A nova lei teve interesse zero em reduzir a burocracia alucinada da máquina estatal, sua vagabundagem e seus insultos grosseiros à lógica mais elementar. J. R. Guzzo para a Gazeta do Povo:
Normalmente,
pelo mundo afora, quando os Congressos aprovam uma nova lei por
maioria-gigante, fica claro para todo mundo que os parlamentares estão
entendendo a sua função — todos, ou quase todos, viram que havia uma
clara vontade da opinião pública em determinar isso ou aquilo, e fizeram
o que a população estava mandando que fizessem.
No
Brasil já aconteceu isso uma ou outra vez; não é impossível. Mas quase
sempre, na vida como ela é, grandes aprovações são sinal seguro de
grandes safadezas. Acaba de acontecer, mais uma vez, com a nova Lei da
Improbidade Pública — que, acredite se quiser, torna ainda mais fácil do
que é, para os corruptos, meter a mão no dinheiro do erário.
Os
deputados capricharam: a coisa foi aprovada por 408 votos, com o apoio
entusiasmado do PT e dos partidos que apoiam o governo. É nessas horas
que se comprova, além de qualquer dúvida, o quanto o povo brasileiro
está vendido. Havia uma lei sobre a improbidade no serviço público —
essa que já permite toda a colossal roubalheira que está aí desde sempre
—, mas os políticos não estavam contentes com ela. Achavam dura demais;
precisavam, na verdade, de uma lei nova, que tornasse praticamente
impossível a punição dos ladrões.
Enquanto
a população do país necessita desesperadamente de reformas que não saem
nunca, os congressistas decidiram socar em cima da sociedade, em
“regime de urgência”, uma lei nova, a seu gosto — algo que poderia ser
chamado de "Lei de Incentivo à Corrupção". Mais um pouco, a aprovação
seria por unanimidade.
Passa
pela cabeça de alguém que a grande maioria da opinião pública esteja
exigindo, com urgência urgentíssima, medidas mais suaves para combater a
prática do crime na vida política brasileira? Por acaso alguém acha que
o problema do Brasil seja o excesso de rigor no combate à roubalheira? É
o exato contrário — e é exatamente isso o que eles fizeram.
O
líder do governo, num momento de sinceridade descontrolada, chegou a
dizer que o projeto era “uma prioridade”. O próprio presidente Jair
Bolsonaro se declarou a favor. O PT votou 100% junto com o seu inimigo
“genocida”. Está claro, mais uma vez, quem fica com prejuízo quando eles
todos se entendem tão bem assim.
É
claro que vieram com uma desculpa de primeira classe para explicar a
nova lei — os “gestores” públicos estão “engessados”, dizem eles, pelos
mecanismos de fiscalização existentes na legislação atual. Há
dificuldade demais para fazer as coisas. A lei irá “destravar os
empecilhos” que “paralisam o serviço público” — e por aí se vai.
Ninguém
diz um pio, é claro, sobre a nova regra que, a partir de agora, exige
que fiquem provadas as más intenções do ladrão na hora de roubar. Até
agora, para ofender a lei, bastava o ato de roubar; agora também é
preciso provar que o sujeito quis roubar.
O
serviço público é um desastre, como todos sabem há décadas; salvo as
exceções, tudo ali funciona pior que na vida privada. Mas a nova lei
teve interesse zero em reduzir a burocracia alucinada da máquina
estatal, sua vagabundagem e seus insultos grosseiros à lógica mais
elementar.
A
papelada que oprime a população, com todos os seus alvarás, licenças,
certidões, permissões, atestados, firma reconhecida e outras aberrações,
continua igualzinha. A bandidagem, em compensação, fica com a vida
ganha.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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