Não há crise de verdade com inflação baixa e dólar estável, escreve J. R. Guzzo na edição impressa da revista Exame:
Não é fácil, no meio de toda a prodigiosa gritaria que anda solta por
aí, identificar o que de fato está acontecendo com a administração
pública deste país. A inclinação mais ou menos natural, diante dos
arranques de cachorro atropelado que o Palácio do Planalto produz em
série, dia sim dia não, é dizer: “Deus me livre”. Que raio esse homem, e
os filhos desse homem, e os ministros-problema do seu governo, estão
querendo? Por que não se calam, como o rei da Espanha sugeriu ao ditador
da Venezuela anos atrás ─ coisa que poderia ter lhe ajudado tanto, se
ele tivesse ouvido um pouco? Porque não começam a trabalhar como gente
adulta (e remunerada para isso), em vez de passar o dia mexendo com
tuítes, redes sociais e o resto dessa vidinha que não soma um milésimo
de centavo ao PIB? Não estão disponíveis até o momento as respostas para
nenhuma dessas perguntas. Também não colabora em nada para um melhor
entendimento dos fatos a coleção de reações frequentemente histéricas
com que o mundo político, os “formadores de opinião” e o resto do Brasil
“importante” recebem cada suspiro do governo. Resultado: a montagem de
um “climão” que funciona maravilhosamente bem para a proliferação
epidêmica de bobagens que não ajudam em nada, e ao mesmo tempo
atrapalham em tudo.
A única atitude sensata a tomar, ao que parece, é ficar frio ─ e
ficar frio por um bom tempo. Não adianta esperar que a fumaça evapore
sozinha, porque ela não vai evaporar, não a curto prazo, e não enquanto
continuarem fervendo a água; é possível, ou provável, que daqui a quatro
anos a confusão permaneça muito parecida com a de hoje. A saída mais
promissora, dentro das que podem ser acionadas na prática, é manter a
calma e prestar atenção no monitor que informa os “sinais vitais”, como
dizem os médicos. É aí que o cidadão pode saber onde realmente está. O
primeiro deles é a inflação. Não há crise de verdade com inflação baixa ─
e a inflação brasileira está baixíssima, vem caindo desde o ano
passado, e tudo indica que vai continuar em queda. O preço da gasolina e
do álcool, por exemplo: está abaixo do que estava no primeiro dia do
ano e do novo governo. (Não é pouca coisa; imagine por um momento qual
seria a sensação se o preço estivesse subindo.) É claro que inflação
perto de zero não faz o desempregado arrumar emprego, mas é certo que
torna possível a solução dos problemas; sem isso não adianta nem tentar.
Outra realidade que a fumaceira não pode esconder é a cotação do dólar,
que permanece mais ou menos estável. Confusão, mesmo, é dólar em
disparada ─ não adianta nada ignorar essa realidade ou dizer que ela não
tem importância, pois não existe economia em colapso com câmbio parado.
A tela também está mostrando que apenas no mês de janeiro perto de
400.000 inscritos deixaram de receber os benefícios do Bolsa Família,
por conta, basicamente, de desistências. Milhões de trabalhadores
pararam de pagar o imposto sindical ao longo do primeiro ano de vigência
da nova lei; a arrecadação dos sindicatos caiu em 90%, o que significa
que mais de 3 bilhões de reais ficaram no bolso de quem trabalha, em vez
de irem para o cofre dos dirigentes sindicais. Há economias com o corte
de funcionários criados nos governos do PT, a suspensão, anulação ou
cancelamento de contratos e outras despesas do governo. Não dá para
saber ainda quanto dinheiro deixará de ser gasto, mas a sinalização dos
primeiros dois meses de 2019 mostra que pode ser muito ─ sobretudo
quando se leva em conta a relutância natural das empreiteiras de obras,
fornecedores e outros ladrões, em propor negócios escusos aos 100 ou
mais generais e outros oficiais das Forças Armadas presentes nos
escalões superiores da nova administração. Leilões para o setor de
energia elétrica já estão marcados para este ano, ao contrário da
prática de não marcar nada, vigente nos últimos dezesseis anos. Há uma
reforma da Previdência que será aprovada. Há, enfim, muitos outros
sinais no painel. É preciso olhar para eles.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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