunicação, a médica poderia ser vista até como uma folclórica adepta da tese mostrada por Roman Polanski no filme O Bebê de Rosemary. Ou uma africana ligada em crenças ancestrais.

Mas será que ela seria tratada como maluca se aparecesse jogando coquetéis molotov numa manifestação do Black Lives Matter?

Todo mundo sabe a resposta.

Médicos também têm suas paixões políticas, divergem sobre tratamentos e conhecem bem o histórico de curas miraculosas para enganar os desesperados.

Stella Immanuel fez declarações contestáveis, inclusive sobre a desnecessidade de usar máscaras e o uso profilático da hidroxicloroquina.

Disse que conhece bem o medicamento desde o tempo em que atendia pacientes com malária na África e que o medo de complicações cardíacas é desproporcional.

O professor de Yale falou basicamente a mesma coisa, inclusive sobre o uso inadequado em estudos sobre a eficácia ou não do remédio.

E cravou o cerne do problema:

“O medicamento se tornou altamente politizado. Para muitos, é visto como um marcador de identificação política, dos dois lados do espectro político. Ninguém precisa me dizer que não é assim que a medicina deveria se comportar. Precisamos julgar esse medicamente estritamente com base na ciência”.

Exatamente o que parece cada vez mais difícil.

A hidroxicloroquina já foi condenada em estudos sérios ou nem tanto – um deles totalmente feito com uma base de dados falsificada.

Outros ainda persistem em analisar cientificamente seus efeitos.

Existe também a hipótese de que funcione para determinados pacientes e não para outros, por motivos que ainda têm que ser decifrados.

O novo coronavírus tem apenas seis meses de vida detectada entre humanos. Descobertas que parecem ridículas são baseadas em dados reais: pode ser mais perigoso para pessoas com sangue tipo A e contamina mais facilmente os que têm acima de 1,80 metro de altura.

Em outro plano, ele também pode reeleger ou arruinar presidentes. Aí está, obviamente, o campo de contaminação da medicina pela política.

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A ideologia e a saúde dos jovens


No Brasil, também é preciso que os pais e educadores estejam atentos ao fenômeno das adolescentes que subitamente passam a se identificar como transgênero. Editorial da Gazeta do Povo:


A professora de Medicina Lisa Littman jamais votou no Partido Republicano em toda a sua vida. Docente de Brown, mais progressista do que as já muito progressistas universidades americanas, ela não faz parte de uma coalizão conservadora ou tradicionalista. Ainda assim, a professora foi escanteada por boa parte da comunidade acadêmica. O motivo: em sua pesquisa, ela identificou um fenômeno batizado de “disforia de gênero de desenvolvimento rápido”, no qual adolescentes subitamente passam a se identificar como transgênero, mesmo sem qualquer dos sinais prévios nesse sentido. Para a professora, muitos jovens que se identificam como transgênero, na verdade, estão passando por um processo diferente, com causas distintas.

A professora Lisa não está sozinha. Um livro recém-lançado – Irreversible Damage, que pode ser traduzido como “Dano Irreversível” – mostra como as adolescentes nos Estados Unidos e em outros países estão suscetíveis a um fenômeno pouco estudado e que tem se espalhado como uma epidemia, ao mesmo tempo em que cientistas sucumbem à pressão de grupos militantes.

A autora do livro é a experiente jornalista Abigail Shrier, do Wall Street Journal. Ela entrevistou cerca de 200 pessoas, incluindo cientistas e familiares de adolescentes. A conclusão, sustentada por números, é alarmante: adolescentes estão passando a se identificar como transgêneros de forma repentina, muitas vezes com o apoio da escola e sem o consentimento dos pais. É um fenômeno distinto do das crianças e adolescentes que, por razões diversas, se identificam com o sexo oposto de forma consistente – embora estes, em 80% dos casos, deixam de fazê-lo conforme os anos passam.

A autora não analisa o fenômeno das pessoas transgênero como um todo, e tampouco os casos de meninos que se identificam como meninas. O recorte de Irreversible Damage é específico: as garotas adolescentes, geralmente mais suscetíveis à pressão de grupo. São meninas que estão sendo submetidas a tratamentos sem volta como bloqueadores de puberdade, ingestão de hormônios masculinos e até cirurgias de “readequação” corporal.

O fenômeno diagnosticado por Abigail Shrier funciona assim: a garota, insegura com o próprio corpo e com problemas de aceitação, se depara na internet com um vasto conteúdo sugerindo que esses são sinais de que ela pode ser transgênero. Ao procurar por mais informações a respeito, ela conhece influenciadores que apresentam apenas os aspectos positivos da “transição”, e ouve que, se ela acredita que possa ser transgênero, já o é. As amigas, criadas em um ambiente no qual ser transexual é tido um exemplo de coragem, dão todo o incentivo. Quando procurados, os médicos especialistas no assunto, por convicção ou receio e serem punidos por praticarem a chamada “terapia de conversão”, se limitam a reforçar a suspeita e colocar a garota no caminho da transição para o gênero oposto. O que poderia ser apenas um momento de confusão passageira ou uma tentativa de obter atenção dos colegas se torna uma jornada com consequências físicas e psicológicas irreversíveis.

A evidência reunida por Abigail Shrier é impressionante. Em poucos anos, o número de adolescentes que se identificam como transgêneros cresceu 1.000% nos Estados Unidos e 4.000% na Inglaterra. Tão preocupante quanto a epidemia descrita por ela é a tentativa de coibir as vozes dissonantes no mundo científico. Assim como Lista Littman, outros pesquisadores foram tolhidos depois de contestarem o paradigma dominante. O próprio livro de Abigail teve problemas com a Amazon, que não permitiu anúncios da obra em sua plataforma.

No Brasil, também é preciso que os pais e educadores estejam atentos ao fenômeno das adolescentes que subitamente passam a se identificar como transgênero. Nossas jovens estão sujeitas ao mesmo tipo de influência das americanas: a pressão de grupo, a onipresença das redes sociais e uma indústria do entretenimento cada vez mais abertamente militante em favor da chamada “causa transgênero”. Para ficar apenas no exemplo mais recente, a Netflix produziu e colocou no ar recentemente uma série infanto-juvenil (“Clube das Babás”) que tem um garoto “transgênero” de apenas 9 anos de idade como uma de suas personagens. A Netflix, orgulhosa, ainda convidou uma militante LGBT para comentar o episódio na página da companhia no Twitter e alertar não para os riscos da transição de gênero precoce, mas para a necessidade de que a sociedade não use os pronomes errados ao se referir a pessoas transgênero.

Em Irreversible Damage, Abigail Shrier apresenta uma lista de recomendações aos pais. A primeira é resistir à tentação de dar um smartphone à filha. Na lista também estão itens como “Não apoie a ideologia de gênero na educação da sua filha” e “não abra mão da sua autoridade como pai e mãe”. Para além disso, é preciso que as escolas ajam de forma responsável e informem a família sobre quaisquer sinais de que a criança ou adolescente possa estar passando por um processo de “disforia de gênero de desenvolvimento rápido”. E, tão importante quanto, espera-se que a comunidade médica cumpra o seu papel e não se dobre a militância de qualquer tipo. O que está em jogo é muito precioso: a saúde física e emocional das nossas garotas.

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Applebaum mostra como a nova direita precisa de intelectuais públicos


Anne Applebaum autografa a mudança tectônica na linguagem ideológica do século XXI. João Pereira Coutinho, via FSP:


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Ainda me lembro quando Anne Applebaum era uma respeitada intelectual conservadora. De inclinação liberal, sem dúvida, mas conservadora. Foi assim que a conheci, uns 15 anos atrás, quando esteve em Lisboa para o lançamento de "Gulag", o notável estudo sobre o sistema prisional soviético que valeu um Pulitzer.

Mas o mundo mudou e Applebaum é hoje "persona non grata" para a direita conservadora de 2020. O que aconteceu?

Com Applebaum, talvez nada. Mas, como a própria afirma no seu "Twilight of Democracy: The Failure of Politics and the Parting of Friends" (crepúsculo da democracia: o fracasso da política e a separação dos amigos), o significado da palavra "direita" mudou bastante nos últimos 20 anos.

Na virada do milênio, ser de direita significava acreditar na democracia liberal, no mercado livre, no sistema de freios e contrapesos, no Estado de direito, na Otan, na União Europeia. Significava festejar o "fim da história", talvez com uma ingenuidade excessiva.

Hoje, olhando para as direitas que tomaram conta do pedaço, significa o contrário de tudo aquilo. Ser de direita é defender a democracia iliberal, o nacionalismo econômico, o controle do Judiciário, o isolacionismo internacional e o fim da União Europeia. Se essa é a direita de 2020, Applebaum não faz mais parte dela.

Eis o primeiro mérito do livro: cartografar essa mudança tectônica na linguagem ideológica do século 21. O fato de Applebaum viver na Polônia, onde o partido Lei e Justiça simboliza muitos dos vícios da nova direita, ajudou no diagnóstico.

Mas Applebaum não se limita à Polônia. Ela viaja pela Hungria, pelo Reino Unido, pelos Estados Unidos, pela Espanha, pela Itália e identifica essa mudança radical: o naufrágio da direita liberal e a emergência da direita autoritária.

Mas existe um segundo mérito no livro de Applebaum: ela procura mostrar como a nova direita precisa de intelectuais públicos para prosperar. Alguns desses intelectuais eram seus amigos, visitas lá de casa. Hoje, são "cheerleaders" de Viktor Orbán ou de Donald Trump. Que se passou?

Sim, era possível detectar em muitos deles uma "predisposição autoritária", um gosto pela homogeneidade e pela ordem, uma inclinação por narrativas simples e simplórias.

Mas o poder, esse velho afrodisíaco, falou mais alto: de que vale ter princípios quando esses princípios nos condenam à solidão e ao empobrecimento?

Melhor participar no "espírito do tempo" e ter um lugar na mesa de quem manda.

O que se passou com os amigos de Applebaum foi descrito por Julien Benda no seu "Les Trahison des Clercs", de 1927, que Applebaum cita em abundância: se a função do intelectual é manter a razão e defender a decência contra os poderes instalados, os intelectuais de Benda (e de Applebaum) atraiçoaram o seu papel e emprestaram o seu talento e o seu prestígio ao autoritarismo mais boçal.

Uma das melhores passagens do livro descreve uma visita que a autora fez a uma velha amiga húngara que abandonou o liberalismo da década de 1990 para marchar com o partido Fidesz de Viktor Orbán.

Nas palavras da mulher, era necessário romper com a imitação vulgar da democracia liberal e optar por uma forma mais autêntica de política nacional.

Que essa forma autêntica seja também uma imitação vulgar do nacionalismo que é possível ver nos quatro cantos do mundo, Brasil incluso, eis uma ironia que escapou a essa mente vanguardista.

Críticas ao livro?

Tenho algumas. Para começar, não aceito que Applebaum junte na mesma sacola o fenômeno Orbán com o brexit de Boris Johnson. Como escrevi repetidas vezes, os argumentos sérios a favor do brexit –a defesa do Parlamento inglês como instrumento central da vida política do país, por exemplo– estão mais próximos da democracia liberal do que Applebaum imagina.

Por outro lado, concordo com todos aqueles que acusam Applebaum de não ter feito um maior esforço para compreender as razões profundas da opção populista. Se a autora pensa que o povo elegeu líderes populistas simplesmente por influência dos intelectuais, ela está dramaticamente enganada.

Mas não está enganada no essencial: a primeira tarefa de um conservador é recusar os apelos da política radical. Não interessa se os apelos são revolucionários ou reacionários. São apelos utópicos em qualquer dos casos, ou seja, inimigos do presente.

Como lembrava David Frum, um dos poucos amigos da autora que não desertou, o conservadorismo do século 21 deve conservar a herança liberal que triunfou no século 20 sobre todas as alternativas totalitárias.

Se o livro sombrio de Anne Applebaum ajudar nessa causa, nem tudo estará perdido.

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