“É incorreto em todas as circunstâncias acreditar com base em provas
insuficientes; e onde duvidar e investigar é uma presunção, acreditar é
aí pior que uma presunção.” A propósito, segue, via Estado da Arte,
texto do professor português Desidério Murcho, que integra o corpo
docene da Universidade Federal de Ouro Preto e edita o site Crítica na Rede, do qual este blogueiro foi colaborador:
Em Janeiro de 1877, W. K. Clifford publicou na Contemporary Review o
artigo “A Ética da Crença”, que acabou por dar um novo nome e um perfil
renovado a uma ideia antiga. Pela força das ideias e clareza de
expressão, este artigo exerceu uma influência que ainda se faz sentir,
mesmo entre quem rejeita a sua posição. O artigo termina com as
seguintes palavras:
“É incorrecto em todas as circunstâncias acreditar com base em provas
insuficientes; e onde duvidar e investigar é uma presunção, acreditar é
aí pior que uma presunção.”
O que Clifford defende é à primeira muitíssimo razoável: quando as
provas são insuficientes, é incorrecto acreditar seja no que for. E se
acaso essa atitude for presunçosa, acreditar quando as provas são
insuficientes, em vez de duvidar e investigar, é pior que ser
presunçoso: é epistemicamente irresponsável. Clifford não usa esta
expressão, mas é isso que está aqui em questão. Do seu ponto de vista, é
epistemicamente irresponsável, e um erro moral, acreditar seja no que
for sem provas suficientes. Caso as provas sejam insuficientes, é
epistemicamente irresponsável, e um erro moral, acreditar porque isso
nos faz felizes, ou porque gostaríamos que fosse verdadeiro, ou porque
temos medo de levar a sério a hipótese de isso não ser verdadeiro. Terá
Clifford razão? Para responder responsavelmente a esta pergunta é
importante esclarecer os conceitos de crença, conhecimento e provas.
O termo “crença” é aqui usado no seu sentido mais abrangente, o que
inclui convicções muito fortes, crenças religiosas e opiniões
elaboradas, mas também crenças simples, crenças matemáticas e
científicas. Uma crença é uma relação peculiar de representação entre o
agente que a tem e um aspecto relevante da realidade. Quando alguém
acredita que Ligeti era polaco representa mal um aspecto da realidade;
quando acredita que ele compôs Lux Aeterna, representa bem um aspecto da
realidade. Note-se que, neste sentido, a crença tem sempre por objecto
um aspecto da realidade susceptível de representação discursiva;
“crença-que”, poder-se-ia dizer, pois usa-se o “que” conjuntivo para
introduzir a oração-objecto. Isto difere da crença no sentido de
“confiança”, que muitas vezes não tem uma oração-objecto: diz-se que
Glass acredita em Ligeti, mas agora é no sentido de confiar nele, nas
suas capacidades ou na sua integridade. Nestes casos, depois de
“acredita” ou das suas variantes não se encontra o “que” conjuntivo. De
ora em diante, “crença” será usado apenas no sentido declarativo.
Passando agora ao conceito de conhecimento, é preciso começar por
distinguir três tipos e só um deles será especialmente importante aqui.
Quando alguém visita ou vive em Paris tem um conhecimento por contacto
daquela cidade. Isto difere do conhecimento prático ou de procedimentos,
como saber andar de bicicleta. Há uma relação óbvia entre estes dois
tipos de conhecimento, pois saber andar de bicicleta implica o
conhecimento por contacto de pelo menos uma bicicleta, mas o
conhecimento por contacto de bicicletas não implica saber andar de
bicicleta. Ao conhecimento prático é apropriado chamar “saber-como”.
Estes dois tipos de conhecimento diferem do conhecimento declarativo, a
que é comum chamar “proposicional”; Russell chamava-lhe “conhecimento de
verdades”. O conhecimento declarativo é um “saber-que”, como o caso
anterior da crença-que: envolve um aspecto qualquer da realidade
susceptível de representação discursiva.
Como a crença, o conhecimento é uma relação entre um agente cognitivo
e um aspecto da realidade. Porém, uma diferença crucial entre a mera
crença e o conhecimento é que o segundo é factivo mas a primeira não. Ou
seja, 3 infere-se validamente de 1, mas não de 2:
1) Glass sabe que a Terra se move.
2) Glass acredita que a Terra se move.
3) A Terra move-se.
Quando as pessoas acreditam que sabem algo, isso é perfeitamente
compatível com a falsidade desse algo. Precisamente porque o
conhecimento é factivo mas a crença não, há uma diferença capital entre
acreditar que se sabe e saber realmente. Dado que é falso que Glass
tenha nascido em Lisboa, ninguém sabe que ele nasceu naquela cidade, por
mais que acredite nisso. A confusão a evitar decisivamente é entre
saber realmente algo e acreditar que se sabe. Por mais que se acredite
que se sabe que a Terra está parada, e por mais que a crença seja muito
forte, não se sabe disso a menos que a Terra esteja parada. Além disso,
não há maneiras puramente internas (como a força da convicção ou a
certeza) de estabelecer sem erro se realmente se sabe ou se apenas
parece ilusoriamente que se sabe; a factividade do conhecimento quer
dizer que a palavra final sobre se realmente se sabe é da própria
realidade, e não dos agentes, nem dos seus processos de prova. Claro que
quando se tem provas muitíssimo boas, a probabilidade de se saber
realmente o que se provou é muitíssimo elevada; mas por mais que se
tenha boas provas de que a Terra está parada, não se sabe que está se
não o estiver, ainda que se acredite nisso.
O conhecimento não é apenas uma crença verdadeira. Para haver
conhecimento é preciso haver algum processo adequado de prova; o mero
acerto na verdade não conta como conhecimento, ainda que popularmente se
entenda o conceito desse modo. Ora, o conceito de prova vai muito além
das provas simples e definitivas; a maior parte delas não são
definitivas nem simples. As provas de que nunca houve vida na Lua são
muito fortes, mas não garantem que nunca houve; talvez os cientistas se
tenham enganado, ou talvez surjam novas provas que mostrem que já houve
vida na Lua. Daí que por vezes se fale de razões, justificações,
indícios ou sinais, em vez de provas. (O termo original de Clifford, que
traduzi, por “provas” é evidence.) Mas ideia é sempre a mesma: há algo
que conta a favor da conclusão, ainda que não a prove definitivamente.
As provas não são factivas (a única excepção são as provas lógicas e matemáticas), porque 2 não se infere validamente de 1:
1) Há provas de que não há vida na Lua.
2) Não há vida na Lua.
Sem provas não há conhecimento, mas o que dizer da crença? A posição
de Clifford é que também neste caso se exige provas, sob pena de se cair
na irresponsabilidade epistémica. Um agente tem uma crença
responsavelmente quando tem boas provas, mesmo que tenha tido azar
epistémico e afinal a crença seja falsa; e tem-na irresponsavelmente
quando não tem boas provas, ainda que por sorte seja verdadeira. Esta
diferença torna-se clara imaginando dois investigadores judiciais. O
primeiro é extremamente cuidadoso e competente, e pauta-se pela
tentativa honesta de descobrir a verdade, procurando diligentemente as
melhores provas; acontece que teve azar e todas as provas apontam na
direcção do Nuno, que ele conclui assim erradamente ter sido o autor do
crime. O investigador teve azar epistémico porque as provas apontam na
direcção errada. Em contraste, o segundo investigador é incompetente,
desonesto e preconceituoso, e tem uma atitude de descaso epistémico;
deixa-se sempre guiar cegamente pelas suas inclinações. Por sorte,
porém, acusa a pessoa que realmente cometeu o crime. Este segundo
investigador é epistemicamente irresponsável, mesmo que de vez em quando
acerte na verdade; o primeiro é epistemicamente responsável, mesmo que
por vezes tenha azar epistémico.
As provas não nascem todas iguais: umas são mais robustas que outras.
Isto é crucial para compreender apropriadamente o conceito de prova
porque se começa logo mal quando se imagina, por um lado, que as provas
são factivas e, por outro, que são sempre definitivas e simples. Pelo
contrário, há quase sempre uma pluralidade de provas, umas mais fortes
que outras, e é preciso comparar a sua força relativa para ter uma
crença epistemicamente responsável. Esta pluralidade de provas
manifesta-se de duas maneiras. Primeiro, é ao longo do tempo que se vai
descobrindo melhores provas, ou descobrindo erros nas provas anteriores.
Segundo, nenhuma fonte de prova é como uma ilha, isolada de outras
fontes de prova: a observação pelo telescópio corrige os erros da
observação a olho nu; as experiências laboratoriais controladas corrigem
a experiência quotidiana assistemática. Assim, o trabalho epistémico
responsável raramente é uma questão de encontrar provas definitivas;
trata-se quase sempre de encontrar as melhores provas que se conseguir
num dado contexto, comparando cuidadosamente a sua força relativa, e de
manter em aberto a hipótese de refutação das entretanto encontradas. Em
muitos contextos, uma pessoa confia na sua memória, ainda que não
completamente; mas em casos muitíssimo importantes a memória não basta
porque se sabe que há memórias falsas. E o mesmo acontece no caso da
observação: em muitos casos vê-se para crer, e isso basta, mas uma das
lições mais importantes das ciências dos últimos séculos é que a visão é
enganadora em muitos casos e é preciso usar instrumentos de medida para
corrigir os erros perceptivos.
Não há outra maneira de formar crenças responsavelmente excepto
procurando as fontes de prova mais robustas, contrastando-as entre si e
procurando activamente os erros. Em termos de observação directa e de
percepção sensorial simples, não há qualquer razão para pensar que a
Terra se move; é o Sol e a Lua que parecem orbitar a Terra. Porém,
observações e cálculos matemáticos mais cuidadosos, constituem provas
muitíssimo mais fortes de que isso é uma ilusão perceptiva. Do mesmo
modo, quando há um resultado surpreendente da matemática ou da lógica,
há sempre a alternativa de mudar as regras de inferência ou os axiomas,
em vez de mudar a crença de que esse resultado é falso. O que conta,
porém, não é apenas haver provas para o lado que se quer, ou em harmonia
com as crenças que já se tinha; o que conta é comparar a força relativa
das diferentes provas, para ver quais são mais robustas e onde é mais
provável haver erros.
As crenças têm graus de força, assim como o conhecimento; uma das
condições necessárias da responsabilidade epistémica é alinhar a força
da crença com a força das provas. Quem tem crenças extraordinariamente
fortes apesar de dispor apenas de provas muitíssimo fracas é
epistemicamente irresponsável. Ser preconceituoso ou dogmático inclui
ter crenças muito fortes e recusar-se a abandoná-las ou enfraquecê-las,
apesar de se ter confrontado com a fraqueza das provas a seu favor, ou
com a força das contraprovas.
Finalmente, note-se que há sempre três casos diferentes com respeito à
crença e ao conhecimento. Ilustrando com o caso da crença de que
existem extraterrestres, os três casos são os seguintes:
1) Acreditar que existem extraterrestres;
2) Acreditar que não que existem extraterrestres;
3) Não acreditar que existem extraterrestres.
2 implica 3, mas não vice-versa. É importante ter isto em mente
porque se imagina por vezes que ou se acredita que sim ou que não, nos
mais diversos assuntos, quando na verdade em muitos casos a única
atitude epistemicamente responsável é terceira alternativa: a suspensão
da crença.
As crenças não se provam nem refutam uma a uma no vazio, mas antes
contra o pano de fundo de várias outras crenças prévias. Se muitas
dessas crenças prévias forem falsas, torna-se muito mais difícil formar
crenças verdadeiras. Veja-se o género de crenças que tinha um europeu de
1600 com uma boa formação escolar:
“Acredita que um corpo vítima de homicídio sangra na presença do
homicida. Acredita que há um unguento que cura feridas se for esfregado
no punhal que as causou. Acredita que a forma, cor e textura de uma
planta pode ser uma pista do seu uso medicinal porque Deus fez a
natureza de modo a ser interpretada pela humanidade. Acredita que é
possível transformar o metal vil em ouro, ainda que duvide que alguém
saiba como isso se faz. Acredita que a natureza tem horror ao vácuo.
Acredita que o arco-íris é um sinal de Deus e que os cometas anunciam o
mal. Acredita que os sonhos prevêem o futuro, se soubermos
interpretá-los. Acredita, é claro, que a Terra está imóvel e que o Sol e
as estrelas andam à sua volta a cada vinte e quatro horas — ouviu
mencionar Copérnico, mas não imagina que ele pretendesse que o seu
modelo heliocêntrico do cosmos fosse de encarar literalmente. Acredita
na astrologia, mas como não sabe o momento exacto do seu nascimento,
pensa que mesmo o melhor dos astrólogos não seria capaz de lhe dizer
grande coisa que ele seja incapaz de encontrar nos livros.” (Wootton,
The Invention of Science, pp. 29–30)
Isto significa que uma pessoa tem um azar epistémico extremo caso
esteja num contexto em que um número esmagador de crenças muitíssimo
comuns são falsas. A dificuldade é muito mais grave do que possa parecer
devido à divisão do trabalho epistémico. Para se compreender o que está
aqui em questão considere-se a reacção histórica da Royal Society de
Londres, fundada em 1660, ao género de crendices que Wootton relata.
Contra a disseminação de preconceitos, mitos e meias-verdades, os
fundadores desta instituição escolheram como mote a expressão latina
“Nullius in verba”, que significa algo como “Nada pela palavra”. O que
está em questão é a rejeição do pseudoconhecimento baseado em crenças
sem provas adequadas, mesmo que sejam crenças de grandes autoridades. A
ideia é que seja qual for a crença que alguém tem, e por mais autoridade
que detenha, ou se consegue provar adequadamente a sua verdade ou
plausibilidade, ou não é de aceitar. Ora, as únicas coisas que provam
crenças adequadamente são provas adequadas; a simples autoridade de
alguém, ou a tradição, ou a força institucional ou política, o prestígio
ou seja o que for, é irrelevante.
Nada há de errado, pelo contrário, com esta atitude; é, na verdade, a
base de todo o progresso cognitivo impressionante que a humanidade tem
conseguido. Porém, este projecto é insusceptível de ser levado a cabo
excepto cooperativamente, entre várias pessoas, porque cada pessoa
sozinha só consegue saber uma ínfima parte das coisas. Não há pessoa
alguma que tenha o conhecimento suficiente para conseguir fazer, do
princípio ao fim, uma coisa tão simples como um par de sapatos, para não
falar de um computador ou de um avião; diferentes pessoas conhecem
diferentes partes e quando tudo isso se junta consegue-se coisas
impressionantes. O conhecimento humano depende crucialmente do
conhecimento dos outros seres humanos, e isto significa que não há uma
boa solução individual, pessoal, para a desgraça epistémica de ter um
conjunto vasto de crenças falsas, preconceituosas, supersticiosas,
fantasiosas ou por qualquer outra razão profundamente inadequadas. Para
quase toda a gente, a fonte principal de prova não é a observação
rigorosa nem o raciocínio cuidadoso, mas simplesmente a experiência
diária assistemática e as crenças comuns das pessoas que a rodeiam.
Ninguém consegue sozinho examinar as provas e contraprovas de todas as
suas crenças; mas se mais e mais instituições forem como a Royal Society
e se pautarem pela exigência rigorosa de prova, cabendo a diferentes
grupos de especialistas provar ou refutar diferentes tipos de crenças,
isso gera um ambiente epistemicamente melhor — cria as condições para
que cada ser humano individual consiga ser epistemicamente responsável.
Este é o aspecto social da crença. Os seres humanos são gregários não
apenas com respeito ao relacionamento emocional com os seus
semelhantes; são-no também com respeito às crenças que lhes parece
razoável adoptar e com respeito às crenças de fundo, contra as quais as
provas e as novas crenças são avaliadas. O exemplo de Wootton é a um
tempo esclarecedor, mas também ilusório, caso se pense que a desgraça
epistémica de ter um número imenso de crenças de fundo falsas mas
socialmente bem aceites e comuns é coisa do passado; pelo contrário,
está bem presente nos dias de hoje. Chama-se-lhe por vezes “fake news”,
mas a única novidade aqui é ter-lhe sido dado um nome chique para um
fenómeno antigo: boatos sem provas, prontamente difundidos por várias
pessoas que querem parecer informadas e conhecedoras, ou que querem
ganhar dinheiro ou poder.
Esclarecidos que foram estes conceitos elementares da filosofia, é
tempo de voltar a Clifford, que começa o seu o seu famoso texto com um
exemplo elucidativo não menos famoso:
“Um armador preparava-se para enviar para o mar um navio com
emigrantes. Sabia que o navio estava velho e que tinha defeitos de
construção; que conhecera já muitos mares e climas, e que teve de ser
reparado muito mais de uma vez. Alguém lhe sugeriu que talvez o navio
não estivesse em condições de navegar. Estas dúvidas pesavam-lhe na
consciência e deixavam-no infeliz; pensou que talvez devesse mandar
inspeccionar e renovar completamente o navio, embora isto ficasse
provavelmente bastante caro. Antes de o navio zarpar, contudo, o armador
conseguiu deixar para trás estes pensamentos melancólicos. Disse para
consigo que o navio enfrentara com êxito tantas viagens e resistira a
tantas tempestades que não havia razão para supor que não regressaria
ileso também desta viagem. O armador confiaria na providência, que
seguramente não deixaria de proteger todas aquelas infelizes famílias
que abandonavam a pátria em busca de uma vida melhor noutras paragens.
Silenciaria todas as dúvidas mesquinhas acerca da honestidade dos
construtores e dos empreiteiros. Assim, alcançou uma certeza sincera e
confortável de que o seu navio era completamente seguro e que estava em
condições de navegar; viu-o partir com despreocupação e desejos
caridosos de que os exilados fossem bem-sucedidos no novo e estranho lar
que os esperava; e recebeu o dinheiro do seguro quando o navio se
afundou em pleno mar sem deixar rasto.”
Clifford antecipou um tema que finalmente começa a merecer atenção
por parte de filósofos e psicólogos cognitivos: a racionalização.
Racionalizar é inventar desculpas disfarçadas de razões. O armador não
tinha realmente razões mais fortes a favor do bom estado do navio do que
contra; mas fixou a sua atenção nas razões que lhe interessavam e
ignorou as outras. Hoje há um corpo vasto de dados científicos que
parecem mostrar que racionalizar é uma das funções principais do
cérebro, a menos que os seres humanos façam um esforço consciente para
procurar a verdade cuidadosamente e para examinar de perto as melhores
provas disponíveis.
Clifford defende três ideias muito razoáveis com respeito à crença do
armador. A primeira é hoje consensual: é epistemicamente irresponsável
adoptar processos inadequados de prova, mesmo que por sorte se acerte na
verdade. A responsabilidade epistémica não diz respeito ao resultado
feliz ou infeliz, mas antes ao processo seguido, fidedigno ou não. Um
processo fidedigno de formação de crenças permite por vezes a formação
de crenças falsas e é a isso que se chama “azar epistémico”; mas só tem
azar epistémico quem é epistemicamente responsável. A imagem de espelho
disto é a pessoa epistemicamente irresponsável — como o armador do
exemplo de Clifford — que continua a sê-lo mesmo que tenha sorte e
acerte por acaso na verdade.
A segunda ideia de Clifford é que a irresponsabilidade epistémica é
imoral, em parte porque os seres humanos dependem das crenças uns dos
outros, devido à divisão do trabalho epistémico. Esta ideia é talvez
mais plausível hoje porque quanto mais complexo e sofisticado é o
conhecimento da humanidade, mais cada ser humano depende do conhecimento
dos outros. No século XIX, um matemático como Hilbert dominava a sua
área disciplinar na sua totalidade, mas hoje isso já não é possível:
diferentes matemáticos dominam diferentes áreas da matemática. Por outro
lado, a responsabilidade epistémica tem um papel de tal modo central em
tudo, que não parece haver maneira de ter uma vida ética sem
responsabilidade epistémica. Por mais boa vontade que uma pessoa tenha,
se formar crenças irresponsavelmente, isso afectará as suas crenças
morais e consequentemente a sua acção. Daí que seja plausível defender,
como Clifford, que ser epistemicamente irresponsável não é apenas um
vício epistémico; é também um vício moral.
A terceira ideia de Clifford é que as crenças têm impacto causal na
acção; nunca são meras crenças privadas, digamos, que não tenham
qualquer impacto real no mundo. Esta ideia relaciona-se de perto com a
divisão do trabalho cognitivo, mas acrescenta-lhe uma nova dimensão. Eis
as palavras do próprio Clifford:
“Em circunstância alguma a crença de um homem é um assunto privado,
que apenas diga respeito ao próprio. As nossas vidas guiam-se por essa
concepção geral da ordem das coisas que a sociedade criou para fins
sociais. As nossas palavras, as nossas expressões, as nossas formas,
processos e modos de pensamento, são propriedade comum, modificados e
aperfeiçoados de época para época; um legado que cada geração sucessiva
herda como um depósito precioso e uma doação sagrada a transmitir à
geração seguinte, não sem modificações, mas alargado e depurado, com
algumas marcas distintivas do seu engenho específico. Nisto, para o bem e
para o mal, se entretece cada crença de cada homem que partilha a
língua dos seus semelhantes. É um terrível privilégio e uma terrível
responsabilidade ajudar a criar o mundo no qual irão viver as gerações
do futuro.”
Como se vê, Clifford tem uma noção forte do aspecto social das
crenças, e isto é surpreendente pois só mais recentemente na filosofia
se veio a reconhecer os aspectos sociais do trabalho epistemológico.
Perdurou até demasiado tarde uma perspectiva cartesiana, privada, das
crenças, segundo a qual cada pessoa forma as suas crenças seguindo os
seus processos pessoais de prova e reflexão. Esta perspectiva é falsa
porque a maior parte das crenças humanas baseiam-se nos outros seres
humanos. Consequentemente, a responsabilidade epistémica não é apenas
uma responsabilidade privada. É um aspecto capital da responsabilidade
social; a ausência da primeira implica, se não a ausência da segunda,
pelo menos o seu brutal enfraquecimento.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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