Ex-prisioneira iraniana conta como o principal candidato na eleição de hoje estava presente quando ela foi torturada nos anos oitenta. Vilma Gryzinski:
Muitos
iranianos – talvez mais de 50% – nem irão votar, frustrados com a falta
de alternativas. Mas os que forem, muito provavelmente escolherão como
novo presidente Ebrahim Raisi, um dos principais representantes da mais
dura das linhas, defensor ardoroso do regime teocrático.
Raisi
é tão extremista que chegou a ser cotado como sucessor de Ali Khamenei,
o líder supremo, designação ridícula, mas inteiramente verdadeira para
descrever o poder final do chefe de todos os chefes na hierarquia
religiosa e política. Ainda é possível que ele venha a ocupar o posto
mais importante de todos, quando Khamenei, de 82 anos, morrer.
Raisi
fez carreira no judiciário, que hoje chefia. “Carreira no judiciário”
significa que começou como promotor quando a revolução dos aiatolás
derrubou a monarquia e participou ativamente da repressão às
organizações esquerdistas que apoiaram o levante, imaginando que teriam
uma chance de chegar ao poder.
Foi
um confronto brutal, com atentados seguidos, principalmente do
Mujahidin do Povo, grupo ultra-esquerdista. Num desses atentados, Ali
Khamenei quase perdeu um braço.
Farideh
Goudarzi era militante do Mujahidin e tinha 21 anos quando foi presa
juntamente com o marido, em 1983. Estava grávida de oito meses. Ela
contou ao Daily Mail que foi torturada antes e depois do parto, feito na
prisão atrás de um tribunal de justiça da cidade de Hamedan
Na
primeira sessão de tortura, numa cela cheia de fios elétricos, ela foi
colocada numa cama e esbofeteada. Os torturadores usaram os fios para
chicoteá-la nas palmas das mãos.
Havia entre sete e oito pessoas na cela. Supervisionando tudo, ela viu Ebrahim Raisi, que era o promotor do tribunal de Hamedan.
“Quando
meu filho tinha 38 dias, certa noite um grupo de guardas e
interrogadores entrou na minha cela, procurando por documentos”, disse
ela.
“Pegaram meu filho e o jogaram no chão”.
O
marido de Farideh foi condenado à morte por Raisi e executado segundo o
método desenvolvido na época, para dar conta do movimento. Colocados em
empilhadeiras, os prisioneiros eram enforcados em grupos de seis em
guindastes.
Ninguém
sabe exatamente quantas pessoas foram mortas na grande onda de
repressão, que durou alguns anos. Há cálculos que falam em 30 mil.
Mahmoud
Royaee disse ao Mail que foi um desses condenados, mas conseguiu
escapar porque a família pagou por sua vida. Enquanto esteve preso, viu
um dos companheiros ser condenado por Raisi exatamente no momento em
que, durante a sessão no tribunal, estava tendo um ataque epilético.
“Estava
meio paralítico e tinha perdido parte da memória. Se Raisi não
estivesse no comitê da morte, ele não teria sido condenado”, acredita
Royaee.
Raisi
deve ser eleito um momento crucial para o Irã, que aguarda o governo de
Joe Biden cumprir a promessa de reativar o acordo nuclear pelo qual o
país se compromete a não fabricar a bomba atômica.
As garantias são duvidosas, motivo pelo qual Israel, a parte mais afetada, foi contra o acordo e Donald Trump o repeliu.
Para
apressar o atual governo americano, o regime iraniano disse que já tem
seis quilos de urânio enriquecido a 60%. Ou seja, está bem mais perto de
poder fazer uma bomba atômica, que requer de nove a doze quilos de
urânio enriquecido – aquele em que o isótopo U235 é artificialmente
aumentado para propiciar a fissão atômica – a 90%.
O
reatamento do acordo nuclear pelos Estados Unidos trará um alívio nas
sanções econômicas que mesmo os países que não haviam rompido com o
entendimento tinham que cumprir, sob risco de punições, inclusive multas
altíssimas, na justiça americana.
Apesar
das circunstâncias econômicas periclitantes, o regime iraniano está
fortalecido pela vitória que conseguiu na Síria, ao salvar o regime de
Bashar Assad. Também continua a ter controle sobre o Líbano, via
Hezbollah, e reativou a aliança com o Hamas, em Gaza.
O
confronto com Israel, que pela doutrina dos aiatolás tem que ser
varrido do mapa, é de longo prazo. Tem altos e baixos. Recentemente, o
ex-chefe do Mossad, Yossi Cohen, confirmou em detalhes como o serviço
secreto israelense, num de seus golpes mais espetaculares, conseguiu
capturar em 2018 todos os documentos do programa nuclear iraniano
guardados em cofres num depósito aparentemente comum.
Vinte
agentes recrutados pelo Mossad – nenhum deles israelense – tiveram sete
horas para arrombar 32 cofres, escanear o material para ser enviado
digitalmente e depois extraí-lo fisicamente do país num único caminhão,
carregado com 50 mil documentos.
“Foi
importante poder dizer à liderança iraniana: ‘Caros amigos, 1) vocês
foram infiltrados; 2) nós estamos de olho em vocês; 3) acabou a era das
mentiras”, disse Cohen.
Segundo ele, nenhum dos agentes foi identificado, embora alguns tenham sido retirados do país.
Completando
as declarações de Cohen, sem precedentes numa organização que nunca
confirma seus triunfos – nem suas derrotas -, o ex-presidente iraniano
Mahmoud Ahmadinejad, proibido pelos aiatolás de se candidatar de novo,
afirmou que a inteligência israelense conseguiu recrutar o chefe da
contraespionagem iraniana.
“Como
eles conseguiram tirar todos os documentos do país?”, provocou
Ahmadinejad, denunciando uma “quadrilha corrupta” nos serviços de
informações.
Foi
por declarações assim que Ahmadinejad acabou vetado como candidato a
presidente. Outros candidatos, comparativamente mais moderados, também
não passaram pelo crivo do Conselho de Guardiães, que tem a palavra
final. O veto tirou qualquer resquício de credibilidade da eleição
presidencial.
Ebrahim Raisi deve ter mais de 60% dos votos. Por sua biografia, vai deixar o tosco Ahmadinejad no chinelo.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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