BLOG ORLANDO TAMBOSI
É muito bonito falar na bondade dos ideais desportivos, que a propaganda tenta diluir em tendências politicamente corretas. Mas nada disso move as mulheres e os homens até esta lealdade fanática. Miguel Morgado para o Observador:
No
século XIX a explosão dos nacionalismos, associada aos ecos sucessivos
da Revolução Francesa, foi a força motriz da História europeia.
Dependendo da geografia, o nacionalismo ora serviu de conteúdo
“cultural” de consolidação dos recentes Estados soberanos, ora actuou
como agente de subversão dos impérios que ainda governavam uma parte
considerável do território europeu. Simultaneamente um momento de tomada
de consciência histórica e uma ideologia que ia sendo forjada por
diferentes filósofos, juristas e aventureiros, o nacionalismo tornou-se o
novo horizonte político de todas as latitudes e, até certa altura,
unificador de esquerdas e direitas.
No
final do século XIX, a predominância dos marxismos e anarquismos cortou
a esquerda do nacionalismo que ajudara a fundar propondo em troca um
internacionalismo da emancipação da Humanidade da opressão a que fora
sujeita durante milénios. Porém, assim que os marxismos tomaram o poder,
o internacionalismo, ainda que mantido na retórica proclamatória, foi
substituído pelo nacionalismo conveniente para justificar o fracasso da
revolução no Ocidente ou para mobilizar a população contra a invasão
nazi da União Soviética.
Foi
após a Segunda Guerra Mundial que o nacionalismo chegou ao seu momento
de crise. Enquanto nas colónias dos impérios ultramarinos se importava o
nacionalismo europeu para dar consistência à revolução independentista,
a Europa que preparava a descolonização atribuía também ao nacionalismo
a responsabilidade moral pela destruição e pelos crimes das duas
guerras. Gradualmente, os povos europeus foram encaminhados para um
futuro em que o “egoísmo nacional” seria um arcaísmo e uma má memória.
Porém, esse futuro tardou. Entretanto, o sonho e as belas intenções
foram-se desvanecendo, em grande medida por pressão de um mundo exterior
que aprendera com os Europeus a ser “nacionalista”.
No
desporto, apesar de todas as divisas, o Mundial de futebol proporciona o
palco tendencialmente pacífico da confrontação agónica das
“nacionalidades”. De 4 em 4 anos, os povos do mundo inteiro sem excepção
deliram com a intensidade das lealdades, das emoções, das rivalidades
absolutamente nacionais que movem jogadores e adeptos. Donde vem tanta
energia emocional? Qual a fonte de tamanha efusão de paixões
devocionais? É muito bonito falar na bondade dos ideais desportivos, que
a propaganda da FIFA e das organizações que a acompanham tenta diluir
em tendências politicamente correctas. Mas nada disso move as mulheres e
os homens até este limiar da lealdade fanática, da partilha do
sofrimento da derrota ou da alegria da vitória.
Não
vale a pena ter ilusões: o futebol é a simulação de um certo tipo de
guerra antiga, a guerra aristocrática travada entre grupos de heróis ou
de “campeões” até à subjugação do adversário – uma subjugação do
derrotado e o reconhecimento de superioridade do vencedor. A atracção
nacional persiste com uma força psicológica indomável e o fascínio pelo
combate dos heróis também. Todo o rito do nacionalismo moderno é
meticulosamente praticado, desde a devoção à bandeira até ao hino
cantado com uma emoção que nenhum outro momento da vida quotidiana
consegue reproduzir. Mas não são apenas os ritos do nacionalismo
moderno. Cada selecção e cada público recupera e reencena símbolos e
práticas pré-modernas que, de modo autêntico ou fabricado pelo próprio
nacionalismo moderno ou pela cultura popular contemporânea, sublinham a
distinção de cada identidade nacional. Até a eleição do melhor jogador
de cada equipa ao estatuto de herói nacional obedece à mesma pulsão.
Nos
estádios de futebol, nas esplanadas e nas casas das famílias, o fervor
que os fundadores das comunidades europeus tanto temiam regressa sem
pretextos nem remorsos. Recordemos que o “ideal” europeu foi
pós-nacionalista. E, enquanto a Europa dominou o mundo, a contradição
com os restantes países “nacionais” parecia (aos Europeus) um sinal de
confirmação de superioridade – uma espécie de vanguarda histórica que em
breve seria imitada pelos outros povos. No Mundial de 2026, pelo
contrário, o apoio fervoroso dos símbolos nacionais no estádio, e o
sucesso desportivo das equipas europeias nos relvados, fazem do “ideal”
do pós-Segunda Guerra Mundial um sintoma de debilidade.
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