Meu
apartamento em Paris é próximo ao Père Lachaise, provavelmente o mais
famoso e certamente o mais visitado cemitério do mundo. É um lugar
maravilhoso para o devaneio, que mesmo as mais rigorosas precauções de
saúde não podem proibir ou impedir completamente.
Há
muitas pessoas famosas enterradas lá. Há também nomes não tão célebres,
mas que se destacaram nas suas áreas de atuação. Como, por exemplo,
Alphonse Bertillon, o inventor de um sistema de identificação de
criminosos por meio de antropometria. Ou Dupré Barbancourt, o francês
que foi cônsul liberiano no Haiti no século 19. Ele fundou a primeira
destilaria de rum no Haiti que ainda funciona e faz o melhor rum que já
provei.
O
túmulo no Père Lachaise que é de longe o mais constante e
elaboradamente adornado com flores não é o de Balzac ou o de Chopin ou o
de Oscar Wilde. É o de Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869).
Rivail é mais conhecido como Allan Kardec. A atenção dedicada a seu
túmulo se deve principalmente aos esforços dos visitantes brasileiros do
cemitério, seus fiéis devotos.
Sem
dúvida é evidência da minha ignorância culposa, mas, até que eu fizesse
caminhadas regulares no cemitério, o nome de Allan Kardec era
completamente desconhecido para mim. Não sabia que ele era espírita e,
fato que rapidamente descobri, que esmagadoramente o seu maior número de
seguidores está e tem estado há muito tempo no Brasil. Isso me
intrigou. Por quê? Ainda não encontrei a resposta. Existe uma explicação
satisfatória, ou é apenas uma daquelas curiosidades inexplicáveis da
história?
Quando
eu era jovem, intolerante e muito satisfeito com minha própria
esperteza, considerava qualquer ideia ou opinião que batesse no
sobrenatural com desdém. Pensei que já entendia tudo e, portanto, que
qualquer um que acreditasse em algo que eu não acreditava era deficiente
em inteligência. Sabia como o universo funcionava, exceto talvez pelos
poucos detalhes que ainda precisavam ser preenchidos. Naqueles dias,
esperava que, no final da minha vida, todos os mistérios tivessem sido
resolvidos.
Ainda
não acredito no sobrenatural. Se perguntado, eu diria que esperava que
minha morte fosse uma entrada em um estado de não ser. Meu principal
arrependimento é que não serei capaz de dizer a ninguém: “Eu avisei” —
dizer “eu avisei”, afinal, é um dos grandes prazeres da vida, pelo menos
para um intelectual.
Mas
a opinião contrária não me irrita mais como na minha juventude. Estou
perfeitamente satisfeito que as pessoas devem pensar diferente de mim
sobre os assuntos e nunca faria esforço algum para convertê-las aos meus
pontos de vista — a menos que elas insistissem em tentar me converter
aos delas.
Uma
das razões, além da placidez natural da idade, para a minha mudança de
atitude em relação a tais assuntos é que eu costumava frequentar uma
livraria de segunda mão com uma imensa seção sobre espiritismo. O
proprietário era comunista de linha albanesa — ele acreditava que a
Albânia de Enver Hoxha era a portadora da luz para a humanidade, uma
crença que fazia o espiritismo parecer puramente racional por
comparação. Mas negócios eram negócios, e o espiritismo vendia muito
mais do que o comunismo representado por Marx, Engels, Lenin, Stalin e
as memórias injuriosas de Enver Hoxha em muitos volumes. O livreiro
havia comprado toda a biblioteca, entre as décadas de 1930 e 1940, de
um espírita local que recentemente havia passado para o outro lado, como
a morte era chamada. Entre os volumes adquiridos estava Trinta Anos
entre os Mortos, escrito por um cirurgião espírita norte-americano, um
título que poderia não ter tranquilizado ou encorajado seus pacientes.
Havia
por várias décadas na Inglaterra um próspero clube do livro espírita,
assim como havia um clube do livro da esquerda florescente, e a livraria
do comunista oferecia para os dois grupos numerosos títulos. Um deles
teve um grande efeito na minha atitude para com o espiritismo,
tornando-me muito mais simpático a ele, mesmo que não tenha mudado minha
atitude com relação às suas crenças.
O
livro, publicado em 1940, informava aos leitores como entrar em contato
com o espírito de seus cães falecidos. O contexto histórico aqui é
muito importante: nos primeiros meses da 2ª Guerra Mundial na
Grã-Bretanha, 250 mil cães foram mortos porque acreditava-se que logo
não haveria comida suficiente para alimentá-los. Como um grande amante
dos cães, eu sabia quão doloroso deve ter sido para muitas pessoas ter
seus amados companheiros caninos abatidos, quanta culpa deve ter causado
a elas, e quanta saudade deve ter permanecido depois.
Os
seres humanos têm a capacidade de acreditar com muita convicção em
“verdades” criadas que proporcionam conforto. De modo que imaginar os
cães vivendo num plano espiritual não pareceu, em tempos de guerra, um
completo absurdo. E isso certamente não foi nocivo. Se trouxe conforto
ao luto, tanto melhor. A verdade é importante, mas nem sempre totalmente
importante: eu não tentaria privar alguém de seu consolo apenas porque
acreditava em algo falso, pelo menos se fosse inofensivo.
O
livrinho me ajudou um pouco a crescer, embora não por causa de qualquer
verdade doutrinária que contivesse. E a saudade dos donos de cães pelo
contato com seus animais era apenas o que qualquer um sente quando sofre
uma perda. O livro, então, modesto e talvez tolo como era, falava da
condição humana inevitável.
Há
um outro livreiro antiquário não muito longe do meu apartamento em
Paris, e um dia notei em sua janela uma edição inicial (1863) do Le
Livre des Médiums, de Allan Kardec. Sem nunca ter lido uma palavra de
Kardec, comprei. Na introdução, ele conta que vários espíritos o
ajudaram com a edição revisada e melhorada de seu trabalho, e eu não
consegui conter completamente um sorriso. Se ao menos os espíritos me
ajudassem dessa forma!
Mas
tive a impressão de que Kardec não era uma fraude, que ele acreditava
que uma “força” escrevia por ele e que, além disso, era um homem
inteligente. Era, de qualquer forma, bem mais honesto do que muitos
intelectuais franceses famosos da safra pós-guerra. Kardec deixou muito
claro o significado do que escreveu e, assim, abriu-se para a crítica.
Não me preocupa nem um pouco que suas ideias me soem equivocadas ao
ponto do absurdo. E não sinto nenhum desejo de tentar mudar a convicção
de qualquer um que acredite nele.
BLOG ORLANDO TAMBOSI


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