BLOG ORLANDO TAMBOSI
Faço parte de uma geração que cresceu chegando cedo ao colégio para participar do hasteamento da bandeira brasileira e cantar o Hino Nacional. Ana Paula Henkel para a Oeste:
A
Copa do Mundo está chegando ao fim e, curiosamente, uma das imagens
mais marcantes deste torneio talvez não tenha ocorrido dentro de campo.
Enquanto os olhares do mundo acompanhavam gols, decisões e grandes
atuações, havia algo acontecendo nas arquibancadas que dizia muito mais
sobre os Estados Unidos do que sobre o próprio futebol.
Em
diferentes partidas, dezenas de milhares de americanos começaram a
cantar, quase espontaneamente, Take Me Home, Country Roads, de John
Denver. A música, lançada em 1971, não faz qualquer referência à
independência americana, às instituições do país ou aos seus símbolos
nacionais. Fala apenas de estradas, montanhas e da saudade de voltar
para casa. Ainda assim, bastaram alguns acordes para que ela se
transformasse, mais uma vez, em uma espécie de hino não oficial daquela
Copa e, talvez, em uma das expressões mais bonitas do sentimento de
pertencimento que marca a sociedade americana.
Quem
conhece minimamente a cultura americana sabe que essa não é uma música
qualquer. Ao longo de mais de cinco décadas, “Country Roads” atravessou
gerações, embalou viagens em família, encontros entre amigos, formaturas
universitárias, celebrações comunitárias e incontáveis momentos da vida
cotidiana. Ela fala de um lugar específico, as montanhas da Virgínia
Ocidental, mas desperta uma sensação universal: a alegria de saber que
existe um lugar ao qual se pertence. Talvez seja justamente por isso que
tenha sido adotada de maneira tão espontânea pelos torcedores. Em um
torneio que reuniu pessoas de todas as partes do planeta, os americanos
acabaram encontrando naquela canção uma forma simples, quase poética, de
expressar um vínculo profundo com a própria terra.
As
cenas chamavam atenção justamente porque aconteciam em um país que
jamais construiu sua identidade em torno do futebol. Durante décadas, o
esporte foi visto como uma modalidade secundária pelos americanos, muito
atrás do futebol americano, do beisebol e do basquete. Ainda assim, as
arquibancadas estavam tomadas por famílias inteiras vestindo as cores
nacionais, bandeiras tremulavam em praticamente todos os setores dos
estádios e uma multidão cantava, com uma naturalidade impressionante,
uma música que acabou se tornando muito mais do que uma simples
homenagem ao Estado da Virgínia Ocidental. O que se via ali não era
apenas entusiasmo por uma competição esportiva. Era um sentimento de
identificação com o próprio país, algo que atravessava gerações e que
parecia unir pessoas de origens completamente diferentes.
A
coincidência do calendário tornou essas imagens ainda mais
interessantes. Poucos dias antes, os Estados Unidos haviam celebrado
mais um 4 de Julho, justamente no ano em que o país continua recordando
os 250 anos de sua independência. Como acontece todos os anos, cidades
grandes e pequenas foram tomadas por bandeiras, desfiles comunitários,
fogos de artifício, churrascos nos quintais, concertos ao ar livre e
encontros organizados pelos próprios moradores. Quem observa tudo isso
de longe pode imaginar que se trata de uma grande mobilização oficial
promovida pelo governo federal. Na realidade, acontece exatamente o
contrário. O governo reconhece a data, mas a celebração pertence às
pessoas. São elas que enfeitam as ruas, organizam os eventos, ensinam às
crianças o significado daquele dia e fazem questão de reunir a família
para celebrar um acontecimento ocorrido há quase dois séculos e meio.
Foto: ShutterstockTalvez
esse seja um dos aspectos mais fascinantes da experiência americana. O
patriotismo não aparece apenas em cerimônias de Estado, nem surge
exclusivamente em momentos de crise ou de guerra. Ele está presente na
vida cotidiana. Está na bandeira hasteada na varanda de uma casa simples
do interior, no pequeno comércio que exibe discretamente as cores
nacionais, nas escolas que ensinam às crianças a história da fundação do
país e até em uma música popular que consegue transformar estádios
inteiros em um enorme coro. Trata-se de um sentimento que não depende da
presença do governo, porque nasceu muito antes dele. É um vínculo
construído entre um povo e a história que esse povo aprendeu a conhecer,
admirar e transmitir às gerações seguintes.
Essa
é uma diferença importante e frequentemente ignorada. O patriotismo
americano não depende da perfeição de seus governantes nem da ausência
de problemas. Os Estados Unidos vivem profundas divisões políticas,
enfrentam crises econômicas, disputas culturais e debates que ocupam
diariamente o noticiário. Ainda assim, a maior parte da população
consegue distinguir o país de seus governos. Presidentes passam.
Congressos mudam. Partidos se alternam no poder. A nação permanece. O
amor à pátria não está condicionado à simpatia por quem ocupa a Casa
Branca, mas à convicção de que existe um legado histórico, político e
cultural que merece ser preservado independentemente das disputas do
momento.
Ao
longo de vinte anos vivendo nos Estados Unidos, perdi a conta de
quantas vezes observei esse fenômeno acontecer diante dos meus olhos. É
impossível não perceber a naturalidade com que os americanos demonstram
orgulho de seu país. A bandeira não é tratada como um objeto reservado
para datas específicas nem como um símbolo apropriado por um determinado
grupo político. Ela faz parte da paisagem. Está presente durante todo o
ano e atravessa governos, disputas eleitorais e mudanças de humor da
opinião pública. Mais curioso ainda é perceber que esse sentimento acaba
alcançando também milhões de imigrantes que escolheram construir aqui
uma nova vida.
Esse
talvez seja um dos aspectos mais difíceis de explicar para quem nunca
viveu nos Estados Unidos. Não existe qualquer constrangimento em
demonstrar amor pelo país. Pelo contrário. É comum ver crianças
aprendendo desde muito cedo a respeitar os símbolos nacionais, veteranos
sendo homenageados antes de eventos esportivos, escolas organizando
atividades relacionadas à independência e famílias inteiras reunidas
para celebrar datas históricas. Nada disso costuma ser visto como
exagero ou como uma manifestação de nacionalismo agressivo. Faz parte da
vida cotidiana, da mesma forma que acontece em tantas outras nações que
preservam uma forte consciência de sua própria história.
Participantes
do Desfile de 4 de Julho de Alameda, um dos maiores e mais longos
desfiles do Dia da Independência do país, em Alameda, Califórnia, EUA
(04/07/2025) Pessoas
que nasceram em países completamente diferentes passam, com o tempo, a
participar dos desfiles do 4 de Julho, a decorar suas casas, a cantar o
hino nacional americano e a ensinar aos filhos o significado daquela
independência como se, de alguma forma, ela também tivesse passado a
fazer parte de sua própria história. É evidente que ninguém abandona
suas origens, sua língua ou suas tradições familiares. No entanto,
muitos imigrantes desenvolvem uma sincera gratidão pelo país que os
acolheu e incorporam seus símbolos sem que isso represente qualquer
renúncia às próprias raízes. Talvez porque percebam que a identidade
americana nunca esteve baseada em uma origem étnica comum, mas na adesão
a determinados princípios e à história construída em torno deles.
Sempre
que observo essas cenas, minha memória volta imediatamente à infância.
Faço parte de uma geração que cresceu chegando cedo ao colégio para
participar do hasteamento da bandeira brasileira e cantar o Hino
Nacional. Para muitos brasileiros da minha idade, essa era uma rotina
tão natural que sequer percebíamos sua importância. Cantávamos sem
imaginar que, naquele gesto simples, estávamos aprendendo a reconhecer
que existia algo maior do que nós mesmos. Um exercício silencioso de
pertencimento. Aquelas manhãs ajudaram a despertar em mim um orgulho
profundo pelas cores do meu país e alimentaram um sonho que me
acompanhou durante muitos anos: um dia vestir a camisa do Brasil em uma
Olimpíada.
Quando
esse momento finalmente chegou, o sentimento foi muito maior do que
qualquer conquista esportiva. Carregar a bandeira brasileira no uniforme
e representar meu país diante do mundo produzia um orgulho que parecia
não caber no peito. Hoje, olhando para trás, percebo que aquele amor
pelo Brasil não surgiu por acaso. Ele começou a ser cultivado muito
antes, ainda na escola, por pequenos gestos que ajudavam uma criança a
compreender que fazia parte de uma história, de uma nação e de uma
herança que valia a pena amar.
Infelizmente,
muitos desses costumes foram desaparecendo ao longo das últimas
décadas. Em nome de uma falsa ideia de neutralidade, deixamos de
transmitir às novas gerações símbolos e referências que, longe de
dividir, ajudavam justamente a construir um sentimento de unidade
nacional. Recuperar esse vínculo não significa voltar ao passado por
nostalgia, mas compreender que nenhuma sociedade forma cidadãos
comprometidos com o futuro se antes não lhes ensina a amar a história,
os símbolos e a identidade do país que receberam como herança.
Foto: ShutterstockA
diferença entre Brasil e Estados Unidos não está na capacidade de um
povo amar sua terra. Quem conhece minimamente a história brasileira sabe
que nosso país também produziu exemplos extraordinários de coragem,
solidariedade e espírito de pertencimento. Basta lembrar da mobilização
nacional durante as grandes tragédias, do orgulho que tantas comunidades
sentem por suas cidades ou da maneira como o brasileiro é capaz de
representar seu país quando vive no exterior. O problema não é a
ausência de afeto pelo Brasil. O problema é que esse sentimento
raramente encontra uma memória histórica sólida sobre a qual possa se
apoiar.
Nenhum
povo ama aquilo que não conhece. Da mesma forma, nenhuma sociedade
consegue transmitir às novas gerações um sentimento de pertencimento
quando deixa de contar, com convicção, a própria história. O patriotismo
não nasce espontaneamente. Ele é cultivado ao longo do tempo,
alimentado por exemplos, personagens, símbolos, datas comemorativas e
narrativas compartilhadas. Antes de ser uma emoção, ele é uma herança
cultural.
Os
americanos compreenderam isso muito cedo. Desde os primeiros anos de
escola, as crianças aprendem quem foi George Washington, por que Thomas
Jefferson redigiu a Declaração de Independência, quais ideias inspiraram
os chamados Founding Fathers e por que a Constituição continua sendo
tratada como um dos pilares da vida nacional. Esses personagens não são
apresentados como figuras perfeitas, tampouco como homens acima das
críticas. São estudados porque desempenharam um papel decisivo na
construção do país e porque conhecer sua trajetória ajuda a compreender
os princípios que deram origem à república americana.
Essa
preocupação vai muito além da sala de aula. Famílias visitam a
Filadélfia para conhecer o Independence Hall, onde a Declaração de
Independência e a Constituição foram debatidas. Crianças percorrem os
campos de batalha da Guerra de Independência. Museus recebem milhões de
visitantes todos os anos. Monumentos são preservados com enorme cuidado.
Memoriais dedicados aos soldados mortos em diferentes guerras
permanecem entre os locais mais visitados do país. Não se trata apenas
de turismo histórico, mas uma cultura que ensina continuamente que a
liberdade, as instituições e a própria existência da nação foram
construídas por pessoas reais, que fizeram escolhas difíceis e assumiram
responsabilidades que ultrapassavam suas próprias vidas.
O histórico Independence Hall em um dia ensolarado, Filadélfia, Pensilvânia, EUA Talvez
seja justamente por isso que as comemorações do 4 de Julho aconteçam de
maneira tão natural. Para um americano, celebrar a independência não
significa apenas recordar um acontecimento
ocorrido em 1776. Significa agradecer pelo legado recebido e reconhecer
que ele precisa ser preservado. A festa não acontece porque o
calendário determina um feriado. Ela acontece porque milhões de pessoas
enxergam naquela data parte da própria identidade.
No Brasil, infelizmente, seguimos um caminho bastante diferente.
Nossa
independência faz parte dos livros escolares, mas raramente ocupa
espaço na imaginação popular. O brasileiro médio sabe que o 7 de
Setembro é um feriado nacional, mas poucos conseguiriam explicar com
alguma segurança por que aquela data continua sendo importante duzentos
anos depois. Menos pessoas ainda saberiam identificar os principais
personagens envolvidos, compreender o contexto internacional em que a
independência ocorreu ou explicar como aquele processo influenciou a
formação do Estado brasileiro.
E isso, infelizmente, não é uma deficiência individual, mas uma escolha cultural que foi sendo construída ao longo de décadas.
Pouco
a pouco, deixamos de contar nossa história como uma trajetória nacional
digna de ser conhecida e passamos a apresentá-la quase exclusivamente
como uma sucessão de injustiças, fracassos e opressões. É evidente que
toda nação possui capítulos dolorosos e decisões equivocadas. Os
próprios Estados Unidos vivem intensos debates sobre escravidão,
segregação racial e tantos outros episódios que marcaram sua formação. A
diferença está no fato de que esses erros passaram a coexistir com uma
narrativa nacional mais ampla, capaz de reconhecer também os acertos, os
avanços e os ideais que deram sentido à construção do país.
Leitura
da Declaração de Independência por John Nixon, nas escadarias do
Independence Hall, Filadélfia, EUA (08/07/1776). Desenho de E.A. Abbey,
xilogravura, (1889) No
Brasil, em muitos momentos, parece ter acontecido o inverso. Nossa
história foi sendo gradualmente reduzida aos seus aspectos mais
negativos, como se qualquer demonstração de orgulho nacional precisasse
vir acompanhada de um pedido de desculpas. Em vez de despertar
curiosidade sobre aqueles que construíram o país, muitas vezes ensinamos
às novas gerações apenas as razões pelas quais elas deveriam desconfiar
da própria herança histórica.
O resultado aparece diante dos nossos olhos.
Em
2022, o Brasil celebrou os duzentos anos de sua independência. Trata-se
de uma data que, em qualquer nação, representaria uma oportunidade
extraordinária para aproximar a população de sua própria história. Era a
ocasião perfeita para que escolas, universidades, museus, meios de
comunicação e famílias revisitassem os personagens, os acontecimentos e
as ideias que moldaram o nascimento do país. Havia todas as condições
para que o bicentenário se transformasse em um grande momento de
reflexão nacional.
No
entanto, passada a comemoração oficial, pouco permaneceu na memória
coletiva. Houve solenidades, desfiles militares e eventos promovidos
pelo poder público, mas faltou justamente aquilo que torna uma data
histórica verdadeiramente viva: o desejo espontâneo das pessoas de
celebrá-la. Poucos bairros organizaram festas por iniciativa própria.
Poucas famílias aproveitaram a ocasião para conversar com seus filhos
sobre o significado da independência. Raramente se viu a mobilização
comunitária que, ano após ano, transforma o 4 de Julho em uma celebração
que pertence muito mais ao povo americano do que ao governo dos Estados
Unidos.
Desfile
cívico-militar do 7 de Setembro, comemorando o Bicentenário (200 anos)
da Independência do Brasil, em Brasília, DF (07/09/2022) Essa
talvez seja a diferença mais profunda entre as duas experiências. Nos
Estados Unidos, o patriotismo sustenta as comemorações nacionais. No
Brasil, muitas vezes esperamos que as comemorações oficiais despertem um
patriotismo que nunca foi suficientemente cultivado. A ordem dos
fatores parece pequena, mas muda completamente o resultado.
Ao
longo das últimas décadas, transformamos praticamente tudo em objeto de
disputa política. Nossos símbolos nacionais foram sendo arrastados para
o debate partidário, como se amar o próprio país significasse
necessariamente concordar com este ou aquele governo. Perdemos, aos
poucos, a capacidade de enxergar a bandeira brasileira como um
patrimônio comum, pertencente a todos os brasileiros, independentemente
de suas convicções políticas. Quando isso acontece, a própria ideia de
nação começa a enfraquecer, porque desaparecem justamente os elementos
capazes de unir pessoas que pensam de maneira diferente.
Não
deixa de ser significativo que o momento em que o brasileiro mais
espontaneamente demonstra orgulho de seu país continue sendo a Copa do
Mundo. Durante algumas semanas, as ruas ganham bandeiras, as camisas da
seleção reaparecem, vizinhos se reúnem para assistir aos jogos e milhões
de pessoas voltam a cantar o Hino Nacional com emoção. Ainda existe,
portanto, um sentimento de pertencimento esperando uma oportunidade para
se manifestar. O problema é que, terminado o campeonato, quase tudo
volta para dentro dos armários. A bandeira desaparece das janelas, as
camisas retornam às gavetas e o orgulho nacional parece novamente
restrito à lembrança de um torneio esportivo.
Talvez
isso aconteça porque, durante muito tempo, o futebol ocupou um espaço
que deveria ter sido preenchido também pela história. Aprendemos a
decorar as escalações das grandes seleções brasileiras, lembramos com
precisão de gols marcantes, discutimos técnicos, campeonatos e finais
inesquecíveis, mas frequentemente sabemos muito pouco sobre os homens e
mulheres que construíram o país em que vivemos. Sabemos identificar
lances históricos de uma Copa do Mundo, mas muitos brasileiros jamais
ouviram falar de José Bonifácio, desconhecem os debates que antecederam a
Independência ou nunca tiveram a oportunidade de compreender por que o 7
de Setembro continua sendo uma das datas mais importantes da nossa
história.
Rua tradicional decorada para a Copa do Mundo de Futebol, no Rio de Janeiro, Brasil (05/06/2026) Digo
isso não apenas como ex-atleta olímpica ou jornalista, mas como alguém
que está há vinte anos vivendo fora do Brasil e que, mesmo aposentada
das quadras, jamais deixará de defendê-lo. Sempre acreditei que o Brasil
é muito maior do que seus problemas, muito mais rico do que seus
indicadores econômicos e muito mais bonito do que os estereótipos que
tantas vezes o acompanham no exterior. O amor que sinto pelo meu país
nunca diminuiu por causa da distância ou pela cidadania americana. Se
alguma coisa mudou ao longo desses anos, foi justamente a percepção de
que amar uma nação também significa desejar que ela conheça melhor a si
mesma.
Talvez
seja por isso que cenas aparentemente simples, como milhares de
americanos cantando “Country Roads” em um estádio de futebol, despertem
tanta reflexão. Aquela música não fala sobre política. Não menciona
partidos, eleições ou governos. Ela fala sobre voltar para casa. Sobre
reconhecer um lugar como seu. Sobre sentir que existe uma terra à qual
se pertence e cuja história merece ser lembrada.
No fundo, o patriotismo começa exatamente aí.
Ele
não nasce da convicção de que um país seja perfeito. Nasce da gratidão
por aquilo que recebemos das gerações anteriores e da responsabilidade
de entregar essa herança um pouco melhor àqueles que virão depois de
nós. Um povo verdadeiramente patriota não ignora os próprios problemas
nem transforma seus erros em motivo de orgulho. Ao contrário. Justamente
porque ama sua história, procura corrigir seus defeitos, preservar suas
virtudes e fortalecer as instituições que permitem às futuras gerações
viver em uma sociedade mais livre, mais próspera e mais justa.
A
bordo da fragata União, o imperador Pedro I do Brasil (à direita)
ordena ao oficial português Jorge Avilez (à esquerda) que retorne a
Portugal após sua rebelião fracassada em 8 de fevereiro de 1822. José
Bonifácio pode ser visto ao lado de Pedro I. Óleo sobre tela de Oscar
Pereira da Silva (1922) Há
quem considere tudo isso antiquado. Em determinados ambientes
culturais, o patriotismo passou a ser tratado como um sentimento
ingênuo, excessivamente romântico ou até incompatível com um mundo
globalizado. A experiência americana mostra exatamente o oposto. Os
Estados Unidos são uma das sociedades mais diversas do planeta, recebem
milhões de imigrantes, exercem influência sobre praticamente todos os
continentes e, ainda assim, preservam uma identidade nacional
extraordinariamente forte. Talvez porque tenham compreendido que a
abertura ao mundo não exige o abandono das próprias raízes. Uma nação só
consegue acolher outras culturas quando sabe, antes de tudo, quem ela
própria é.
Gostaria
profundamente que um dia o Brasil também reencontrasse esse caminho.
Não para copiar os Estados Unidos, pois cada povo possui sua própria
história, seus próprios símbolos e sua própria vocação, mas para
redescobrir a beleza daquilo que já nos pertence. Nosso país possui
personagens extraordinários, episódios históricos fascinantes, tradições
riquíssimas e uma herança cultural que merece muito mais do que algumas
páginas nos livros didáticos. Merece ser conhecida, celebrada e
transmitida com orgulho.
Quando
a próxima Copa do Mundo chegar, ou mesmo nos próximos Jogos Olímpicos
de 2028, certamente voltaremos a vestir a camisa verde e amarela, a
cantar o Hino Nacional e a transformar o esporte em uma grande festa
popular. Espero apenas que, entre uma Copa e outra, também encontremos
razões para celebrar o Brasil por aquilo que ele é, pela história que
construiu e pelos valores que desejamos legar aos nossos filhos.
Quem
sabe não descobrimos que o patriotismo não é um sentimento reservado às
arquibancadas nem uma emoção que desperta apenas de quatro em quatro
anos? Patriotismo é a consciência de que existe uma casa comum,
construída por gerações que vieram antes de nós, e que cabe a cada uma
delas preservá-la para aquelas que ainda virão.
Talvez
seja por isso que “Country Roads” emocione tanta gente. Porque, muito
antes de falar sobre uma estrada ou sobre um lugar específico, ela fala
de uma das necessidades mais profundas da experiência humana: a de
pertencer. E um povo que conhece sua história, honra sua memória e
transmite esse legado aos seus filhos sempre encontrará o caminho de
volta para casa.
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