Guerras trazem o que há de pior e melhor no ser humano. Em tempos de
polarização política, o inimigo não escolhe posição ideológica para
atacar. Saúdo quem busca a trégua. Texto de Ana Paulo Henkel para a Oeste:
No épico Tora! Tora! Tora!, filme de guerra de 1970 que dramatiza o
ataque japonês a Pearl Harbor na Segunda Guerra Mundial, o almirante
Isoroku Yamamoto, que comandava a Marinha Imperial Japonesa, diz logo
depois do ataque à base americana: “Temo que tudo o que fizemos foi
acordar um gigante adormecido e enchê-lo com uma terrível determinação”.
Para alguns historiadores, Yamamoto não teria dito exatamente essa
frase, mas escrito algo parecido, como “Posso correr solto por seis
meses… depois disso, não tenho nenhuma expectativa de sucesso”. Ele
estaria resumindo um sentimento geral entre os almirantes japoneses de
que não demoraria muito para que o orgulho ferido do então gigante
adormecido, aliado à enorme capacidade industrial dos Estados Unidos,
garantisse a destruição do Império Japonês.
E eles estavam certos. Depois de anos de estagnação durante a Grande
Depressão, a América havia despertado novamente para o esplendor
industrial, e a recuperação bélica não era apenas uma questão de poder e
posicionamento geopolítico, mas também de orgulho. Em 1940, havia menos
de 500 mil militares em serviço nos EUA. Na época do histórico ataque a
Pearl Harbor, esse número havia aumentado para quase 2,2 milhões. Em
1945, mais de 12 milhões de americanos estavam nas Forças Armadas. Foi
uma mobilização surpreendente para uma nação com menos de 140 milhões de
pessoas na época.
Durante a guerra, as mulheres saíram de suas posições de mãe e esposa no lar e se juntaram às Forças Armadas.
Aproximadamente 350 mil mulheres americanas trabalharam como
enfermeiras, dirigiram caminhões, consertaram aviões, realizaram
trabalhos de escritório e também ingressaram no campo da química e da
engenharia para desenvolver armamentos. Enquanto os homens iam para o
fronte da batalha, a Segunda Guerra Mundial levou muitas mulheres a
aceitar emprego em fábricas de defesa em todo o país, especialmente na
indústria aeronáutica — área até então predominantemente masculina. Até o
final de 1944, o produto interno bruto americano excedeu a produção
econômica de todos os principais envolvidos na Segunda Guerra Mundial
juntos: União Soviética, Reino Unido, Japão, Itália e Alemanha.
A guerra trouxe sofrimento, mas também quebrou paradigmas, fortaleceu os fundamentais laços de amor e orgulho ao país.
A América se uniu de uma maneira até então nunca vista. Para muitos
americanos, a escala da crise do coronavírus faz lembrar o sentimento de
luta e sobrevivência em guerras, ou como foi mais recentemente no 11 de
Setembro ou na crise financeira de 2008. Esses eventos remodelaram a
sociedade de maneira duradoura, desde a vida cotidiana de levar as
crianças à escola até o nível de segurança e vigilância ao qual nos
habituamos. Não estamos em guerra, pelo menos não em uma guerra bélica.
Mas lutamos contra um inimigo global que nos mantém em casa acuados e
que já começa a redefinir nossas relações e perspectivas com governos,
com o mundo exterior e até uns com os outros.
Apesar de o inimigo atual ser um inimigo comum a todas as nações, o
perfil de uma América que costumamos ver em filmes de guerra ressurge.
Ainda durante o combate, fala-se na reestruturação da economia dos
Estados Unidos e de mais uma ressurreição do espírito de seus
habitantes, abatido pelos milhares de vidas já ceifadas pelo vírus e
também pelos quase 17 milhões de desempregados em apenas três semanas,
número que só foi atingido depois de dez meses na crise de 2008.
Não podemos atirar em um vírus e aqueles na linha de frente contra a
covid-19 não são soldados comuns. Eles são médicos, enfermeiros,
prestadores de cuidados especiais a idosos, policiais. E há aqueles que,
expostos ao mal invisível em campos minados, são diariamente
confrontados com tarefas insondáveis. Tarefas agravadas pelo risco de
contaminação e morte — missões para as quais esses soldados nunca se
alistaram.
Os livros de história nos mostram a bravura de combatentes que lutaram no passado para podermos viver hoje em tempos de paz.
Talvez, quando tudo isso for superado e o medo tenha se dissipado,
reconheçamos com mais afinco o sacrifício desses bravos soldados que,
sem hesitar, nos brindam silenciosamente com o verdadeiro patriotismo e
amor, pondo a própria vida em risco para salvar os feridos. Talvez,
quando acordarmos desse pesadelo e voltarmos à vida normal, mesmo com as
marcas das feridas dessa guerra, começaremos a saudar nossos médicos e
enfermeiros dizendo: “Obrigado por seu serviço”, como fazemos com
veteranos militares por sua bravura e patriotismo.
Torço para que, quando essa guerra silenciosa acabar, estátuas sejam
erguidas em homenagem a esses soldados, essa nova classe de heróis que
sacrificam sua saúde e sua vida pelas nossas. Talvez também comecemos a
finalmente valorizar o verdadeiro sentido do patriotismo, palavra tão
demonizada em tempos de polarização política, como ele é, no verdadeiro
sentido de doação e altruísmo sem categorizar as pessoas. Talvez, depois
desse pesadelo, com as diretrizes do nosso cotidiano redefinidas,
possamos perceber que cultivar a vida, o amor e o progresso
primeiramente dentro de seu país, de sua cidade e de sua comunidade,
valorizando as raízes, as tradições e a família, pode ser uma boa ideia.
Guerras trazem reflexões profundas e talvez, apenas talvez, a percepção
de que não é preciso muito para ter o essencial seja um dos benefícios
dessa bagunça para arrumar uma sociedade que se acostumou a enaltecer os
excessos, adorar os supérfluos e a discutir o número de gêneros na raça
humana.
Em 1984, na celebração de 40 anos do desembarque das tropas
americanas nas praias da Normandia na Segunda Guerra Mundial, o
presidente americano Ronald Reagan fez um discurso na presença de alguns
dos Rangers americanos que sobreviveram àquela batalha. Reagan disse:
“Vocês eram jovens naquele dia em que tomaram esses penhascos; alguns de
vocês eram apenas garotos com os maiores prazeres da vida diante de
vocês e mesmo assim arriscaram tudo aqui. Por quê? Por que fizeram isso?
(…) Nós olhamos para vocês e de algum jeito sabemos a resposta. Fé e
crença. Lealdade e amor.”
Agora imagine por um momento que estamos em guerra real com um
inimigo consciente, inteligente, cuja única razão de viver é machucar ou
matar o maior número possível de nós. Esse é o coronavírus. Guerras
trazem o que há de pior e melhor no ser humano. Em tempos de polarização
política e muitas discussões vazias e acaloradas no curso de uma
pandemia, em que o inimigo não escolhe a posição ideológica para atacar,
saúdo quem busca o refúgio da trégua na atual tempestade das diferenças
políticas. A todos os profissionais da saúde que se encontram no fronte
dessa verdadeira guerra, protegendo-nos do ataque vil e invisível do
inimigo, nosso muito obrigado. Sua fé e sua crença, sua lealdade e seu
amor jamais serão esquecidos.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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