Este aniversário coincide com uma fase de regressão iliberal não apenas no resto do Mundo, mas também nos próprios EUA. A culpa disso não é da Declaração da Independência ou dos Pais Fundadores. Bruno Cardoso Reis para o Observador:
Os
EUA estão, ironicamente, muito divididos na celebração do início da sua
união, há dois séculos e meio. É um bom momento para fazer um certo
balanço sobre a natureza e o impacto global da experiência política
inaugurada pela revolta dos colonos britânicos no norte do continente
americano.
O que importam os EUA?
Importam
muito. Na grande atenção à política norte-americana, Portugal não é
exceção, basta ler a imprensa global ou as redes sociais para confirmar a
visibilidade e o interesse globais pelos EUA. São várias as razões, mas
destacaria duas. Primeiramente, os EUA transformam tudo em espetáculo,
inclusive a política. A política norte-americana é, por isso,
espetacular, entretém muito. Ou seja, os EUA dão naturalmente muito que
falar, mais ainda com o presidente Trump que vive e sobrevive há muito
como um grande artista da bolha mediática. Em segundo lugar, os EUA são
uma grande potência global – na economia, na tecnologia, na defesa –
desde, pelo menos, o final do século XIX. Quem os EUA escolhem para os
liderar, as suas opções políticas, económicas, diplomáticas, militares
têm grande impacto no resto do Mundo. Eu não tenho particular gosto em
comentar Donald Trump, nunca o fiz antes de ser presidente dos EUA, mas
as suas decisões e declarações presidenciais muitas vezes têm um grande
impacto nas nossas vidas (como quem tem ido à bomba de gasolina nos
últimos meses terá notado).
O impacto global dos EUA
O
curioso é que, desde o início, a experiência política norte-americana
teve um impacto global, inicialmente sobretudo pela sua novidade. Foi
uma inspiração importante para as revoluções liberais, a começar pela
Revolução Francesa. Foi uma inspiração importante para movimentos
independentistas e sucessivas vagas de descolonização e independência,
começando pelo Haiti e a América espanhola. Já no século XX, Ho Chi
Minh, o líder comunista vietnamita, citou a Declaração da Independência
dos EUA quando proclamou a independência do Vietname, relativamente à
França, em 1945. E a vitória do EUA na Guerra Fria (1947-1991), não foi o
fim da história, mas foi um importante impulso para três décadas que
foram o período da história em que mais países adotaram modelos
políticos e económicos mais liberais.
A crescer desde 1776
Há
muitos aspetos controversos na história dos EUA e no seu impacto
global. Mas o seu sucesso é fácil de medir objetivamente. Em 1776 as 13
colónias da América do Norte que declararam a sua vontade de
independência face ao governo de Londres tinham 2,5 milhões de pessoas.
Hoje a população dos EUA é 140 vezes maior, com mais de 340 milhões de
norte-americanos. É a terceira maior população do mundo depois dos
colossos asiáticos da China e da Índia. Isso é fruto de os EUA terem
sido ao longo de todo este período, ainda que com oscilações, claro, um
dos principais polos de atração de pessoas de todo o mundo. Esta tem
sido uma das chaves do seu extraordinário dinamismo. Hoje os EUA são a
única grande economia global cuja população se prevê que continue a
crescer nas próximas décadas.
Os
EUA foram a primeira colónia que tentou vingar de forma independente,
foram também a primeira grande federação republicana. Muitos duvidaram
do seu sucesso. E começaram por ser economicamente irrelevantes, com
menos de 1% do PIB global, em 1776. No entanto, pouco mais de cem anos
depois, no final do século XIX, já eram a maior economia global, na
vanguarda da segunda revolução industrial. E ainda hoje os EUA
representam c.25% do PIB global. Pelo caminho houve guerras, abusos,
divisões internas, por lá, como por todo o lado. Mas a Rússia já
colapsou duas vezes. A China está ainda a recuperar do colapso secular
entre 1839-1949.
Uma grande potência diferente
A
liberdade provavelmente não teria sobrevivido na Europa sem o apoio do
poder militar dos EUA na Segunda Guerra Mundial e na Guerra Fria. Isto
significa que os EUA foram uma grande potência exemplar, que sempre
defenderam a liberdade dos povos? Significa isto que acertaram sempre na
sua política externa? A resposta às duas perguntas é: claro que não! A
coerência e o acerto absolutos não existem nos assuntos humanos. E menos
ainda é possível acertar sempre no campo extremamente complexo da
política externa, onde, muitas vezes, apenas se pode optar entre males
menores. Mas os EUA deram mais importância a princípios liberais,
apoiaram mais processos de libertação política e económica do que
qualquer outra grande potência. O apoio político, diplomático,
financeiro dos EUA foi fundamental, por exemplo – juntamente com uma
série de países europeus ocidentais – para defender e facilitar a
transição democrática bem-sucedida em Portugal e em Espanha a partir da
década de 1970.
O
que não faz sentido é exigir dos EUA o que nenhuma potência alguma vez
fez: ignorar completamente os seus interesses e reger-se apenas e com
total acerto por princípios e valores que consideramos exemplares na
atualidade. É verdade que, até 1865, os EUA viveram com a contradição de
serem fundados com base numa Declaração da Independência que afirma os
princípios da liberdade e da igualdade, mas a escravatura era permitida
nos Estados do Sul. Mas foram os norte-americanos a mudar essa
realidade, precisamente em nome dos valores de 1776, numa sangrenta
Guerra Civil (1861-1865). O sistema político dos EUA nunca prometeu a
perfeição, assume mesmo a imperfeição humana, tentando evitar que quem
tem poder possa fazer demasiados estragos e que se possa aprender com os
erros e, em intervalos regulares, mudar de lideranças.
Importa
ter a noção de que a grande objeção na opinião pública global ao
surgimento dos EUA, e ao seu novo sistema constitucional como uma
república federal de grandes dimensões, não era que fosse pouco
participativa e pouco livre – era, pelo contrário, que dava demasiados
direitos a demasiada gente. É um disparate fazer de conta que os EUA são
um exemplo perfeito de governação, porque não há nenhum regime político
perfeito. Mas o exemplo e o poder dos EUA foram fundamentais para o
progresso da liberdade e da prosperidade no Mundo. Não o fizeram sempre e
não fizeram sozinhos, geralmente perceberam que precisavam de
verdadeiros aliados e não de vassalos forçados, mas deram um contributo
mais importante do que qualquer outra potência nesse sentido.
E agora?
Ironicamente,
este aniversário coincide com uma fase de regressão iliberal não apenas
no resto do Mundo, mas também nos próprios EUA – com a direita radical e
a esquerda radical a não esconderem o seu desprezo por princípios
fundamentais para uma verdadeira liberdade, como o da divisão e
limitação de poderes, e um sistema de pesos e contrapesos. Mas a culpa
disso não é da Declaração da Independência ou dos Pais Fundadores, mas
de opções mais recentes. Nenhum sistema político dura para sempre. Pode
mudar-se radicalmente a natureza do sistema mantendo formalmente o mesmo
sistema constitucional – foi assim com o fim da República Romana ou da
República de Weimar. Como disse Benjamin Franklin ao sair da Convenção
que nos deu aquela que ainda hoje é a constituição dos EUA, em setembro
de 1787, a uma senhora que lhe perguntou que sistema político os
constituintes tinham criado: “A Republic if you can keep it!” Que é como
quem diz: “uma democracia constitucional, se a souberem preservar!” Um
regime verdadeiramente constitucional tem, por natureza, uma fragilidade
fundamental: não se pode obrigar um povo a ser livre ou a escolher bem
os seus líderes.
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