Ninguém ainda descobriu no planeta um jeito tão eficaz de concentrar renda quanto a fórmula usada para administrar as contas públicas no país. J. R. Guzzo via Oeste:
É
raro passar um dia inteiro sem que apareçam novas provas e contraprovas
de que o Brasil, qualquer que seja o governo que está montado em
Brasília, é comandado na vida real por um partido único, que não aceita a
alternância no poder, não presta contas (não de verdade) do que faz, e
dirige o país como o rei Luís XV dirigia a França de antes da Revolução
de 1789. Talvez não seja bem o que a ciência política chama de
“partido”, e sim uma casta social — a dos altos funcionários do Estado,
em todas as suas modalidades, e de tudo o que vem pendurado embaixo
deles. Dá na mesma, em todo caso.
Quem
paga fisicamente por isso não é “o país” — são os brasileiros vivos
neste ano de 2021, e o preço que pagam vai aumentando cada vez mais à
medida que se desce na escada social. Os que têm dinheiro, posição e
conhecimento pagam, mas não sofrem para pagar; quaisquer que forem as
decisões da classe estatal, que manda em tudo, eles continuam vivendo
bem, dos pontos de vista material e social. Já os que têm menos sofrem a
cada real que a máquina do Estado lhes cobra, num sistema que vai
ficando cada vez pior quanto menos dinheiro o sujeito tem no bolso, mais
modesto é seu trabalho e menos patrimônio está registrado em seu nome. É
a distribuição de renda ao avesso.
Não
há nenhum mistério nisso. Quando uma população inteira trabalha para
pagar R$ 2 trilhões de impostos num único ano, como em 2020 — isso
mesmo, 2 tri, com “pandemia” e tudo, mais um repique de R$ 50 bilhões
nos quebradinhos; quando o grosso desse dinheiro é gasto para sustentar o
aparelho do Estado, sendo que o grosso desse grosso é pago em salários,
benefícios e aposentadorias para os funcionários públicos, com dinheiro
à vista; e quando o grosso dos salários, enfim, vai para o bolso dos
funcionários que ganham mais, não é preciso ser nenhum Einstein para
concluir quem é que está embolsando a riqueza do país. O pobre,
matematicamente, tem de ficar no prejuízo.
Acrescentem-se
à folha de pagamento as fortunas que são pagas para os fornecedores —
empreiteiras de obras que cobram cinco vezes o valor real do que
constroem, “prestadores de serviços”, empresas dos familiares de quem
manda, ou dos seus amigos, ou dos amigos dos amigos. A parte que é gasta
com as necessidades reais da população são os trocados que sobram de
toda essa montanha de dinheiro. Resultado: ninguém ainda descobriu no
planeta um jeito tão eficaz de concentrar renda quanto a fórmula usada
para administrar as contas públicas do Brasil. Tira-se de todos os que
estão sentados à mesa, ricos, médios e pobres; entrega-se só a alguns a
maior parte do que foi arrecadado. Na hora de pagar, obviamente, a cota
do rico dói muito menos no bolso do que a cota do pobre. Na hora de
receber, a cota do pobre é uma piada.
É
assim, desde sempre, que o Brasil é governado. Os que têm a vida ganha
brigam entre si como se fossem inimigos de morte, e até que são mesmo.
Mas o ódio de uns pelos outros não tem nada a ver com nenhuma questão
ligada aos interesses da população brasileira, e sim, unicamente, com a
satisfação dos próprios desejos. “Eu quero que você saia do governo”,
pensam eles, “porque eu quero o seu lugar.” É só isso. Não há ideias nem
princípios aí, embora todos finjam que têm as duas coisas. Só há a
vontade de mandar. Pode ganhar o lado “A”, pode ganhar o lado “Z” — os
derrotados continuam com 100% de todos os seus privilégios, e o cidadão
que sustenta a ambos continua no seu papel de sempre: trabalha, paga e
não reclama. São as duas embalagens da mesma mercadoria, ou as duas alas
do mesmo partido — o Partido Antipobres do Brasil, que vai da extrema
direita ao extremo PT.
O
bonito da história é que todos os que estão na vida pública, ou fazem
parte do mundinho de elite que existe à sua volta, garantem em seus
grandes manifestos à nação que não pensam em outra coisa a não ser nos
pobres. É natural; é assim que se elegem, e é assim que se mantêm
pendurados nos galhos mais altos da árvore do Estado. Mas não há nada,
realmente nada, que acabem dando de verdade para a turma de baixo, a
começar pelo fato de que “o governo” não tem um tostão furado para dar a
ninguém; todo o dinheiro do seu caixa é dinheiro que pertence à
população, na forma dos impostos que pagou. A casta estatal só “dará”
alguma coisa na hora em que cortar as suas despesas, mudar a qualidade
do gasto público e entregar ao cidadão, de alguma forma, o dinheiro que
cortou. Isso só vai acontecer no dia em que o camelo da Bíblia passar
pelo buraco de uma agulha.
O
desastre permanente causado pelos proprietários do Estado brasileiro é
visto em praticamente tudo o que acontece no país. Dias atrás, em mais
um exemplo clássico de quem ganha e quem perde nesse jogo, a Ford, após
100 anos de presença na história industrial do Brasil, anunciou que não
vai fabricar mais nada por aqui; fechou definitivamente a quitanda e não
vai abrir outra vez. A morte da Ford brasileira não tem nada a ver,
como andam dizendo, com a dificuldade para concorrer com o carro
elétrico, ou com a negativa do governo de lhe dar benefícios fiscais. A
empresa morreu, muito simplesmente, porque seus acionistas acham que não
faz sentido manter sua operação num país que lhe impõe impostos
dementes — e torna o lucro impossível. Junto com a Ford, morrem os
empregos e a renda de 5.000 brasileiros, nenhum deles milionário nem
funcionário público. Para os altos burocratas que decidem sobre a vida
das empresas e de seus trabalhadores, tanto faz — com Ford ou sem Ford
eles continuam tendo exatamente a mesma vida, os mesmos salários e as
mesmas vantagens. A empresa, para eles, nunca foi uma indústria de
automóveis e caminhões; era exclusivamente uma fonte de arrecadação,
como ocorre com qualquer outra atividade produtiva neste país. Se não
pode mais pagar, a Ford que se exploda; o dinheiro vai ser arrancado de
outros. E se der algum problema, um dia? O “governo” resolve.
É
tudo assim. Um dos escândalos mais agressivos do Brasil é o fato,
aceito como a coisa mais normal desta vida pelo mundo oficial, pela
mídia e pelas elites, de que 50% da população não é servida por rede de
esgotos; no Nordeste, existem áreas onde o número chega a 75%. Não há
esgotos por uma única razão: só a máquina estatal está autorizada a
fazer esgotos no país, e a máquina estatal não faz o serviço que é paga
para fazer. A área, como se sabe, é propriedade de empresas estaduais e
municipais — ou seja, pertence a políticos, partidos, familiares,
clientes, fornecedores etc. Agora, diante da nova lei de saneamento que
pretende abrir o setor à iniciativa privada, para que possa ser feito o
que os barões do Estado nunca fizeram, as gangues que mandam na área
querem uma prorrogação de mais 30 anos nas concessões das suas “empresas
locais” de águas e esgotos. “Não abrimos mão da nossa estatal”, disse
uma dessas autoridades, num Estado do Nordeste, como se estivesse
fazendo uma declaração de princípios para a História. Mentira. O que
eles querem realmente dizer é o seguinte: não abrem mão das suas verbas,
dos seus empregos e das vantagens econômicas que tiram desse pesqueiro.
A última coisa que pretendem é fazer esgoto.
No
grande tema do momento, às vezes o único — a covid — acontece a
mesmíssima coisa: os pobres que vão para o diabo que os carregue.
Governadores, prefeitos, médicos domesticados, o funcionalismo em peso e
quem mais existe no compartimento da primeira classe, exigem, como uma
questão de fé religiosa, todos os rigores do “distanciamento social”.
Não passa pela cabeça de nenhum deles que o sistema de trens
metropolitanos de São Paulo, por exemplo, transporta todos os dias cerca
de 8 milhões de passageiros — só no metrô, são mais de 5 milhões. No
Rio, os números variam entre 1,5 milhão e 2 milhões de pessoas
transportadas diariamente. E daí? Essa gente toda não existe; sua única
função é pagar imposto — e sustentar “hospitais de campanha” como os que
foram recentemente fechados no Rio, onde o Estado vinha doando à
malandragem médico-burocrática diárias de R$ 12,5 mil reais para cada
paciente internado. Isso mesmo: R$ 12,5 mil reais por dia e por cabeça,
todo santo dia. É a maneira preferida, na casta estatal, de tomar
posição “em favor da vida”.
Quando
um ministro do STF fala em suas aflições com a questão “social”, depois
de encher o bucho com lagosta que você paga, confiscar vacinas
anticovid para si e para sua família e exigir os serviços de um pobre
coitado, também pago pelo cidadão, para lhe puxar a cadeira ao sentar-se
nas sessões plenárias, a única reação compreensível é dar uma
gargalhada. Não exijam muito de Suas Excelências, porém. Todos os que
pertencem a esse universo e que militam no Partido Antipobres do Brasil
são exatamente iguais — ou seriam, se pudessem. São eles de um lado, e a
população brasileira do outro. Todo o resto é pura conversa-fiada.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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