Retornando ao blog, nem publico artigo sobre os assustadores
acontecimentos de hoje no STF - cujo presidente praticamente vetou as
críticas ao órgão, sob ameaça de processo, o que me faz pensar que
talvez já vivamos sob uma ditadura judicial -, recomeçando os trabalhos
com o texto de José Manuel Fernandes, publisher do Observador, sobre o Portugal que, afinal, fundou o Brasil:
Depois de uma semana em que meio país pareceu encantado com as
mobilizações ao torno dos direitos das mulheres, se convocaram
manifestações e “greves feministas”, se lançaram flores ao Tejo fazendo
juras de irmos viver um novo dia, dois reality shows na noite de domingo
foram um verdadeiro balde água fria. As activistas indignaram-se –
indignam-se sempre – contra a alegada exploração dos estereótipos de
género e pediram a intervenção dos censores – pedem sempre.
Erraram o alvo: deviam antes envergonhar-se pelas mães, filhos e
filhas que se prestaram a fazer aquelas figuras. Pelas audiências
conseguidas. E interrogar-se sobre até que ponto o que as televisões nos
mostraram é o retrato do país que somos – aquele que somos mesmo mas
não queremos admitir.
Nestas alturas lembro-me sempre de uma frase apócrifa atribuída a
Rodrigo da Fonseca – “nasci entre brutos, vivi entre brutos, morri entre
brutos” – e apetece-me pensar, mais de 160 anos passados sobre o
desaparecimento do estadista oitocentista, que Portugal continua
teimosamente a ser esse “país de brutos”.
Depois dou um passo atrás e reparo que aqueles reality shows, como
todos os reality shows, funcionam como ilusões de óptica. Eles não vivem
da realidade, mas da distorção da realidade. E que programas como estes
há por todo o lado, mesmo nos países mais desenvolvidos, mesmo naqueles
onde é mais elevado o grau de literacia e que estão bem acima de nós em
indicadores como o “índice de desenvolvimento humano” ou o número de
Prémios Nobel. Não é só por cá que se explora a pornografia da “alma” humana com basto sucesso.
Por isso não encontremos desculpas: o nosso problema não é “nascer
entre brutos, viver entre brutos, morrer entre brutos”, pois brutos há
por todo o lado. O nosso problema mais depressa é querermos culpar os
brutos, fixando neles o olhar como o tolo fixa o olhar no dedo que
aponta que a Lua e nunca é capaz de olhar para essa mesma Lua.
A nossa arte é parecida: é nunca querer olhar para os problemas. E
mesmo quando é impossível ignorá-los, é nunca tratar de os resolver,
antes de os empurrar com a barriga. Para isso o importante é
desconversar.
Querem exemplos? O melhor de todos os exemplos é a falta de
crescimento económico, porque sem esse crescimento nenhum outro problema
do país terá solução sustentável. E falo de um crescimento que se veja,
não de um crescimento que só é maior “do que a média da zona euro”,
como anda por aí a repetir o primeiro-ministro, porque isso só acontece
como consequência de as maiores economias da zona euro (Alemanha,
França, Itália) estarem em dificuldades.
A realidade, a dura realidade, é outra. É esta: em 2016, primeiro ano
da geringonça, o PIB per capita de Portugal era o 14º entre os 19
países da zona euro. Em 2017 descemos para 15º (fomos ultrapassados
pelos Eslováquia) e em 2018 descemos para 16º (fomos ultrapassados pela
Estónia). Atrás de nós só temos agora a Lituânia, a Grécia e a Letónia.
Como podemos falar de termos o “Ronaldo da Finanças” quando descemos
sempre na classificação?
Há algum ranking em que Portugal esteja em primeiro lugar? Há: somos o
país da Zona Euro onde, de acordo com a OCDE, é necessário perder mais
horas para cumprir com as suas obrigações fiscais. Nada menos do que uma
média de 243 horas por ano. Na Estónia, um dos países que nos
ultrapassou, só são necessárias 50 horas. É um indicador que diz imenso
sobre a ineficiência do Estado, sendo que a administração tributária
ainda é dos menos ineficientes. Nem imagino o resultado que daria uma
auditoria à Segurança Social…
Outro indicador: de acordo com dados do Banco Mundial, Portugal
aparece em 57º lugar no ranking dos países ordenados pela facilidade em
abrir um negócio, atrás da Ucrânia e à frente de Tonga. Digamos que não é
melhor das companhias, mas o lugar só surpreende quem nunca esbarrou
nas complicações que são o desporto favorito da nossa administração
pública.
Agora pergunto: se um crescimento anémico é um dos nossos principais
problemas, se sem mais crescimento nada mais conseguiremos do que
repetir o triste espectáculo dos cães que perseguem a própria cauda, ora
carregando nas cativações, ora no desinvestimento, ora na satisfação
das corporações, sempre à espera de tropeçar na próxima crise, porque
andamos sempre a saltar de debate em debate sem nunca chegarmos a
nenhuma conclusão?
(Deixem-me aqui fazer justiça a um novo partido, a Iniciativa
Liberal, que tem procurado colocar este tema na agenda, usando
nomeadamente no seu Facebook os números que citei atrás.)
Um bom exemplo de como é fácil distrairmo-nos do essencial é vermos
como foi tratada a substituição de Maria Manuel Leitão Marques por
Mariana Vieira da Silva na recente remodelação ministerial. Essa
substituição da responsável pela pasta da Modernização Administrativa
tinha dois problemas – um que foi amplamente debatido e o outro que foi
olimpicamente ignorado.
O primeiro relacionava-se com as relações de parentesco na nova
ministra com outro ministro, por acaso, ou nem por isso, seu pai. Num
executivo onde à mesa do Conselho de Ministros já se sentavam marido e
mulher, passaram a sentar-se pai e filha. Um mínimo de decoro teria
impedido que isso sucedesse, mas o círculo cada vez mais pequenino da
governação foi-se fechando sobre ele mesmo. O país, indiferente,
encolheu os ombros – o nepotismo não choca os hábitos nacionais.
O segundo problema, aquele que foi ignorado, relaciona-se com as
competências de Mariana Vieira da Silva para substituir a ministra para
quem, segundo o primeiro-ministro, “não havia impossíveis”.
Tanto não havia que até lhe ofereceu a célebre “vaca voadora” no dia da
apresentação de mais uma geração do Simplex. Seria interessante saber o
que aconteceu às 255 medidas então anunciadas, mas ninguém duvidava das
credenciais da anterior ministra. Já sobre aquilo que Mariana Vieira da
Silva, basicamente uma operacional política que passou quase toda a sua
vida profissional em gabinetes governamentais e de quem não se conhece
qualquer contacto com o mundo real das empresas e da economia, pode
fazer para desatar alguns daqueles nós que colocam Portugal no fim dos
rankings no que respeita à eficiência da Administração Pública, nada se
conhece.
Contudo, nos dias que se seguiram a esta nomeação, ouvi ou li vários
jornalistas e comentadores, daqueles que se movimentam muito bem nos
meandros da política, a elogiar as competências de Mariana Vieira da
Silva. Sabendo o que sei de como as coisas se passam só encontro uma
explicação: são pessoas do mesmo mundo, de certa forma cúmplices (sem
sentido pejorativo) no funcionamento da máquina político-mediática.
Vivem na mesma bolha.
É assim que passamos da “vaca voadora”, onde ainda se podia
vislumbrar alguma ambição de fazer alguma coisa para tornar o Estado
mais eficiente, a vida dos cidadãos mais simples e, por via disso, dar
uma ajuda ao crescimento da economia, à nossa pequena aldeia que é só
uma parte de Lisboa, algumas ruas, alguns corredores, alguns bares,
alguns restaurantes e, claro, os palcos de todas as televisões, onde
quase todos se cruzam e onde o que realmente fascina são os truques e
malabarismos da pequena política.
Nesta “aldeia” onde Mariana Vieira da Silva se deve sentir em casa
(ela até está em família), quem se lembra que o principal problema do
país é o crescimento e que um dos principais entraves a esse crescimento
é o peso e ineficiência da máquina do Estado?
É por estarmos presos neste micromundo fechado e onde todos se
protegem mutuamente – partidos que não se renovam, governantes que se
repetem, famílias que se instalam, universidades dominadas pela
endogamia, incumbentes imunes à competição e tudo o que é típico de um
país habituado a que uma mão lava a outra – que aqui mesmo os mais
talentosos definham e os melhores emigram.
Culpar “os brutos” será sempre fácil, mas inútil e, no limite, triste senão cobarde.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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