MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

sábado, 16 de janeiro de 2021

O paradoxo da linguagem "inclusiva"

 



O jargão de gênero neutro é uma idiotice com o único propósito de identificar os progressistas como “virtuosos”. Tom Slater, da Spiked, para a Oeste:


Em um golpe pelo “progresso” que ninguém pediu, políticos nos Estados Unidos estão em guerra pela linguagem neutra. Como parte de um movimento por “diversidade e inclusão” liderado pelos democratas, termos de gênero neutro em pouco tempo podem ser eliminados das regras da Câmara dos Representantes. Não apenas expressões como “homem de negócios” e “homem do mar” estão com os dias contados, ao que parece, mas também todos os substantivos e pronomes com gênero definido.

Depois de uma reação negativa por parte dos republicanos, Jim McGovern, democrata e presidente do Comitê de Regras da Câmara — que apresentou as propostas com a presidente da Casa, Nancy Pelosi, há duas semanas —, criticou a “extrema direita” por fazer alvoroço sobre as propostas destinadas a tornar a Câmara mais “inclusiva” ou “sucinta”. Mas, enquanto trocar “ele” ou “ela” por um pronome neutro, como as regras propõem, possivelmente simplificaria um pouco as coisas, o mesmo não pode ser dito pela troca de “sobrinha” e “sobrinho” por “sobrinhe”, nem “tia” ou “tio” por “tie”, como também é proposto.

Antes, as discussões sobre linguagem neutra se concentravam em garantir que o vocabulário do cotidiano não fosse excessivamente sexista nem prepotente — usando docente, em vez de professor, por exemplo, para evitar sugerir que esse seja um trabalho para determinado sexo. Agora, ao que parece, o jargão neutro trata de eliminar por completo o sexo da nossa fala e das nossas interações, referindo-se a todos com expressões abrangentes e, muitas vezes, desajeitadas.

O manual proposto para a Câmara tem sido considerado mais inclusivo em relação às pessoas trans. Que a maior parte delas preferiria, supostamente, ser reconhecida no gênero do qual sentem fazer parte parece não ter passado pela cabeça dos democratas. Mas, até aí, a nova febre da linguagem neutra não tem a ver com inclusão de fato, como se costuma dizer.

Muitas organizações sérias se expuseram à zombaria ao fazer pronunciamentos absurdos sobre linguagem, quando na verdade deveriam estar se ocupando de outras questões. No ano passado, a ONU publicou uma declaração encorajando as pessoas a abandonar termos com o gênero definido, incluindo “namorado”, “namorada”, “marido” e “esposa”, “se não tiver certeza do gênero de alguém ou estiver se referindo a um grupo”. Isso, dizia o texto, “ajudaria a criar um mundo mais igualitário”.

Tais prognósticos, até não muito tempo atrás, eram reservados às associações estudantis e aos funcionários de universidade. Em 2017, noticiou-se que a Cardiff Metropolitan University tinha lançado um novo código de conduta, tornando obrigatórias alternativas politicamente corretas para expressões com o gênero definido. Se você estiver em dúvida, “esforçado” deveria ser substituído por “diligente”; “trabalhadores” por “força de trabalho” e “homem de confiança” por “braço direito”.

A incorporação desses contorcionismos politicamente corretos por parte da classe política é, na melhor das hipóteses, um pouco idiota. A linguagem de fato muda com o tempo, refletindo uma mudança de atitudes. Mas é absurdo sugerir que a liberação das mulheres, por exemplo, fará progressos consideráveis banindo da memória o uso de “os homens” para se referir à humanidade. Além disso, as pessoas trans que os democratas parecem tão empenhados em “incluir” provavelmente têm coisas maiores com que se preocupar do que se alguém usar a palavra “tia” numa plenária da Câmara dos Representantes.

Essas propostas parecem ser basicamente sobre divulgar as virtudes daqueles que as elaboram. Elas não fazem nada de concreto para melhorar a vida das pessoas. E existe um lado perverso nisso. Atos ostensivos de promoção da virtude meio que pressupõem que todos os demais não são virtuosos — que precisamos ser repreendidos ou conscientizados por figuras superiores, quer gostemos ou não.

Nesse sentido, a linguagem “inclusiva” na verdade é um marcador social que distingue o woke — aquele que está ciente dos acontecimentos da cultura e da política — do não woke. Na verdade, o fato de tantos termos neutros serem basicamente impronunciáveis demonstra quanto são excludentes. Vejamos “latinxs” — a alternativa neutra e não binária para “latino/latina”. Para a vasta maioria das pessoas, trata-se de um erro de digitação.

Na verdade, expressões como essa quase não são conhecidas, quanto mais usadas, por aqueles a quem se destinam. De acordo com o Centro de Pesquisa Pew, apenas 23% dos norte-americanos de origem hispânica tinham ouvido falar do termo “latinx” e só 3% o usam para se referir a si mesmos. Enquanto a palavra se tornou popular nos círculos ativistas, mais de três quartos da população “latinx” não faz ideia de que ela exista.

Esse é o paradoxo da linguagem inclusiva: ela não tem nada de inclusiva. Ela exclui a vasta maioria, além de confundir aqueles que deveria “ajudar”. E que isso tenha se tornado uma questão em si revela quanto a nossa cultura política tem um foco míope e psicótico no policiamento da linguagem da virtude performativa.
 
BLOG  ORLANDO  TAMBOSI

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