O Primeiro-ministro Pedro Suárez fez uma promessa arriscada, que divide a esquerda e não tem resultados comprovados. Vilma Gryzinski:
Entusiasmado
pelo ambiente de conciliação interna no último congresso do Partido
Socialista Operário Espanhol, o primeiro-ministro Pedro Suárez assumiu
dois compromissos: acabar com a flexibilização das leis trabalhistas
aprovada durante o governo anterior, de centro-direita, e “abolir a
prostituição que escraviza mulheres em nosso país”.
São
duas promessas complicadas. Sobre a primeira, a esquerda tem consenso –
mas a economia reclama o direito de divergir. O desemprego na Espanha,
um dos mais altos da Europa – quase 16% -, não vai melhorar com o novo
engessamento.
A
respeito da segunda, não existe consenso. Correntes de esquerda e
tendências feministas discordam sobre a melhor maneira de enfrentar uma
questão eterna: reconhecer que as mulheres têm autonomia sobre seus
corpos, inclusive para vendê-los da forma que quiserem, mesmo quando se
expõem a uma profissão de risco, ou criminalizar todo o entorno da
atividade, de clientes a intermediários, na tentativa de sufocar o
comércio do sexo (esta linha é chamada de neo-abolicionista).
Em
outras palavras: prostitutas são agentes dotadas de livre arbítrio ou
vítimas de circunstâncias que as tornam objeto de exploração,
principalmente quando envolvem jovens e menores traficadas entre países?
Como as duas coisas podem acontecer, inclusive simultaneamente, não existem respostas fáceis.
A
França, por exemplo, optou pelo abolicionismo. Em 2016, a Assembleia
Nacional aprovou uma lei que estabelece uma multa de 1 500 euros para
clientes que comprem serviços sexuais (3 750 em caso de reincidência). O
projeto também abriu caminho para que prostitutas estrangeiras – cerca
de 85% das profissionais do sexo – regularizassem sua situação
migratória se aderissem a um programa para deixar a atividade, com
retreinamento profissional.
Os
resultados não foram muito animadores. As quebradas do Bois de
Boulogne, o parque que ferve de mulheres e homens se prostituindo,
continuam movimentadas e muitas profissionais reclamam que os clientes
passaram a exigir preços mais baixos e práticas mais arriscadas para
“compensar” o risco de serem multados.
As
multas – cerca de cinco mil – foram poucas, considerando-se o
movimento. E apenas 564 pessoas se candidataram ao programa de
recapacitação profissional. Só 161 completaram o processo, segundo
levantamento da Deutsche Welle.
A
legislação francesa seguiu o chamado modelo sueco, o primeiro a
criminalizar a compra mas não a venda de serviços sexuais. Na Suécia, a
prostituição de rua diminuiu radicalmente – o que não quer dizer que o
comércio sexual, transposto para ambientes fechados e alimentado pelas
comunicações digitais, tenha sido alterado.
Legislar
sobre comportamento obviamente é uma tarefa gigantesca, quando não
inútil. Na Espanha onde o primeiro-ministro pretende abolir a
prostituição, 39% dos homens em algum momento usaram serviços sexuais
pagos.
A
proporção só é maior na Alemanha, onde a atividade não tem restrições,
tal como na Dinamarca e na Holanda, onde o famoso, ou infame, bairro da
luz vermelha de Amsterdã, com prostitutas expostas em vitrines, será
fechado e transferido para um “centro erótico”, num sinal dos tempos.
Os
principais partidos políticos concordaram que não querem o tipo de
turismo que as mulheres nas vitrines atraem (também não querem os que
visitam a cidade para fumar maconha legalmente nas cafés do fumacê, mas
isso ainda está em discussão).
Coibir
ou liberar a prostituição são princípios que envolvem padrões morais,
arranjos sociais e o natural impulso humano a, simultaneamente, admitir
as fraquezas da carne e querer proteger os mais fracos, principalmente
quando envolvem tantas adolescentes e até crianças exploradas
sexualmente de forma vil e brutal.
A
forma pela qual países economicamente mais fracos se transformam em
fornecedores de mão de obra para o comércio sexual também expõe
desigualdades gritantes. A Espanha é o principal mercado para
prostitutas brasileiras, que já chegam devendo até sete mil euros aos
aliciadores – o equivalente a dois anos de trabalho, com até vinte
“programas” por dia.
Se
a realidade econômica do Brasil produzi prostitutas e a da Espanha,
entre outros países europeus, fornece clientes para seus serviços, o
governo tem como interferir eficientemente nesse mercado?
A respostas continuam em aberto.
A
prostituição é ilegal tanto na Tailândia quanto nos Estados Unidos, com
exceção de alguns municípios do estado de Nevada. A Tailândia é o
paraíso do sexo pago. Também não é nada impossível comprar “companhia”
nos Estados Unidos. Onde a exploração de vulneráveis é maior?
“A
prostituição não é a livre expressão da liberdade sexual de uma
mulher”, diz uma associação, a APRAMP, que combate a exploração sexual
na Espanha. “Está quase sempre ligada a violência, marginalização,
dificuldades econômicas e uma cultural patriarcal sexista”.
Se existem leis que podem combater isso, a Espanha será um campo de teste.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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