JORNAL A REGIÃO
Os recentes anúncios de reestruturação na indústria podem ser apenas o sintoma mais visível de uma transformação mais profunda na categoria de cerveja. No Brasil, os dados mostram que o desafio vai além da economia: trata-se de uma mudança consistente no comportamento do consumidor.
A cerveja está deixando de ser protagonista dos finais de semana. Dados da Worldpanel by Numerator mostram que as ocasiões anuais de consumo dentro do lar caíram 19,4% nos últimos 12 meses até junho de 2025 versus o ano anterior, totalizando 167,7 milhões de ocasiões anuais.
O movimento revela uma transformação estrutural: o consumo aos finais de semana (sexta a domingo) recuou 25,4%, enquanto os dias de semana (segunda a quinta) cresceram 6,2% em participação. O tradicional ritual social da cerveja está encolhendo e o consumo individual ganhando espaço.
O número de usuários semanais caiu 24,1%, e hoje apenas 4,5% desses consumidores bebem cerveja ao menos uma vez por semana, um sinal claro de perda dos consumidores mais frequentes.
“O setor enfrenta um ajuste que não é apenas financeiro. Estamos vendo uma redefinição do papel da cerveja na rotina do brasileiro. O desafio deixou de ser apenas volume - passou a ser relevância”, afirma David Fiss, Diretor Sênior de Novos Negócios da Worldpanel by Numerator no Brasil.
O consumo individual cresceu de 13,6% das ocasiões nos 12 meses terminados em junho de 2024 para 22,4% no mesmo intervalo de 2025. A cerveja deixa de ser majoritariamente um momento compartilhado com amigos e passa a ocupar mais espaço como experiência pessoal.
Nos finais de semana, ainda predominam ocasiões compartilhadas (77%), mas com queda relevante versus o ano anterior (-9,3 p.p). Durante a semana, 80% das ocasiões são compartilhadas, porém também com redução (-7,4 p.p.). Além disso, o volume consumido diminui à medida que menos pessoas compartilham o momento.
“A categoria nasceu social. Quando o consumo se individualiza, o modelo inteiro precisa ser revisto, da embalagem à comunicação”, completa Fiss. O consumo fora do lar (OOH) segue pressionado, com queda mais acentuada em restaurantes e vendedores ambulantes, enquanto o dentro do lar se mantém estável.
O cenário macroeconômico e fatores climáticos, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, também influenciaram negativamente o desempenho. Ainda assim, há reconfiguração interna. Marcas e segmentos de menor custo vêm ganhando espaço, enquanto Premium e consumo médio apresentam retração.
A cerveja também perde espaço na disputa por ocasiões de consumo para outras bebidas. No acumulado até junho de 2025, refrigerantes, sucos, vinhos e energéticos avançaram em diferentes faixas etárias, enquanto a cerveja registrou variações negativas em praticamente todos os grupos geracionais.
Nos churrascos, por exemplo, cerveja e refrigerantes perderam participação para vinho, outras bebidas alcoólicas e sucos. “O consumidor continua buscando prazer, mas com mais controle e menos frequência. É um prazer racionalizado”, destaca Fiss.
A Geração Z consome menos cerveja do que as anteriores e divide preferência com outras bebidas. Já a Geração X, hoje o maior grupo consumidor, começa a desacelerar, influenciada por maior preocupação com saúde e moderação. Entre os Millennials, cresce o consumo individual e fora dos grandes rituais sociais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário