O Brasil chegou lá, com o confronto entre dois populistas em 2022. Vilma Gryzinski, na edição impressa de Veja:
Em
que momento se ferrou o Peru?” A frase de Mario Vargas Llosa logo na
abertura do clássico Conversa na Catedral virou uma espécie de mantra
para quem quer entender, às vezes com exasperação ou até desespero, os
traços em comum que amarram a América Latina no fundo do poço do atraso
político (todo mundo sabe, ou intui, que o fabuloso escritor usou uma
palavra mais crua do que “ferrou”, permitida pela liberdade literária). A
eleição de Pedro Castillo como novo presidente peruano deu uma nova
urgência à pergunta de Vargas Llosa — que arriscou sua reputação e a
tranquilidade que os 85 anos deveriam lhe garantir para fazer campanha
por Keiko Fujimori, derrotada por algumas dezenas de milhares de votos.
A
eleição peruana teve a característica de colocar no segundo turno dois
populistas, um de esquerda e uma de direita — peculiaridade que se
desenha no horizonte político do Brasil para o próximo ano. Pedro
Castillo parece ter saído de um laboratório do populismo
latino-americano: filho de agricultores analfabetos, professor de escola
rural e profeta da redenção de um povo esquecido e espezinhado pelas
elites, mas fadado a cumprir um destino messiânico assim que deixar que
Deus, a pátria e o marxismo-leninismo à peruana iluminem seu trajeto
glorioso. O apelo às pulsões emocionais onde operam sentimentos como
religiosidade e patriotismo é uma das características mais orgânicas dos
populistas, seja ele um cholo que continua na lida de seus animais em
sua aldeia andina, como Pedro Castillo, ou um bilionário que saiu de um
palácio de mármore em Nova York, como Donald Trump.
“É
o populismo o código genético do povo latino-americano, o destino de
sua cultura, insensível à tragédia venezuelana, à decadência argentina,
ao totalitarismo cubano, ao sultanismo nicaraguense? Os
latino-americanos não podem viver a política a não ser como religião?”
Estas perguntas retóricas, mas tão fundamentais, foram feitas pelo
historiador italiano Loris Zanatta, estudioso do populismo que escreveu,
no The New York Times, um dos melhores artigos já publicados sobre o
assunto. Diante da vastidão intimidadora do tema, o professor da
Universidade de Bolonha arrisca até resumir o que é essa geleia geral
que não nos deixa — ou a qual não queremos deixar. “A melhor definição”,
escreveu ele, “é a minimalista: o populismo é a nostalgia de absoluto,
homogeneidade, unanimidade, mais além da filiação ideológica formal à
direita ou à esquerda. Daí seu impulso totalitário de apagar os limites
entre indivíduo e comunidade, política e religião.”
A
recompensa emocional e o senso de pertencimento que essa dissolução de
fronteiras traz são os mesmos entre os que pregam uma estrela vermelha
no peito para entoar gritos de guerra na Avenida Paulista e os que
empunham uma bandeira verde-amarela numa passeata de motos. O
“militantismo” desbragado, passional, irracional, transborda da vida
real para o mundo virtual, onde o show de extremismos virou uma
banalidade corriqueira. Todos querem certezas religiosas. Como Santiago
Zavala, o alter ego de Vargas Llosa em Conversa na Catedral, temos
muitas respostas à pergunta: “Em que momento se ferrou o Brasil?”.
Publicado em VEJA de 23 de junho de 2021, edição nº 2743
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário