Estudo de Eli Vieira (1), Camila Mano (2), Daniel Reynaldo (3), David Agape (4) e Vanessa Bigaran (4), publicado pelo LIHS:
1 Biólogo geneticista, presidente da Liga Humanista, criador de conteúdo. Participou da checagem, criou texto e gráficos.
2 Doutora em bioquímica. Participou da checagem.
3 Administrador do blog Quem a Homotransfobia Não Matou Hoje? Participou da checagem.
4 Fundadores da Agência Dossiê. Participaram da checagem.
Oficialmente,
não há números sobre os mortos por homofobia no Brasil. Há quase quatro
décadas, o Grupo Gay da Bahia (GGB), fundado pelo historiador Luiz Mott
em 1980, desenvolve um levantamento de dados independente que tem sido
tratado como fonte de um número oficial pela imprensa e órgãos nacionais
e internacionais como a Anistia Internacional e a ONU.
A estatística anual de mortes violentas por homofobia do GGB já
apareceu em publicações como O Globo, Estadão, Folha de São Paulo,
Gazeta do Povo, Reuters, BBC, NPR, The New York Times (que, com base
nela, disse
que o Brasil passa por uma epidemia de violência antigay), entre
outras. Publicações esportivas, com base na estatística do GGB, alertaram
aos atletas LGBT para terem cuidado extra ao vir ao Brasil para as
Olimpíadas. Diversos trabalhos acadêmicos citam as estatísticas do GGB e
há títulos acadêmicos inteiros conquistados com base nelas. Os números
do GGB são baseados em clipagem de notícias.
Ao
menos duas vezes a estatística anual do grupo foi usada durante a
campanha eleitoral de forma proeminente no ano passado: quando a
candidata Vera Lúcia (PSTU) mencionou em seu plano de governo registrado
que “[e]ste país é também o que mais mata LGBTs no mundo. Uma vítima a
cada 19 horas”, e quando a âncora Renata Vasconcellos, numa pergunta ao
candidato Bolsonaro no Jornal Nacional, repetiu que “a cada 19 horas, um
gay, lésbica ou trans é assassinado ou se suicida por causa de
homofobia no Brasil”. O número, porém, inclui heterossexuais mortos
supostamente por motivação homofóbica, mas este fato foi esquecido não
só por Vasconcellos, mas também por sua fonte, o GGB, que também diz
que, na mesma frequência de horas, “um LGBT morre de forma violenta por
motivação homotransfóbica no Brasil”. A divulgação da estatística
poderia ser melhorada se os autores do trabalho e a imprensa a
descrevessem como resultante de um relatório de mortes violentas
motivadas por homofobia, sem especificar a sexualidade das vítimas. Mas o
esquecimento dos heterossexuais mortos por homofobia incluídos nos
dados não é o único problema com a divulgação da estatística, como
veremos adiante.
A checagem revela graves problemas de rigor
Para descobrir até onde vai a imprecisão, nós refizemos todo o trabalho do GGB referente ao ano de 2016,
checando todos os dados colhidos pelo grupo. A replicação dos
resultados do GGB é dificultada por ele próprio, que não publica
planilhas em formato acessível com links para as matérias jornalísticas
que usou como fontes. Buscando online pelos nomes das vítimas e locais
de falecimento, checamos todas as 347 vítimas relatadas e recuperamos as
fontes não divulgadas no relatório.
Descobrimos
que o banco de dados de vítimas da homofobia em 2016 no Brasil do GGB
sofre de graves problemas de rigor. Apesar do relatório se referir ao
Brasil, estão inclusos seis casos de mortes no exterior, como o de
Kimberly, transexual morta por um excesso de 94 facadas,
em Florença, pelo namorado Mirco Alessi. Há alguns casos duplicados,
como o da travesti T. E. Geremias de Moraes, misteriosamente esfaqueada
em Valinhos (que reclassificamos como inconclusivo quanto à motivação
homofóbica). Em alguns casos descobrimos uma leitura incompleta do
relato jornalístico: por exemplo, um casal heterossexual supostamente
viciado em drogas foi assassinado por um traficante no Ceará.
Aparentemente, o caso foi incluído pelo GGB somente porque a manchete omitiu o sexo da mulher, dando a entender erroneamente que poderia ser um casal gay.
É correto somar suicídios a homicídios nesse caso?
Dos
347 casos de 2016, excluímos 30 da análise por serem mortes no
exterior, casos duplicados ou casos em que foi impossível recuperar as
fontes. Dos que sobraram, 20 casos são suicídios. É discutível a decisão
de somar suicídios a assassinatos. A estatística do GGB consiste em
mortes violentas motivadas por homofobia, e, legalmente, morte violenta
incluiria acidentes, suicídios e homicídios. Obviamente, acidentes não
deveriam ser incluídos, pois não existe motivação alguma por trás deles,
muito menos a homofóbica. Isso não impediu o GGB de incluir mortes
acidentais a seus números. Quanto ao suicídio, é evidente que, nem
sempre que um LGBT se mata, é possível afirmar que a causa primária de
sua decisão é a homofobia. Suicidas geralmente sofrem de depressão, que é
em si a causa imediata de sua morte. Certamente é um tema importante
descobrir com que frequência a homofobia causa depressão e suicídio, mas
é quase sempre impossível separar suicídios motivados por homofobia de
suicídios de LGBT motivados por outros problemas, ao menos que haja
alguma evidência como uma carta de despedida em que o suicida o diz
explicitamente. Além disso, há uma questão moral. Um suicida fere a si
mesmo, desistindo da própria vida, que lhe pertence. Um homicida fere a
outrem, roubando-lhe a vida. Não parece que as duas decisões sejam
comparáveis ao ponto de ser justo somá-las num número só. Uma
egodistonia sexual que leva à depressão e ao suicídio é bem diferente de
uma homofobia assassina aplicada sobre outrem. Não prendemos
sobreviventes de tentativas de suicídio, mas prendemos homicidas. Pelos
motivos acima, o mais importante dos quais é a dificuldade de
estabelecer a real importância da homofobia na rede de motivos possíveis
para o suicídio de uma pessoa LGBT, excluiremos os suicídios da
análise, e pensamos que sua repetida inclusão é uma possível tentativa
de inflar a estatística das vítimas da homofobia.
Além
dos suicídios, excluímos também casos cuja inclusão no estudo original é
inexplicável: seis mortes acidentais, o afogamento do diretor de teatro
Glauber Teixeira, um caso de agressão em que a vítima sequer morreu (a
estatística é sobre mortes), um caso de morto em incêndio sem suspeita
de crime, doze mortes suspeitas em que não é possível afirmar que houve
crime, uma overdose, entre outros. Limitando os casos somente a
homicídios confirmados (dolosos, culposos e latrocínios), sobram 258
casos dos 347 originalmente relatados. A seguir, mostraremos quantos
desses realmente foram motivados por homofobia.

Como
dito, uma interpretação equivocada desses dados é que refletem a
quantidade de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais assassinados por
serem LGBT no Brasil. Algumas das vítimas da homofobia são
heterossexuais. Em março de 2016, Jorge Luiz Lima Farias, 20 anos, foi preso
em Cratéus, Ceará, em um bar. Ele tinha as roupas sujas de sangue no
momento da prisão. “Não me arrependo”, disse o assassino à polícia. Suas
vítimas foram Alexandre Martins da Silva, 28, morto por ter divulgado
um vídeo em que Jorge Luiz beijava um homem, e José Wilson Messias
Coelho, 50, morto por ter tentado salvar a vida de Alexandre. Não há
relato nenhum de que alguma das vítimas era gay. Neste caso, confirmamos
as duas mortes como motivadas por homofobia, afinal, é preconceituoso
esse temor tão forte da divulgação de sua própria atração por pessoas do
mesmo sexo que dá em assassinato, ainda que o autor do crime seja um
possível gay e as vítimas sejam provavelmente héteros.
Nossos métodos
Recuperamos
os seguintes dados sobre as vítimas: crime ou situação que causou a sua
morte, o motivo aparente da morte, os links contendo as notícias-fonte,
número de processo judicial onde disponível, e, finalmente, se é
possível concluir que a motivação principal ou mais provável da morte
foi a homofobia, onde classificamos os casos como “sim”, “não” ou
“inconclusivos”. Trazemos a replicabilidade para onde ela havia sido
dificultada: qualquer pessoa pode checar se concorda conosco na nossa planilha.
Na nossa checagem dos dados, não fomos muito conservadores. Por exemplo, a travesti Lauandersa foi encontrada morta a facadas,
sem sinais de latrocínio (roubo de seus bens), em ponto de
prostituição, seminua, ao lado de preservativos usados, em Caucaia,
Ceará. Na ausência de elementos que ponham em dúvida uma motivação
homofóbica, e diante de um caso que poderia ser explicado como resultado
da motivação homofóbica de um cliente com arrependimento pós-coito,
decidimos por confirmar o caso em concordância com o GGB, ainda que uma
análise mais conservadora pedisse a reclassificação do caso como
inconclusivo.
Alguns casos são mais fáceis de se classificar como motivados por homofobia. O professor Jair Figueiredo, 38, foi morto em sua própria casa com 40 facadas,
em João Pessoa, após tentar seduzir o assassino, um jovem de 16 anos,
que alegou à polícia que a vítima havia pego uma faca após a recusa, o
que parece uma óbvia mentira para alegar legítima defesa.
Outros
casos incluídos são flagrantemente não motivados por homofobia. Fabiana
Braz Conceição e Daniella Silva Gomes, um casal, foram mortas a tiros numa moto porque eram traficantes e disputavam com outros traficantes o controle do tráfico em sua região em Goiânia.
Resultados da checagem são surpreendentes
Dos
casos colhidos na imprensa pelo GGB, foi possível concordar somente que
31 casos foram mortes motivadas pela homofobia no Brasil. Isso
significa que o relatório errou em 88% dos casos de homicídio (227 de
258), e que somente 9% dos dados totais (31 de 347) para o ano de 2016
servem para fazer as conclusões que o grupo e a imprensa que o cita
fazem.

Figura 2. Resultado da checagem dos dados: a real cara do que foi apresentado como morte por homofobia.
Fantasmagórica e irrefutável “estrutura”
Por
que casos como suicídios sem motivos esclarecidos, acidentes e até um
casal de lésbicas traficantes mortas pela concorrência do crime foram
inclusos? Aqui entra uma decisão teórica das pessoas por trás do GGB:
por acreditarem que a homofobia no Brasil é “estrutural”, termo que cria
um inimigo fantasmagórico impossível de refutar, toda morte de LGBT no
Brasil é presumida como resultado da homofobia. O que o GGB cita para
justificar a crença de que a homofobia no Brasil é “estrutural” (seja lá
o que isso for)? Os próprios dados, como diz na conclusão de um relatório oficial
do Ministério dos Direitos Humanos publicado em 2018: “De acordo com os
dados apresentados é possível concluir que a LGBTfobia no Brasil é
estrutural”. Repetindo: quando o GGB é pressionado sobre os casos
duvidosos, ele cita a “homofobia estrutural” como justificação para
incluir toda e qualquer morte de LGBT nos dados. E quando tem de
comunicar ao governo a razão de a homofobia ser “estrutural”, o GGB cita
os mesmos dados. Parece circular. Curiosamente, o ministério se isenta
de responsabilidade pelo conteúdo do relatório oficial, que traz também
números do Disque 100 de vítimas de discriminação, ofensa verbal e
agressão.

Figura
3. A afirmação acima foi feita pelo GGB a seus críticos. A afirmação
abaixo foi feita pelo GGB num relatório escrito conjuntamente com o
Ministério de Direitos Humanos (2018).
Vale
ressaltar que essa metodologia de incluir toda e qualquer morte de LGBT
entre vítimas de homofobia apelando circularmente para uma “homofobia
estrutural” não é seguida, por exemplo, pelo FBI,
que define crime de ódio como “contra uma pessoa ou sua propriedade
motivado em todo ou em parte pelos vieses do infrator contra uma raça,
religião, deficiência, orientação sexual, etnicidade, gênero ou
identidade de gênero”. Foi essa orientação que seguimos, e é bem
simples: houve motivação homofóbica se há indícios de motivação
homofóbica. Presumir a motivação homofóbica sem indícios para tanto tem
vários nomes: viés da confirmação e dogmatismo entre eles.
Duas
agências de checagem jornalística questionaram uma interpretação dos
dados do GGB: que eles mostrariam que o Brasil seria o país que mais
mata LGBT por serem LGBT no mundo. Essa afirmação recorrente do GGB é
incompreensível, dado que não apresentam números do exterior para
comparação (embora incluam dados do exterior nos números nacionais), nem
esclarecem como é possível afirmar que o Brasil seria pior que países
que punem a homossexualidade com a pena de morte, que evidentemente
evitam calcular e divulgar esses números para não chamar a atenção da
opinião pública internacional. O Truco, da Agência Pública, classificou
essa afirmação como “impossível provar” e a Agência Lupa como “insustentável”.
Como mostramos aqui, não é só a comparação do Brasil com o exterior que
é “insustentável” e “impossível provar” sobre os dados do GGB: o mesmo
pode ser afirmado sobre seus dados a respeito do Brasil.
Conclusão
As
pessoas LGBT devem ser livres para buscar a própria felicidade e saúde,
das mesmas formas que as pessoas heterossexuais e sem problemas como a
disforia de gênero fazem. Liberdades individuais e isonomia perante a
lei são, na nossa opinião, a chave da questão. Isolamento, política
identitária, sensacionalismo e uso das minorias sexuais como bucha de
canhão política são elementos presentes no atual debate público que têm
grande potencial de piorar a vida dessas pessoas neste momento de
transformação das atitudes e opiniões públicas a seu respeito. A verdade
é amiga da causa das liberdades individuais e da democracia. Qualquer
número de LGBT mortos por serem LGBT no Brasil é preocupante e exemplo
de que a cultura ainda não se transformou o suficiente na direção do
respeito ao indivíduo diferente. No entanto, tentativas de inflar esses
números, honestas ou não, dificilmente ajudam a qualquer causa justa.
Ao
divulgar versões preliminares desta checagem, nós recebemos ataques
virulentos dos participantes do GGB nas redes sociais. Membros da nossa
equipe que são LGBT foram classificados como “egodistônicos” e
“traidores”. Parece que a acusação de homofobia é o instrumento favorito
dos autores dos números inadequados para qualquer crítico de seus
métodos. É de se estranhar, pois há acadêmicos envolvidos na coleta e
divulgação desses dados, e todo acadêmico deveria achar normal o
processo de crítica e revisão por pares. Essa reação, também, na nossa
opinião, revela outra faceta das razões pelas quais há uma taxa de erro
de 88% nesses números.
As
estatísticas criminais no Brasil têm muito a melhorar. Não só não temos
uma fonte unificada dos números da violência (dependemos bastante de
levantamentos vindos da saúde), a taxa de resolução
de crimes como o homicídio é em torno de 8%. Antes de cobrar que o
Estado preste atenção preferencial a este ou aquele grupo alvo de crimes
agravados por motivações torpes como a homofobia, parece prioritário
cobrar que o Estado cumpra sua função prometida de prevenir e investigar
os crimes e punir os infratores com mais eficiência. Também parece ser
necessária uma revisão legal de agravantes por motivações torpes, para
que todos os grupos minoritários se sintam contemplados, sem que isso
seja usado para inventar novas limitações à liberdade de expressão, que
já não é plena no país. A maior aliada da justiça é a verdade. E o maior
aliado da verdade é o rigor. Faltam rigor e verdade nos números mais
divulgados sobre violência contra LGBT no Brasil.
Planilha com dados completos (original e checagem)
Link externo para a planilha aqui. Atualização: neste novo link
é possível encontrar a planilha como um web-aplicativo em que é
possível clicar em cada caso (linha da tabela) para abrir
automaticamente abaixo da tabela as fontes referentes ao caso.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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