O presidente acha que tudo vai bem, mas tudo vai mal. Vilma Gryzinski para a edição impressa de Veja:
“A
Argentina é, por excelência, um exemplo de uma economia cuja estagnação
relativa não parece derivar do clima, de divisões raciais, de pobreza
malthusiana ou de atraso tecnológico. Sua sociedade, não sua economia,
parece estar doente. Seu sistema político não funciona de forma a gerar
produtividade. E essa doença na sociologia e no governo prejudica a
saúde da economia argentina.” Quantos brasileiros não se identificam
completamente com o diagnóstico feito sobre nosso vizinho do sul por
Paul Samuelson? Brasil e Argentina compartilham a sina do
desenvolvimento interrompido. E das crises que se repetem, fazendo com
que os vizinhos se vigiem mutuamente e, conforme a fase, pensem: “Pelo
menos não estamos tão mal quanto eles”.
No
momento, é nossa vez de dizer isso. Por mais precário que seja o arame
sobre o qual nos equilibramos, a situação dos argentinos, tristemente, é
mais complicada ainda.
A
análise de Samuelson, Nobel póstumo de Economia, foi revisitada por um
artigo recente do El País com um título cruelmente veraz: “A crise
perpétua da Argentina”. O estágio atual inclui contração de 10% na
economia por causa do coronavírus, a “quarenterna” que nem bloqueou o
vírus nem preservou a atividade econômica, inflação de quase 40%,
derretimento do peso, reservas esgotadas, e, na condição de maior
devedor do Fundo Monetário Internacional, sem ter para onde correr,
emissão de moeda a todo o vapor.
O
excepcionalismo argentino é regularmente estudado por economistas
perplexos com um enigma: como, tendo dado uma arrancada tão promissora, a
Argentina acabou fazendo tão pouco com tanto. “A Argentina iniciou o
século XX como um dos lugares mais ricos do mundo. Em 1913, era mais
rica do que a França ou a Alemanha, quase duas vezes mais próspera do
que a Espanha e com renda per capita quase tão alta quanto a do Canadá.
Até os anos 1930, os franceses usavam a frase ‘riche comme un argentin’
para denominar alguém absurdamente rico”, diz um número da Latin
American Economic Review dedicado a tentar descascar o abacaxi do enigma
argentino. Tendo o ano de 1928 como marco do fim da belle époque dos
Pampas, a Argentina demorou até o ano 2000 para dobrar seu PIB per
capita. No mesmo período, países como Estados Unidos, Canadá e o Reino
Unido multiplicaram sua renda por quatro. Alemanha, França e Suécia
quintuplicaram a deles. Itália e Espanha sextuplicaram. Japão, Taiwan e
Coreia do Sul mais do que decuplicaram. A do Brasil, como comparação
inevitável, cresceu quase cinco vezes.
A
maldição argentina desafia a lógica e proporciona momentos de ironia
não planejada, como o do discurso feito na semana passada, por Alberto
Fernández, o peronista “bonzinho” eleito presidente via poderosa chefa
Cristina Kirchner. Entusiasmado com o autoelogio às ações de seu
governo, ele prometeu que nada o fará “claudicar no empenho para dar
racionalidade e sensatez ao debate dos problemas argentinos”. Talvez
nenhuma outra promessa do inesgotável acervo argentino tenha sido tão
delirantemente irrealizável.
Publicado em VEJA de 10 de março de 2021, edição nº 2728
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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