Advertência de bispos americanos sobre uso de linhagem de células de fetos abortados na vacina da Johnson & Johnson reabre questão espinhosa. Vilma Gryzinski:
Se pudéssemos escolher… Quem já não pensou nisso diante das ofertas – ainda muito limitadas no Brasil – de diferentes vacinas?
A
questão não é só brasileira. Quando a vacinação em massa começou no
Reino Unido, houve casos de idosos que “deixaram passar” sua vez porque
não queriam a vacina da Pfizer. Preferiam, por nacionalismo ou
desconfiança em relação à vacina americana/alemã, “esperar pela
inglesa”, a Oxford/AstraZeneca.
Agora,
na Alemanha e na França, onde o ritmo da imunização não é nada
brilhante, sobram vacinas da AstraZeneca porque instituições científicas
disseram que não eram recomendáveis para pessoas acima de 65 anos.
Até
o presidente Emmanuel Macron resolveu interferir, de forma equivocada,
dizendo que a vacina era praticamente inútil para a população mais
idosa.
Foi
um erro, e feio, considerando-se o momento crucial em que aconteceu –
no início de uma vacinação já complicada pelos entraves criados pela
União Europeia, encarregada de comandar a compra e a aprovação dos
imunizantes, o que fez com burocrática lentidão.
Franceses
e alemães, entre outros europeus, já voltaram atrás, com a comprovação
de que a vacina da AstraZeneca reduz em mais de 80% os casos graves – e,
portanto, óbitos – da doença na faixas etárias mais altas.
Aliás, todas as vacinas estão se comprovando efetivas, mais até do que os testes faziam prever. É uma vitória da humanidade.
E
também um incentivo para que, tanto do ponto de vista da saúde quanto
da ética, elas sejam aceitas sem discriminação de fabricante.
A
questão da vacina da Johnson & Johnson, recém-aprovada nos Estados
Unidos, envolve a questão do uso de linhagens celulares provenientes de
fetos para promover a multiplicação dos vírus atenuados que irão
“ensinar” o organismo dos vacinados a reagir imunologicamente ao novo
coronavírus se entrar em contato com ele.
As
células, chamadas imortalizadas por causa das clonagens sucessivas,
remontam há várias década, e, evidentemente, não estão presentes na
vacina em si.
Duas arquidioceses americanas abordaram a questão do ponto de vista dos ensinamentos da Igreja e sua oposição ao aborto.
A
de Nova Orleans colocou a decisão no campo da consciência individual.
Mas recomendou que os católicos deveriam escolher, se elas estiverem
disponíveis, as vacinas da Moderna ou da Pfizer – ambas atuam no campo
do RNA mensageiro, um material genético, e não da forma tradicional que
usa vírus atenuados.
A
arquidiocese de St. Louis considerou a vacina da Johnson & Johnson
“moralmente comprometida”, com a ressalva de que pode ser tomada “em boa
consciência se não houver alternativa”.
As
declarações discordam sutilmente de Roma, onde o papa Francisco, que
passou períodos retraídos recentemente por causa da ciática e dos 84
anos – mas viaja nesse fim de semana ao Iraque – tem feito campanha pela
vacinação. E o Vaticano assumiu uma linha dura: os funcionários da
Santa Sé que recusarem a vacina podem ser sancionados e até demitidos.
Em
dezembro, a Congregação para a Doutrina da Fé havia dito que “é
moralmente aceitável receber vacinas de Covid-19 que tenham usado
linhagens celulares de fetos abortados na pesquisa e produção”.
“O uso dessas vacinas não constitui cooperação formal com o aborto do qual derivam as células usadas na produção das vacinas”.
Embora
Francisco seja, obviamente, contra o aborto, ele entra em choques
frequentes com a ala mais tradicional da Igreja americana, a qual
critica, também sutilmente, por focar tanto no tema.
O
uso de tecidos fetais em pesquisas biomédicas é controvertido, e não
apenas do ponto de vista religioso, pois envolve dois mandamentos
conflitantes da medicina: não fazer o mal (interromper uma vida em
formação) e promover a cura (os benefícios provenientes dos tratamentos
com os medicamentos nascidos das pesquisas).
No
momento grave em que estamos, só temos que agradecer pelas vacinas, do
jeito que foram desenvolvidas, e clamar para que cheguem logo para
todos.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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