
Por Bárbara Arranz
A decisão da Anvisa de permitir o cultivo de cannabis medicinal no Brasil não é apenas um avanço regulatório.
Para mim, ela tem nome, rosto e história.
Foi a partir do diagnóstico do meu filho que tudo começou. Não por
escolha estratégica, não por oportunidade de mercado, mas por
necessidade. Quando a saúde de um filho está em jogo, a gente não aceita
o “não” como resposta definitiva; a gente pesquisa, questiona, enfrenta
o medo, o preconceito e o julgamento. A gente resiste!
Foi nesse lugar, o da maternidade atravessada pela urgência, que
encontrei a cannabis como ferramenta terapêutica. Primeiro para cuidar
do meu filho. Depois, inevitavelmente, para cuidar de outras mães e
outros filhos que batiam à minha porta com a mesma dor, as mesmas
dúvidas e o mesmo cansaço de lutar sozinha.
E foi aí que entendi que quando existe propósito, a gente não para.
Segui mesmo quando tudo era tabu. Quando falar de cannabis era
sinônimo de risco profissional. Quando empreender com a planta parecia
um ato de desobediência. Quando ser mulher, mãe e biomédica nesse campo
significava ser constantemente questionada, desacreditada e, muitas
vezes, silenciada.
Nesse caminho, me tornei a primeira biomédica autorizada pela
Anvisa a prescrever cannabis no Brasil. Fui também a primeira mulher a
empreender com cosméticos infusionados com cannabis. Mas esses
“primeiros” nunca foram sobre vaidade ou pioneirismo vazio. Foram
consequência de insistir quando desistir seria mais confortável.
Ao longo de quase dez anos, mais de 40 mil pessoas passaram por
atendimentos, orientações e cuidados ligados ao uso responsável da
cannabis. São mães, crianças, idosos, famílias inteiras que encontraram
na cannabis uma possibilidade de qualidade de vida quando outras
alternativas já haviam falhado.
As associações de pacientes nasceram exatamente desse mesmo lugar:
da urgência. Elas existem porque o Estado demorou. Porque o acesso
falhou. Porque mães não podiam esperar uma regulamentação que nunca
vinha. Essas associações cuidaram, acolheram, produziram acesso e
informação mesmo sem segurança jurídica, muitas vezes sob risco pessoal.
Por isso, a decisão da Anvisa importa tanto.
Permitir o cultivo de cannabis medicinal no Brasil é reconhecer que
saúde pública não pode continuar dependendo apenas de importações caras
ou de decisões judiciais individuais. É admitir que regular é melhor do
que fingir que não existe. É criar critérios sanitários, controle,
rastreabilidade e proteção para pacientes, profissionais e associações.
É importante ser clara: regulamentar não é liberar indiscriminadamente!
O que foi aprovado trata exclusivamente de uso medicinal,
científico e farmacêutico. Trata de responsabilidade, cuidado e de
ciência.
Ainda há muito a ser feito. Regulamentar é só o começo e o desafio
agora é garantir que essa política seja implementada com justiça, que
respeite as associações, que amplie o acesso real e que não apague quem
sustentou essa pauta quando ela era invisível.
Mas hoje, o Brasil dá um passo que precisa ser reconhecido.
Eu sigo aqui do mesmo lugar de sempre: da mãe, da biomédica, da mulher que escolheu não parar.
Seguiremos lutando.
Bárbara Arranz - Mãe atípica | Biomédica | Pioneira em cannabis
medicinal no Brasil, com mais de 40 mil pessoas atendidas em quase 10
anos | Empreendedora | Fundadora da Linha Canabica da Ba e Hemp Vegan.
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Milka Verissimo
milkaverissimo@gmail.com
(11) 95761-2703
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