MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

domingo, 12 de julho de 2026

Paraíso do Caos e o verdadeiro Mata-Mata

 


 

Francisco Carneiro Junior

 

               Já estávamos sem pão. Agora terminou o circo…

Já perdemos copas antes. Várias vezes. Choramos no Maracanã em 1950 como se o mundo tivesse desabado, e o mundo, generoso, continuou — porque ainda havia o que chorar. Tínhamos alma. Sim, o verbo está no pretérito, e é essa mudança de tempo verbal que condena o presente: a derrota de ontem só expunha o que éramos; a de hoje revela, sem anestesia, o que deixamos de ser. Chamam isso de desclassificação, palavra pobre para um desastre rico. Desclassificação é sair de um torneio, acidente de calendário que se repete a cada quatro anos sem doer muito. Há uma queda mais funda, e essa não sai em súmula: a de um povo que deixa de ser reconhecido pelo traço que o definia.

E o traço, convém dizer com todas as letras, foi trocado por outro sem que ninguém nos consultasse.

O futebol brasileiro adotou um cotismo estrutural que decide escalação por critério de cota e não de talento, e vestiu esse critério com o verniz respeitável do wokeísmo, como se rebaixar a meritocracia fosse sinal de evolução moral e não de covardia técnica.A meritocracia, que escolhia o craque pela categoria, foi substituída por um cálculo de conveniências. E o pior: ninguém no comando teve a coragem de chamar a substituição pelo nome. Culpa, todo mundo tem um pouco — o cartola, o dirigente, o comentarista que aplaude qualquer coisa para não ser chamado de imbecil. Mas falhamos mesmo foi no conceito, na ideia matriz, na definição do que deveríamos ser em campo. Não foi um jogador que errou o pênalti decisivo; foi um projeto inteiro que errou o objetivo antes da bola rolar.

O técnico italiano, contratado por milhões para nos ensinar o que já sabíamos fazer melhor que qualquer escola europeia, deu-nos de presente um futebol que não é nosso. É europeu. Organizado, previsível, elegante como um funeral bem produzido. Deixamos de jogar o nosso futebol para aceitar jogar um futebol global, genérico, sem sotaque, o mesmo em Londres, em Milão ou em Madri. O Brasil deu as costas para o próprio DNA. A seleção não respeita mais a forma brasileira de jogar — o drible como assinatura, a criatividade como flexão de músculo, a irreverência como estratégia.

Perdemos a originalidade, a singularidade, aquilo que fazia da bola nos pés de um brasileiro um dialeto reconhecível a quilômetros de distância. Virou puxadinho do futebol europeu: uma cópia malfeita, construída às pressas sobre a fundação de uma casa que já tinha arquitetura própria e bonita.

E, como se a perda de identidade não bastasse, perdemos também a espinha. Falta resiliência a esse time, e falta ainda mais capacidade de ouvir crítica sem se fazer de vítima. Cada apontamento técnico vira perseguição; cada questionamento, ataque pessoal. Um time que não tolera ser corrigido é um time que já decidiu não evoluir. E, nesse cenário de fragilidade coletiva, ainda sobra munição para a esquerda de plantão culpar Neymar — Neymar, que jogou vinte minutos e mesmo assim balançou a rede —, como se o problema estrutural de um projeto inteiro coubesse nas costas de um homem que mal teve tempo de suar a camisa. É mais fácil crucificar o símbolo do que admitir o erro de concepção.

Convém lembrar quem é a Noruega no histórico mundial do futebol: três participações em Copas do Mundo, uma trajetória modesta, quase decorativa, até este domingo. Não há vergonha em perder para quem sempre foi grande; há vergonha em perder para quem, até anteontem, mal sabia o caminho do estádio. E há muito tempo a seleção brasileira não reflete o futebol que se joga, por exemplo, no Brasileirão — onde ainda sobrevivem o drible, a posse de bola paciente, a ousadia de tentar o improvável. O que vestimos de amarelo em Copas do Mundo virou uma seleção estrangeira com passaporte brasileiro. Falta driblar mais. Falta ter domínio e posse de bola com propósito, não por estética televisiva, mas por convicção de que aquele é, sim, o nosso jeito de jogar.

Ancelotti disse que as trocas do segundo tempo eram para colocar mais frescor, dar mais profundidade. Traduzindo: chegou frescor tarde demais a um time que já mofava desde a preleção. E cabe perguntar, com a inocência que a pergunta finge ter: era preciso contratar um estrangeiro a peso de euros para descobrir isso no intervalo? Seu auxiliar, que por acaso é também seu filho — coincidências assim não existem só no futebol brasileiro contemporâneo , mas no nosso judiciário também — resumiu tudo em outra frase pronta: assumimos essa responsabilidade, sentimos muito. Sente-se muito, mas o contrato segue firme até 2030, salário intacto, cargo intocado.

Há, porém, um mérito nessa dor toda, e é preciso reconhecê-lo. Haaland ajudou o brasileiro a esquecer o circo por um instante e a se lembrar de todo o roubo, de toda a corrupção que corrói este país há décadas e que insistimos em varrer para debaixo do tapete entre uma Copa e outra. Para resolver isso, meus caros, vamos ter que "haalar" muito — achar coragem, achar memória, achar vergonha na cara antes que seja tarde. Porque tem outro sujeito ferrando com o país, e não é o norueguês de cabelo loiro que nos eliminou em Nova Jersey. É necessário desalojá-lo do poder, e todos sabem exatamente de quem eu estou falando.

Se nada mudar no futebol, ficaremos mais vinte e oito anos sem ganhar uma Copa — ou talvez ganhemos antes disso, porque um relógio quebrado acerta duas vezes no dia (lembrando que na Era PT nunca se ganhou nenhuma Copa!). Mas no caso do governo e da situação do país o cálculo é muito mais cruel: se não tirarmos o PT do poder, o que já está ruim vai piorar de um jeito que fará Cuba parecer paraíso perto daqui. O Brasil de hoje já é insalubre. Imagine o que herdarão os nossos filhos depois de mais uma década com esse governo: um país onde vinte e cinco por cento da população vive sob domínio territorial de terroristas armados, onde trabalhar duro deixou de ser garantia de nada, onde quem faz a coisa certa é chamado de otário nas rodas de conversa, e a corrupção virou paisagem, não mais escândalo.O futebol é o que dá identidade, pertencimento ao brasileiro — por isso dói tanto vê-lo desfigurado. Mas o que não podemos, sob hipótese alguma, é perder a vergonha na cara.

O time que joga sem alma é o reflexo de um desgoverno que engana, mente e corrompe sem pudor. Perder a Copa dói. Perder a vergonha mata devagar. Falta de originalidade em campo, falta caráter nos gabinetes, falta pudor em quem normalizou a destruição do Brasil. E mudar isso, sem o pão e agora sem o circo, é a única esperança que ainda nos resta!

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