"Bancada negra" da Câmara de Vereadores - de esquerda, obviamente - agora quer "cancelar" o hino rio-grandense. Reportagem de Rafael Azevedo para a Gazeta:
Num
ato que lembrou os recentes protestos de jogadores da NFL, vereadores
negros do PSOL permaneceram sentados em seus assentos durante a execução
do “Hino Rio-grandense”, o hino do estado do Rio Grande do Sul, durante
a cerimônia de posse da câmara de Porto Alegre.
A
controvérsia toda foi causada por um verso: “povo que não tem virtude
acaba por ser escravo”. Para os integrantes da chamada “bancada negra”,
composta por membros do PT, PSOL e PCdoB, o trecho seria racista.
Segundo o vereador Matheus Gomes, do PSOL, “não temos obrigação nenhuma
de cantar verso que diz que o nosso povo não tem virtudes, por isso foi
escravizado”. Gomes é mestrando em História pela Universidade Federal do
Rio Grande do Sul, instituição que em 2018 decidiu deixar de tocar o
hino, justamente pelo suposto racismo do trecho.
Regente refém
O
hino foi composto em 1838, durante a Guerra dos Farrapos, conflito que
por dez anos colocou separatistas da então Província de São Pedro do Rio
Grande do Sul contra as forças do Império do Brasil. Teria sido feita
às pressas, quando os revolucionários tomaram a cidade de Rio Pardo, e
sua melodia composta por um maestro negro, Joaquim José de Mendanha,
regente da banda do II Batalhão de Fuzileiros do Exército Imperial,
capturada pelos rebeldes do Exército Farroupilha durante o episódo, que
se tornou conhecido desde então como a Batalha do Barro Vermelho pela
quantidade de sangue que derramado sobre o solo local.
De
acordo com algumas versões, Mendanha teria então sido obrigado por
Antônio de Souza Netto, um dos líderes da Revolução, a compor a melodia
de um hino para o movimento, sob encomenda de Bento Gonçalves, o
principal líder separatista, enquanto era mantido como prisioneiro de
guerra; já outras versões alegam que ele teria sido pago para fazê-lo, e
existem indícios de que teria de fato recebido pagamentos. Depois de
cinco dias ele teria entregue a melodia pronta, baseada numa valsa do
célebre compositor austríaco Johann Strauss (o pai, e não o filho,
conhecido hoje em dia por obras como “Danúbio Azul”), e a ela se
adicionou uma letra escrita por um dos capitães rebeldes, Serafim de
Alencastro.
Alterações no hino
O
trecho controverso, no entanto, não fazia parte dessa primeira versão.
Na verdade, ele só veio a ser incluído na terceira versão da música,
feita em 1934, durante o centenário da Revolução Farroupilha.
O
poeta e militar Francisco Pinto da Fontoura, dito “Chiquinho da Vovó”,
foi escolhido pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul
para escrever uma nova versão do hino, que havia sido adotado
extra-oficialmente pelos gaúchos depois do fim do conflito, e a melodia
foi adaptada para a nova letra por Antônio Corte Real.
Este
também nem foi o único trecho que causou controvérsia; em 1966, durante
a Ditadura Militar, o hino foi oficializado pela lei 5.214/1966. O
deputado Getúio Marcantonio pediu, na ocasião, que a segunda estrofe,
que dizia “Entre nós, reviva Atenas, para assombro dos tiranos; sejamos
gregos na glória e, na virtude, romanos”.
A
despeito dos rumores que diziam que o trecho incomodava as autoridades
da ditadura por sua menção à democracia ateniense e a “assombro dos
tiranos”, existe praticamente um consenso nos dias de hoje que o trecho
foi removido simplesmente por não ter qualquer relação com a história do
estado ou seu povo, que simplesmente deixava de fora o trecho durante
suas execuções.
A discussão atual
A
questão causou um acalorado debate no cenário político gaúcho. Para o
vereador Ramiro Rosário, do PSDB, o termo “escravo” não tem qualquer
relação com a escravidão dos negros, mas sim com o conceito na
Antiguidade greco-romana, na qual um escravo era alguém que, ao
contrário dos cidadãos livres, não tinha direitos políticos nem
participava das tomadas de decisões.
Rosário
menciona ainda os lanceiros negros, corpos de soldados compostos por
ex-escravos libertos que participaram da Revolução Farroupilha ao lado
dos separatistas, para descartar qualquer tipo de racismo na letra, e
acusa os partidos de esquerda de estarem se utilizando do tema para
criar um conflito ideológico.
Em
entrevista para o jornal gaúcho Zero Hora, o historiador Ivo
Bittencourt também aponta o problema na interpretação do termo
“escravo”, que, segundo ele, estaria sendo tomado literalmente, quando
na realidade estaria ali num sentido figurado: “O Hino Rio-grandense
valoriza o cultivo de princípios virtuosos para que um povo se mantenha
em liberdade, através da continuidade da capacidade de decidir segundo
seus próprios valores. A utilização da palavra "escravo" está no sentido
figurado, sendo o vício entendido como o oposto da virtude, como o
fator escravizante”.
A
vereadora Comandante Nádia, do DEM, chegou a pedir, durante a sessão em
que ocorreu o protesto, que aqueles contrários ao hino deveriam se
retirar da Câmara dos Vereadores durante sua execução: “Atitudes dessa
forma desrespeitosas, de indisciplina, não estão [permitidas] aqui
dentro dessa Câmara Municipal de Vereadores. Nós temos, sim, que fazer a
correção dos atos para que isso não aconteça dentro da Câmara que
legisla Porto Alegre.” Já Mônica Leal, do PP, apresentou um projeto de
lei que tornaria obrigatório “postar-se de pé e em posição de respeito
durante a execução do Hino Nacional e do Hino do Estado do Rio Grande do
Sul".
Lanceiros negros
O
Movimento Tradicionalista Gaúcho, uma das principais organizações que
defende e fomenta as tradições culturais e históricas do Rio Grande do
Sul, declarou através de sua Diretora de Manifestações Individuais e
Espontâneas, Julia Graziela Azambuja dos Santos Dutra, que o trecho em
questão “não tem nada de discriminatório”, e apenas “diz respeito a uma
submissão da então Província de São Pedro ao Império”. Dutra, que é
negra, acrescentou que “O MTG reconhece a importância dos negros e dos
próprios Lanceiros Negros na revolução e na construção de nossa
identidade regional. Desviar o foco dessa luta desvia o foco daquilo que
deve realmente ser discutido. Enquanto a comunidade negra, na qual
integrantes do próprio movimento se inserem, se prende a este tipo de
polêmica, perde um precioso tempo de ser protagonista de uma nova
história”.
A
questão dos lanceiros negros permanece envolta numa discussão ferrenha e
espinhosa, sem qualquer previsão de ser encerrada. Os farroupilhas
começaram a conceder a alforria a negros quando viram que não tinham
tropas suficiente para combater de igual para igual o governo imperial,
mas apenas concediam liberdade aos negros dos adversários, continuando a
ter seus próprios escravos.
As
tropas do Império, por sua vez, responderam à criação destes pelotões —
que chegaram a totalizar 10 mil homens, quase um terço do total do
exército farroupilha — com a Lei da Chibata, que sentenciava todo negro
capturado pelas tropas do governo servindo aos rebeldes a uma punição
que poderia chegar a 1000 chicotadas.
A
participação dos lanceiros no conflito culminou com um episódio trágico
que ficou conhecido como o Massacre dos Porongos, no qual mais de 100
combatentes negros foram chacinados e outros tantos reescravizados
durante uma emboscada das tropas imperiais. A questão até hoje desperta
uma polêmica feroz. Segundo muitos autores, os lanceiros foram mortos
depois de serem traídos pelo próprio general, Davi Canabarro, que,
apesar de ter liderado o ataque, conseguiu escapar ileso. Diz-se que
eles teriam até mesmo sido desarmados antes do massacre.
A história do compositor
Mendanha,
o compositor-refém da melodia do hino, nasceu em 1801 na cidade mineira
de Ouro Preto. Um mulato liberto que logo cedo foi para o Rio de
Janeiro, então capital do então Reino de Brasil, Portugal e Algarve,
para perseguir seu fascínio pela música, conseguiu uma vaga na Capela
Real do Rio de Janeiro, onde eram realizadas as cerimônias religiosas
celebradas por Dom João VI e sua família, até que com 23 anos se viu sem
o emprego, depois do retorno do monarca para Portugal, e se alistou no
exército, quando supostamente teria conhecido o tenente Luís Alves de
Lima e Silva — futuro Duque de Caxias — de quem acabou se tornando um
amigo por toda a vida.
Assumiu
o posto de maestro da Banda Militar do chamado II Batalhão de Caçadores
de Primeira Linha das forças imperiais no Rio Grande do Sul, deslocado
sob o comando do coronel Guilherme Lisboa para combater os guerrilheiros
independentistas rio-grandenses.
Depois
da já mencionada Batalha do Barro Vermelho, foi capturado, como diria o
relato do general Antônio de Souza Netto: “Fizemos presa de uma rica
banda de música, que felizmente ficou intacta”. Depois de ser utilizado
para animar os bailes dos soldados farroupilhas, recebeu a encomenda do
hino, então republicano, e posteriormente estadual, que acabou por ser
indissociavelmente associado ao seu nome.
Depois
de passar um ano como refém dos insurgentes, conseguiu novamente sua
liberdade e fixou-se em Porto Alegre, onde regeu diversas orquestras e
corais, além de dar aulas.
Apesar
de ter composto o hino farroupilha, nunca deixou de ser um fervoroso
defensor do Império, a ponto de retornar a Rio Pardo para dar um enterro
digno aos restos de seu ex-comandante, e de reger um “Te Deum” em
homenagem a Lima e Silva, então ainda Barão, depois que o título de “O
Pacificador” lhe fora concedido por Dom Pedro II pela vitória no
conflito.
Fundou
a Sociedade Musical Porto-Alegrense, e era a figura central do cenário
musical da capital da província, presença obrigatória em todas as
solenidades, como a inauguração do Theatro São Pedro. Em 1877, seu velho
amigo imperial o homenageou com a Ordem da Rosa. Já tinha se tornado
uma figura afável e quase folclórica, célebre por estar sempre vestido
de maneira impecável — fato registrado numa crônica de Achylles
Porto-Alegre.
Morreu
aos 85 anos, em 1885, sem jamais deixar de, nas palavras do historiador
Walter Spalding, deixar de ser “modesto, muito simples, espírito
profundamente liberal embora imperialista”, cuja vida resumiu-se à
atividade musical — embora, paradoxalmente, nas palavras do mesmo
Spalding, só seja lembrado hoje em dia pelo hino, pois “tudo quanto
compôs se perdeu ou perdeu sua identidade ao cair em domínio público,
passando para o campo do folclore”.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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