Domingo
O Estado de S. Paulo deu duas páginas ao candidato a presidente,
Luciano Huck, para a transcrição de uma conversa com Rebecca Henderson,
“a professora mais disputada de Harvard”, autora de Reimagining
Capitalism in a World on Fire, em que “faz a defesa do capitalismo e da
necessidade de ajustá-lo para contemplar imperativos sociais e
ambientais”.
Rebecca
Henderson é o arquétipo do corte “light” da esquerda americana
“liberal”, um tipo viciado em autoflagelação que acredita sinceramente
que é a lógica da moralidade e não a do poder que rege a História.
O
perigo desse engano é que, embora inspirado pela vontade de servir a
democracia ele a trai na sua característica mais essencial,
revolucionária e inovadora que é ter a recusa de ilusões moralistas com a
natureza humana – tão enfaticamente destacada nos Artigos Federalistas –
como a única inspiração para a construção das suas instituições.
Rebecca
sonha com “reinstalar, sem o racismo e a misoginia, aquele capitalismo
americano dos anos 50 e 60”. Mas, no seu diagnóstico, não foi a
revogação, na virada do século 20 para o 21, da orientação antitruste
que Theodore Roosevelt imprimira um século antes à democracia americana,
para enfrentar em termos chineses a competição com os capitalismos de
estado socialistas, que determinou o desvio mortal em que entrou o
capitalismo democrático e, com ele, as democracias ocidentais. Não foi
instilada de fora a atual doença do capitalismo. É tudo apenas e tão
somente um desvio moral em que embarcaram os empresários e os CEOs do
Ocidente cuja ganância foi espicaçada por Milton Friedman e seus
seguidores, bastando portanto, para corrigi-lo, ajustar-lhes o foco para
outra direção.
Meio
século de recordes diários de fusões e aquisições, cada vez mais dentro
daquele “modelo Facebook/Amazon” de “fairplay meritocrático”, criando
monopólios em cada setor de atividade na porrada, achinesando salários,
rasgando conquistas trabalhistas que custaram milênios de sangue, suor e
lágrimas, acabando com a liberdade de escolha de patrões e
fornecedores, com a diversidade de opinião e, finalmente, no atual
estágio, com a mera possibilidade de existir e fazer transações na praça
pública eletrônica onde acontece a economia do mundo a quem ousar
desafiar os donos do FATGA (Facebook, Apple, Twitter, Google e Amazon),
não dizem nada à Henderson e aos seus correligionários.
Não são sequer mencionados.
Basta
“elevar o patamar das relações entre CEOs e seus funcionários”, tratar
dos desequilíbrios de gênero e raça dentro das empresas, reescrever as
“missões” dos grandes conglomerados corporate dentro do parâmetro ESG
(Environmental, Social and Governance), que todos os efeitos diretos
desse novo ambiente que está aí, capaz de criar fortunas (e poderes de
corrupção) maiores que os PIBs de todos os países mais ricos do mundo
menos três, desaparecerão. Eles acreditam não apenas que o tipo
psicológico do tycoon não é incompatível com o de um filósofo moralista
como, também, que é possível induzir a fabricação de híbridos de Tim
Cook com Madre Tereza de Calcutá.
E
então entramos na pior de todas as formas de negacionismo. Não, não é o
totalitarismo chinês que está na outra ponta dessa competição! A
transformação da mentalidade dos empresários há de chegar lá. Ha de
furar a muralha de fogo da internet de Xi Jinping. Há de suplantar o
medo do tiro na nuca. No fim “a democracia ha de vencer”…
As
empresas de ponta desse credo fazem-me lembrar os países da antiga
Cortina de Ferro. Quanto mais absoluto era o poder daquelas ditaduras e a
submissão do povo pela violência e pelo terrorismo de Estado, mais
“populares” elas ficavam, mais incluíam o apodo “democrático” em seus
nomes – todas, sem exceção, chamavam-se “República Popular Democrática
Não Sei das Quantas” – e mais lições de democracia ditavam aos países
democráticos.
Pois
hoje, quanto mais “ganhos de escala” esses monopólios e quase
monopólios conseguem achinezando salários em casa, explorando trabalho
vil nos favelões do mundo, prendendo gente nas fábricas de pedaços de
coisas das armadilhas de supply chain; quanto maiores os iates e os
jatos dos “gênios” endeusados por esse tipo de “desempenho” que as
bolsas festejam e os acionistas agradecem, mais dão lições sobre como
“envolver” e “motivar funcionários” em “processos criativos” para formar
empresas “com consciência social”, (até porque, cá entre nós, esse é o
novo passaporte que se requer para continuar lucrando e “consolidando”
em vez de “ser consolidado”).
Na
arena ambiental rola coisa parecida. Os EUA obrigam-se a implementar os
acordos internacionais que assinam. A China, propriedade de um senhor
armado de bombas atômicas até os dentes que ninguém elegeu mas ja se
atribuiu essa posse vitaliciamente e no momento dedica-se ao genocídio
dos Uigur enquanto arquiteta o dos habitantes de Hongkong e Formosa, não
se obriga a seguir lei alguma, nacional ou internacional. É a predação
selvagem e sistemática de todos os oceanos do mundo com suas frotas
pesqueiras piratas que define o compromisso de Xi Jinping com o meio
ambiente, não a sua assinatura no pé do Acordo de Paris. Mas para os EUA
esse acordo implica banir a nova tecnologia de fracking de maciços de
xisto que transformou o país de maior importador em maior exportador de
combustíveis do mundo, proporcionou a queda vertiginosa do preço do gás
e a volta de indústrias que pensava-se que tinham emigrado para sempre
para a China onde sujar para produzir não custa nada.
Essa é a realidade. Mas para o “liberal naïve” americano tudo parece apenas uma questão moral doméstica…
A
democracia ainda sobrevive nos livros e até nas leis mas vai sendo
expulsa da vida real até dos estadunidenses. Sem a de escolher patrões e
fornecedores, nenhuma outra liberdade fica em pé. E negar essa
evidência é o que elege os trumps da vida. O que faz diferença concreta
na distribuição da renda, diz-nos a História, e em especial a história
americana de que poucos americanos envolvidos nesse debate se lembram em
voz alta, é uma única coisa: a relação de poder que o Trabalho
estabelece sobre o Capital desde que o governo garanta um nível elevado
de competição na economia. Um pouco de patrulhamento moral pode ajudar
os tim cooks a terem um pouco mais de pudor? Eu duvido, mas vá lá. Mas
aumento de competição não se consegue “elevando o patamar da relação”
entre os CEOs e os funcionários que restarem empregados depois dos
“ganhos de escala” todos, mas proibindo a formação de monopólios. Só que
para poder dar-se esse luxo, é preciso antes recusar o livre ingresso
dos produtos dos monopólios das chinas da vida, especialmente os que
mais notoriamente exploram trabalho quase escravo, roubo de patentes e
outros comportamentos pouco republicanos.
Cuidado, candidato! O mar, agora, é o dos grandes tubarões!
Democracia
e monopólio são realidades mutuamente excludentes. Ou nos unimos para
trazer o padrão chinês para o do estado de direito, obra exclusiva da
Civilização Ocidental, ou achinezamos também os nossos sistemas
políticos.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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