Comunidade Bom Despacho, Passo de Camaragibe – AL | Foto: Wellington Ferreira / Autorretrato Nordeste |
O que dizem os dados sobre territórios quilombolas:
- De acordo com estatísticas experimentais do IBGE, as comunidades quilombolas possuem 1,1 milhão de residentes distribuídos em 6023 comunidades em todo o território nacional, com exceção do Acre e de Roraima, que não possuem territórios quilombolas identificados.
- A maior parte das áreas quilombolas ficam na região Nordeste, 53%. Em seguida vem a região Sudeste, com 23% das comunidades; Norte com 15%; Sul com 5% e Centro-oeste com 4%.
- Apenas 8% das comunidades quilombolas foram oficialmente delimitadas. Sendo que o IBGE classifica
54% das demais comunidades como localidades identificadas por registros
administrativos e 38% apenas como agrupamentos quilombolas.
- Há ainda um deserto de dados oficiais a respeito de comunidades quilombolas.
Não é possível identificar, por exemplo, a renda média dos moradores
dessas comunidades ou as condições de trabalho e saneamento. A
expectativa é que os resultados do próximo Censo tragam mais dados
estatísticos sobre essas comunidades tradicionais.
Comunidades quilombolas por região do BrasilMaior parte das comunidades fica no Nordeste; uma parcela muito pequena dos territórios quilombolas foi oficialmente delimitada | |
Censo escolar revela negligência do poder público com comunidades quilombolas
Um
dos poucos registros oficiais capazes de trazer um panorama sobre a
realidade das comunidades quilombolas do Brasil é o Censo da Educação
Básica. Produzida pelo Instituto Nacional de
Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), a base de dados contém tanto a
informação de quais escolas estão localizadas em territórios
quilombolas, quanto a condição dessas escolas.
- De
acordo com o Censo Escolar 2022, das 6.023 comunidades quilombolas
identificadas no país, apenas 2.561 possuem alguma escola em seu
território. Ou seja, 58% das comunidades não dispõem de escolas.
- Entre as escolas presentes nos territórios, 37% não possuem água encanada e 9,7% não contam com água de qualquer tipo, potável ou não.
- 8% das escolas em áreas quilombolas sequer contam com esgotamento sanitário de qualquer tipo. Nem esgotamento público, fossas sépticas ou qualquer outro sistema.
- Entre as 2.561 escolas, 136 delas (5%) não possuem sequer um banheiro, de qualquer tipo, seja masculino, feminino, externo ou interno.
- Em 38 escolas localizadas em territórios quilombolas não há sequer acesso a energia elétrica.
Municípios do Brasil onde existem comunidades quilombolasQuanto mais forte a cor, mais comunidades existem no município | |
Situação é preocupante em todo o país
Célia
Cristina é diretora da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos
(CONAQ) e liderança do Quilombo Acre Santa Maria, em Cururupu, no
Maranhão. Segundo Célia, apesar de avanços simbólicos, como a criação de
secretarias estaduais que dialogam com as populações quilombolas, a
situação segue precarizada em quase todas as comunidades do estado. | | Célia Cristina, liderança quilombola maranhense – Foto: acervo pessoal | “As
nossas políticas públicas são municipalizadas. Então, às vezes existe
um gestor com um olhar mais voltado para a população, mas em muitos
lugares os gestores municipais deixam as comunidades em péssimas
condições”, afirma.
A
líder comunitária diz ainda que as condições de educação, saúde e
infraestrutura variam de uma comunidade para outra, mas que na maior
parte delas o único atendimento de saúde existente vem de um agente
comunitário de saúde, que não consegue lidar com as necessidades da
população. Já em relação à educação, a liderança afirma que mesmo nas
comunidades que possuem escolas, muitas foram fechadas sob a alegação de
baixo número de alunos. As estradas precisam ser mantidas pela própria
comunidade e que, na época de chuvas, muitas localidades ficam
completamente isoladas.
De
acordo com a liderança, apesar de na maior parte das comunidades haver
algum tipo de fornecimento de água e energia elétrica, ela não é
adequada para a produção rural ou para o manejo de maquinário agrícola,
que poderia permitir o desenvolvimento dos territórios.
Em Alagoas, líder comunitária enxerga melhorias nas comunidades quilombolas
Raimunda
Caetano é liderança da comunidade quilombola Jussarinha, localizada na
cidade de Santana do Mundaú, Alagoas. De acordo com ela, nas últimas
décadas diversas melhorias foram implementadas na sua comunidade, mas
ainda há muito a ser feito.
A
líder comunitária explica que médicos visitam frequentemente a
comunidade e que, com uma escola construída há 30 anos e da qual foi a
primeira professora, afirma que o acesso à educação não é um problema
para eles. | | Casa no Quilombo Jussarinha | Foto: Thiago Aquino / Agência Tatu | “Hoje
temos uma escola, temos energia e temos transporte escolar para os
meninos maiores, que estudam na cidade. As estradas não são muito boas,
mas estamos esperando que a prefeitura coloque pissarra. Também estamos
correndo atrás de algum programa do governo que faça casas de alvenaria.
Mas estamos vivendo”, relata.
Apesar
do local dispor de água encanada, que segundo Raimunda não é de boa
qualidade, a maior parte das residências são feitas de taipa e não podem
receber o fornecimento público.
Na Bahia os problemas se repetem nas comunidades quilombolas
José
Ramos é um líder do Quilombo Porto do Campo, no município de Camamu, na
Bahia. De acordo com ele, a maior parte das estradas de acesso às
comunidades da Bahia são de terra e ele estima que menos de 10% delas
tenham algum tipo de pavimentação.
Além
disso, Ramos afirma que a maior parte das comunidades do estado não
dispõem de água tratada e que cerca de 20% das moradias em áreas
quilombolas não possuem energia elétrica.
Muitas
comunidades possuem escolas, em que algumas foram entregues em
programas do Ministério da Educação e outras construídas pelas
prefeituras. Segundo ele, o problema é que diversas prefeituras têm
fechado as escolas das comunidades.
No
entanto, o líder quilombola enxerga avanços nas políticas para educação
quilombola da Bahia. “Já temos um fórum de educação escolar quilombola,
onde há alguns avanços, como a criação das diretrizes estaduais para a
educação quilombola e em alguns municípios já existem também diretrizes
Municipais”, conclui. | | Comunidade Cajá dos Negros, Batalha – AL | Foto: Ana Alice Maria Dantas / Autorretrato Nordeste |
Último governo paralisou políticas públicas, diz especialista
De
acordo com Danilo Marques, professor da Universidade Federal de Alagoas
(Ufal) e coordenador geral do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e
Indígenas (Neabi), apesar da precariedade de direitos nas comunidades
quilombolas serem uma questão crônica, a gestão passada do
Governo Federal representou um retrocesso em termos de titulação de
terras e implementação de políticas públicas para essas populações.
Para
o professor é fundamental que seja realizado um mapeamento das
comunidades quilombolas existentes no país, para que haja dados e
informações que permitam mais agilidade na titulação das terras,
permitindo que possam chegar investimentos a comunidades.
“Até
hoje algumas comunidades não possuem nem uma associação de moradores
quilombolas e isso vai impactar por exemplo na possibilidade de chegada
de emendas parlamentares, chegada de políticas públicas que precisam
estar ligadas às associações, que às vezes não tem nem CNPJ”, finaliza. |
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