Novo show do comediante na Netflix é um prodígio de humanidade que as patrulhas foram incapazes de entender. João Pereira Coutinho via FSP:
Vou dizer isso de forma bastante pausada e simples: se você assistiu ao último show de Dave Chappelle na Netflix
e não sentiu o seu coração estremecer, acredite, você está morto. E não
vale a pena legar o órgão para a ciência: ninguém quer esse pedaço
inútil de músculo, sisudez e raiva.
Venho
em paz. Não estou aqui para polemizar —as polêmicas me cansam,
acredite, e eu já não tenho idade nem paciência para perder energia com
elas. Mas, com todo o respeito pelos editores desta Folha, vou ter que
repetir: se você não sentiu o seu coração estremecer com Dave Chappelle,
eu prometo que vou rezar por você.
Eu sei, eu sei: o show está sendo criticado por sua suposta “transfobia”,
ou seja, pelo fato de Chappelle contar piadas controversas sobre o
mundo trans. Vamos começar pelo bê-á-bá, sem perder muito tempo com ele:
Chappelle faz piadas sobre tudo —trans, brancos, negros, mulheres,
extraterrestres. Até faria sobre portugueses, se fosse brasileiro (ou
vice-versa, já agora; você não sabia?).
Mas desde quando contar piadas constitui uma manifestação de ódio?
Faço a pergunta com humildade, atenção. É que ninguém me avisou dessa
mudança: o momento em que contar piadas é, por definição, exibir o
desprezo rancoroso, a vontade de humilhar, o ódio assassino que sentimos
por algo ou alguém. Claro que existem piadas que não têm piada; são
meras manifestações de boçalidade.
Mas se não conseguimos distinguir esses grunhidos cavernícolas do humor propriamente dito, será que o problema está nas piadas ou em nossas cabeças ignaras?
Ri
com Dave Chappelle. Rio sempre. Mas, dessa vez, os últimos 15 minutos
do show são um prodígio de humanidade que, sem surpresas, as patrulhas
foram incapazes de entender —e que só raros críticos foram capazes de
elogiar.
Atenção
ao spoiler: tudo acontece quando Chappelle partilha a história da sua
amiga Daphne Dorman, comediante e mulher trans. Parece que Daphne ria
alto das piadas que ele contava sobre “o pessoal do alfabeto”, ou seja, a
comunidade
Um
dia, quando Chapelle estava em San Francisco, convidou Daphne para
fazer o número de abertura do seu show. Daphne aceitou, atuou e depois,
sentada na primeira fila, assistiu ao artista principal. Assistiu,
vírgula: começou a falar com ele e Chappelle aceitou essa espécie de
debate improvisado (e hilariante) sobre os temas trans.
No
final, o humorista deu-se por vencido e declarou, para riso do público:
“Eu não entendo o que você está falando.” Daphne não riu e respondeu:
“Eu não preciso que você entenda. Só preciso que você acredite que estou
a ter uma experiência humana.”
Dizer
que o momento foi epifânico para Chappelle seria um eufemismo. Ele
percebeu que não era a tribo que falava, com suas ameaças habituais
sempre que alguém não obedece ao dogma oficial.
Daphne
era um ser humano em toda a sua complexidade —exatamente como os seres
humanos são. E exatamente como Dave Chappelle é. “I believe in you,
bitch”, respondeu ele. “It takes one to know one.” [“Eu acredito em
você. É preciso um para conhecer um.”]
O
destino da amiga foi trágico —acabaria por se suicidar tempos mais
tarde, não sem antes ter defendido Chappelle das acusações de
“transfobia” que a tribo lançou contra o humorista por causa do show Sticks and Stones, também na Netflix.
Dave
Chappelle, perante a notícia, decidiu criar um fundo para ajudar a
filha pequena de Daphne. Um dia, quem sabe, talvez possa ter uma
conversa com ela para lhe dizer a mais bela e brilhante piada da noite:
“Minha querida, eu conheci o teu pai”. Pausa, risos da plateia. “Ele era
uma mulher encantadora.”
Nas guerras culturais em curso,
existem tribos para todos os gostos. E todas elas cometem o mesmo
abuso: a abolição do indivíduo pela imposição de uma identidade
coletiva, uniforme, essencialista, que determina o que somos, o que
dizemos, o que pensamos, como agimos e contra quem.
Falar
de esquerda ou direita, nesse contexto, é absurdo. Ambas são reflexo
uma da outra. Dave Chappelle quebra esses espelhos e relembra que só
existe verdadeira empatia quando existe a partilha de uma verdadeira
individualidade.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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