Revisitar os meandros daquele que já foi definido como o maior escândalo de corrupção da História do mundo é um dever ético inescapável. Carlos Alberto Di Franco via Estadão:
Decidi
falar sobre corrupção. Mais uma vez. Não é uma obsessão. Trata-se do
combate prioritário. A imensa maioria dos brasileiros é honrada,
trabalhadora, generosa. Mas vive encurralada por uma minoria militante e
poderosa.
Armada
de um cinismo cortante, essa minoria argumenta que a Operação Lava
Jato, “com sua sanha punitiva”, destruiu empresas, criminalizou a
política e condenou inocentes. Como se não existissem confissões
documentadas, provas robustas e milhões devolvidos aos cofres como
resultado de acordos. Quem devolve, por óbvio, reconhece o roubo. Para
esta gente, no entanto, tudo isso precisa ser apagado. Mentem.
Compulsivamente. Mentem com voz melíflua, sem ruborizar e mover um
músculo do rosto. São exímios na arte da falsidade.
A
recente condenação do procurador Deltan Dallagnol pelo Tribunal de
Contas da União (TCU) é, sem dúvida, um dos capítulos mais dramáticos na
sequência de desmandos que vem transformando a Justiça brasileira na
instituição de menor credibilidade no País. Protegem-se os corruptos,
sobretudo o líder inconteste da criminalidade. Descaradamente. Usam-se
artifícios formais para deformar a Justiça. Mas os que combatem os
delitos são perseguidos e punidos. Trata-se de um recado claro: o crime
compensa.
Fui
abordado, lá se vão alguns anos, por um estudante. Inteligente, leitor
voraz e, como todo jovem, com o coração transbordando idealismo. No
entanto, seus olhos tinham perdido um pouco do brilho e emitiam um sinal
de desalento. “Deixei de ler jornais”, disse, de supetão. “Não adianta o
trabalho da imprensa”, prosseguiu meu interlocutor. “A impunidade
venceu.” Confesso, caro leitor, que meu otimismo natural estremeceu. Não
se tratava do comentário de alguém situado no lusco-fusco da
existência. Não. Era o diagnóstico de quem estava nascendo para a vida.
Por uns momentos, talvez excessivamente longos, uma pesada cortina
toldou o meu espírito. A corrupção, pensei, está sequestrando a
esperança da juventude.
Dei uma respirada e acabei reagindo, pois acredito na imensa capacidade humana de reconstruir a vida e olhar para a frente.
O
Brasil, não obstante os reiterados esforços de implosão da verdade (a
mentira e o cinismo tomaram conta da vida pública), ainda conserva
importantes reservas éticas. Escrevo, por isso, aos homens de bem, aos
jovens que têm brilho nos olhos. Eles existem. E são mais numerosos do
que podem imaginar os voluptuosos detentores do poder.
Escrevo
aos políticos, ainda poucos, que acreditam que a razão de ser do seu
mandato é um genuíno serviço à sociedade. Escrevo aos magistrados, aos
membros do Ministério Público, aos policiais, aos militares, aos
servidores do Estado. Escrevo aos educadores, aos estudantes, às
instituições representativas dos diversos setores da sociedade. Escrevo
aos meus colegas da imprensa, depositários da esperança de uma sociedade
traída por suas autoridades. Escrevo aos pais de família. Escrevo,
enfim, ao meu jovem interlocutor. Quero justificar as razões do meu
otimismo. Faço-o agora. O Brasil está, de fato, passando por uma
profunda crise ética. A corrupção, infelizmente, sempre existirá. Ela é a
confirmação cotidiana da existência do pecado original. Mas uma coisa é
a miséria do homem; outra, totalmente diferente, é a indústria da
corrupção. Esta, sem dúvida, deve ser combatida com força plena. Por
você, por cada um de nós. Com o vigor transformador do voto.
O
mal não tem a última palavra. A corrupção algema a sociedade. A
corrupção desvia para o ralo da bandidagem recursos que podiam ser
investidos em saúde, educação, segurança pública, etc. A corrupção
empurra crianças famintas para a catástrofe da prostituição infantil. O
Brasil não vai mais contemporizar. Cabe a nós, jornalistas e formadores
de opinião, assumirmos o papel de memória da cidadania. Não podemos
deixar cair a peteca. Revisitaremos todos os meandros daquele que já foi
definido como o maior escândalo de corrupção da História do mundo.
Trata-se de um dever ético inescapável.
Mas,
para além das trincheiras internas, a guerra contra a corrupção
brasileira ganhou dimensão internacional. Como salientou a promotora
Luciana Asper, em entrevista exclusiva que me concedeu, a irrefutável
gravidade dos impactos da corrupção para o desenvolvimento
socioeconômico do Brasil, a certeza de que as estratégias de
enfrentamento da corrupção estão globalizadas, a notoriedade
internacional do Brasil como país de elevada percepção da corrupção, a
aplicação prática dos tratados e cooperações internacionais para o
combate à corrupção e a imposição da cultura da integridade pública
mudam, por completo, o paradigma de fazer negócios no Brasil e com o
Brasil. Resistir a essa verdade e não se adaptar é o mesmo que receber o
diagnóstico de uma doença grave e acreditar que ela vai desaparecer sem
o devido tratamento.
A
corrupção como modelo de negócio está com seus dias contados. A
governança do roubo e da delinquência será um suicídio político e
empresarial. Nós, jornalistas e formadores de opinião, temos o dever
profissional e ético de jogar muita luz nas trevas da corrupção.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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