O casal que “mandou prender o bispo” lança a Nicarágua numa espiral de violência que envergonha qualquer companheiro esquerdista. Vilma Gryzinski:
Existe a violência habitual dos regimes autoritários e existe a Nicarágua.
Mandar prender um bispo na calada da noite, invadindo a cúria
episcopal, foi apenas um passo a mais no caminho de trevas seguido por
Daniel Ortega e Rosario Murillo, o casal que se sente cada vez mais sem
limites para exercer o poder absoluto.
Há
muito tempo, nada mais lembra os militantes esquerdistas com aura
romântica que haviam conseguido derrotar a ditadura hereditária de
Anastasio Somoza e sonhavam implantar uma revolução feita por poetas
que, como tantos outros projetos fracassados, criaria o novo homem.
Criaram,
claro, o mesmo homem de sempre quando se vê sem os pesos e contrapesos
dos sistemas democráticos: um abusador serial do poder (sem contar que,
literalmente, Ortega também abusou da filha de Rosario, num processo
monstruoso que começou quando ela era criança e durou vários anos).
É de dar vergonha profunda a todos, inclusive aos que sempre acreditaram na superioridade moral das causas esquerdistas.
Exceto,
obviamente, para os que não enxergam nada de mais num regime de
presidência perpétua e fecham os ouvidos ao brado, calado à força de
tiros de fuzil na cabeça que mataram mais de 350 pessoas, que se ergueu
das ruas em 2018: “Daniel, Somoza, son la misma cosa”.
Não
há mais protestos, a oposição está no exílio ou na cadeia e o regime
autoritário chegou ao ponto de expulsar do país as 18 freiras da ordem
fundada por Madre Teresa de Calcutá.
Não
existem nem mais jornais: a Nicarágua é o único país das Américas que
não tem mais nenhum periódico impresso. A sede do histórico La Prensa
foi tomada o ano passado. O diretor do jornal foi condenado a nove anos
de prisão sob acusações falsas e Cristiana Chamorro, integrante da
família que resistiu às duas ditaduras, a de direita e a de esquerda,
também perdeu a liberdade. Era uma das sete pessoas que tentaram
“concorrer” com Ortega na última eleição presidencial e, por uma
incrível coincidência, acabaram no cárcere.
As
perseguições contra integrantes da Igreja Católica se aceleraram nos
últimos meses, sufocando os últimos espaços onde ainda era possível
resistir. Sete pequenas rádios católicas do interior foram fechadas e
forças policiais invadiram a capela do Menino Jesus de Praga da
cidadezinha de Sébaco para confiscar equipamentos de transmissão. Cerca
de vinte jovens católicos foram presos.
Dom
Rolando Álvarez, bispo da cidade de Matagalpa, conseguiu resistir
durante quinze dias, cercado por outros sacerdotes, seminaristas e
laicos. Acusação contra ele: “Tentar organizar grupos violentos e
executar atos de ódio contra a população”.
Em
cenas que poderiam estar num filme de Buñuel, o bispo tentou resistir.
Pegou o Santíssimo Sacramento e enfrentou a tropa, sem sucesso. Numa
outra tentativa de romper o cerco, proferiu palavras amenas aos “irmãos”
que faziam uma fileira armada de escudos, capacetes e cassetetes na
frente da garagem da cúria. Abençoou-os e terminou com um “assim seja”.
“Assim seja”, respondeu a tropa. O portão se fechou.
Padres
exilados e ex-presidentes conservadores da América Latina imploraram
pela intercessão do Vaticano, mas o papa argentino, que foi acusado de
colaborar com o regime militar no tempo da ditadura e parece tentar
compensar isso com simpatias invariavelmente bolivarianas, só se
pronunciou para pedir um diálogo “sincero e respeitoso”. Parece
brincadeira.
Quando
explodiram os protestos de 2018, a Igreja procurou intermediar um
diálogo. Não deu certo. O casal presidencial acusou os religiosos de
“tentativa de golpe de estado”.
A
perseguição à Igreja é especialmente irônica na Nicarágua, onde a
Teologia da Libertação chegou literalmente ao poder, com padres
militantes como Ernesto Cardenal, o ministro da Cultura que pretendia
acabar com “a arte pela arte”, uma coisa burguesa.
No fim da vida, Cardenal, como outros sandinistas históricos, voltou-se contra Ortega e Rosario Murillo.
“Eles
são donos de todos os poderes na Nicarágua. Têm um poder absoluto,
infinito, sem limites, e esse poder agora está contra mim”,
diagnosticou, corretamente, o padre-poeta-guerrilheiro em entrevista ao
El País pouco antes de morrer.
Agindo
numa frente bem diferente, o padre Hector Ramírez, baseado na Costa
Rica, disse no fim do ano passado que Rosario Murillo “é a segunda bruxa
mais importante do mundo” (deixou muita gente querendo saber quem é a
primeira).
“Por que este regime já dura quarenta anos e não cai?”, argumentou o padre.
Rosario
cultiva a aura equivalente ao se apelido, La Bruja, com rituais
bizarros e roupas que lembram hippies dos anos sessenta. Numa cerimônia
de entrega de 250 novos ônibus, os veículos foram estacionados numa
praça central de Manágua formando o círculo com raios solares associado
ao deus Aton no Antigo Egito.
Como
Cuba, a Nicarágua perdeu a “pensão” em petróleo que recebia da
Venezuela e o casal presidencial, cujos filhos ocupam postos importantes
na estrutura do estado, foi ficando cada vez mais estranho. Rosario
domina todas as comunicações do governo e nenhum ministro fala sem sua
autorização. As mensagens esotéricas de paz e amor são desmentidas pela
realidade. Nessa, não há bruxaria que dê jeito.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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