A resposta mais provável, até o momento: o vírus teve origem em pesquisas com manipulação genética no Instituto de Virologia de Wuhan. Dagomir Marquezi para a nova edição da revista Oeste:
Você sabe como surgiu a covid-19?
Ninguém
sabe. O regime comunista chinês escondeu a própria existência do novo
coronavírus por um mês, enquanto a doença se espalhava pelo mundo. A
Organização Mundial da Saúde, que cansou de demonstrar subserviência ao
governo de Pequim, pediu por meses a entrada de uma delegação no país
para descobrir como tudo havia começado. A China respondeu com uma
barreira de exigências e regras que adiaram até agora o início dos
estudos. E assim, um ano depois, ninguém sabe ainda como surgiu o vírus
que mudou nossa vida.
Finalmente
a autorização para o início das investigações foi dada no último dia 11
pelo governo chinês. Dez “caçadores de vírus”, originários de quatro
continentes, vão se encontrar em Wuhan, o berço da pandemia, a partir
deste dia 14. Farão, é claro, o que as autoridades permitirem. Isso se o
regime comunista não inventar alguma nova barreira de última hora.
Afinal,
o presidente Xi Jinping impediu (segundo a agência Associated Press)
universidades, agências médicas e laboratórios chineses de compartilhar
qualquer informação sobre o novo coronavírus com o resto do mundo. Quem
tentou furar esse bloqueio foi preso ou simplesmente desapareceu. A
origem do problema mais grave do mundo atual permanece no escuro.
Enquanto
a China não liberava o grupo de pesquisadores da OMS, o escritor
norte-americano Nicholson Baker resolveu fazer sua própria investigação.
Pesquisou todos os relatórios científicos que encontrou e conversou com
dezenas dos maiores especialistas do mundo em pandemias. Reuniu suas
conclusões num longo artigo para a New York Magazine. Manteve a mente
aberta para qualquer possibilidade. Até para a hipótese de a covid-19
ter surgido espontaneamente, o que é defendido por cientistas sérios e
competentes.
Ele
não encontrou nenhuma suspeita de que a covid-19 tenha sido planejada
como arma biológica. Mas, segundo o levantamento de Baker, o que
aconteceu foi definitivamente um acidente. Depois de ouvir tantos
depoimentos qualificados, o escritor ganhou muita certeza para afirmar
que o novo coronavírus foi “desenhado” na China. E que escapou de um
laboratório.
A
covid-19 pode ter sido consequência de uma escola de pesquisas
biológicas chamada de gain of function (ou “ganho de função”). A ideia é
pegar um vírus existente e manipular sua genética para que ele se torne
cada vez mais letal. E, assim, criar as condições para que a cura da
doença causada por ele seja possível.
Parece
inacreditável. Mas é isso mesmo que ocorre nas pesquisas de “ganho de
função”, movidas a muito dinheiro: laboratórios criam doenças inéditas,
cada vez mais devastadoras, para encontrar a cura delas. O vírus Sars
surgiu em 2003 na China a partir de experimentos em que se misturavam
códigos genéticos de vírus que infectam morcegos e seres humanos. O
mesmo aconteceu uma década depois com o Mers (agente da síndrome
respiratória do Oriente Médio) quando foram misturados genes de vírus
presentes em morcegos e camelos.
Por
mais bem guardados que sejam esses novos vírus artificiais, acidentes
acontecem. “Um tubo de ensaio cai, uma agulha se quebra, um rato morde,
um frasco ganha o rótulo errado”, resume Baker. Só nos Estados Unidos,
segundo investigação do jornal USA Today, “mais de 1.100 incidentes
envolvendo bactérias, vírus e toxinas que representam riscos
significativos de bioterrorismo foram reportados aos órgãos reguladores
federais entre 2008 e 2012”.
Trata-se
de casos descobertos, investigados e corrigidos dentro do possível
pelas autoridades norte-americanas. Não é o que aconteceu na China — que
preferiu até agora esconder seus erros debaixo do tapete. Declarou a
cientista Alina Chan, que trabalha no Instituto de Tecnologia de
Massachusetts e na Universidade Harvard: “Não sei se encontraremos as
provas de um erro, especialmente se foi um acidente de laboratório. […] O
governo chinês também restringiu seus especialistas de procurar pelas
origens do Sars-CoV-2 [responsável pela covid-19]. Nesse passo, a origem
do vírus deverá ser enterrada pela passagem de tempo”.
Os
especialistas que apostam na hipótese de vazamento do vírus de um
laboratório apontaram o mais forte suspeito: o Instituto de Virologia de
Wuhan, onde se realizam trabalhos para criar coronavírus híbridos a
partir de morcegos. O jornalista Sam Husseini, do Consortium News,
lembrou logo no início da pandemia que existem onze laboratórios de
nível BSL-4 nos Estados Unidos. A sigla indica um estabelecimento “de
segurança máxima e nível 4 de biossegurança, usado para estudar os
patógenos (vírus transmissores de doenças) mais perigosos conhecidos”.
Husseini declarou num simpósio: “Só estou perguntando: é total
coincidência que esta epidemia tenha acontecido na única cidade da China
que tem um laboratório de nível BSL-4?”. Ele se refere justamente a
Wuhan e seu Instituto de Virologia.
O
professor Botao Chao (da Universidade de Tecnologia do Sul da China)
publicou, também no início da pandemia, um relatório notando que em
Wuhan se localizam não só o Instituto de Virologia como um Centro de
Prevenção e Controle de Doenças. Esse centro fica a pouco mais de 100
metros do “mercado molhado” — de onde, segundo o próprio governo chinês,
o vírus se espalhou.
É
praticamente certo que a primeira origem da covid-19 seja o vírus de um
morcego. E, segundo o professor Chao, o mercado de onde a doença se
espalhou não vendia morcegos. Ele acha muito improvável que um morcego
que vive em cavernas no sul do país tenha penetrado numa metrópole. “O
coronavírus provavelmente é originário de um laboratório em Wuhan”,
concluiu o professor. E defendeu a ideia segundo a qual laboratórios que
lidam com doenças tão perigosas deveriam ser afastados de lugares
densamente povoados. (Wuhan tem 11 milhões de habitantes.) Logo, o
relatório do dr. Botao Chao desapareceu da internet.
O
autor Nicholson Baker estudou a história do coronavírus desde que
começou a afetar cães, vacas e porcos no início da década de 1970. A
partir de 2003, o vírus passou a matar cozinheiros e outros envolvidos
no tráfico e no consumo de carne de animais selvagens em Guangzhou, na
China. De lá se espalhou para 30 países e territórios, matando mais de
800 pessoas.
No
caso da China, são dois os fatores que levam ao desastre. O primeiro
são laboratórios mal equipados e mal protegidos. O segundo é o costume
chinês de comer “qualquer coisa que se mova”. Animais selvagens e
domésticos de várias partes do mundo são oferecidos ainda vivos (em
condições extremamente cruéis) e mortos na frente dos fregueses, ao ar
livre. Os “mercados molhados” chineses (e de outros países da Ásia)
empilham sangue, fezes e urina de espécies diferentes, criando o caldo
de cultura ideal para o nascimento de vírus mutantes. Quando um
laboratório biológico está instalado na vizinhança, temos a tempestade
perfeita.
Seria
injusto falar apenas dos chineses no desenvolvimento de vírus
modificados, também conhecidos como “quimeras”. Dois cientistas
norte-americanos, Ralph Baric e Boyd Yount (da Universidade da Carolina
do Norte), dedicaram a vida a inocular doenças em cobaias sãs e misturar
suas células com as de outras espécies, inclusive humanas. Em 2007,
Baric declarou que o mundo havia entrado na “idade de ouro da genética
do coronavírus”. Um colega dele disse a Nicholson Baker que tinha “medo
de abrir os refrigeradores” do instituto de pesquisa onde trabalhavam.
Ralph Baric e a dra. Shi Zhengli, do Instituto de Virologia de Wuhan,
iniciaram pesquisas conjuntas a partir de 2015.
O
apelido da dra. Shi Zhengli é “mulher-morcego”. Ela usa redes para
capturar centenas de espécimes do mamífero em cavernas do sul da China.
Colhe saliva, sangue, mucosas anais e pedaços de suas fezes. A partir de
2012, a dra. Zhengli passou a levar a coleta de material para o
laboratório viral em Wuhan. Quando foi descoberto o vírus que seria
conhecido como Sars-CoV-2, a revista Scientific American a entrevistou.
A
cientista falou abertamente: “Eu nunca esperava que esse tipo de
situação acontecesse em Wuhan, na China central”. Afinal, as amostras
eram colhidas em cavernas localizadas a 1.500 quilômetros da cidade. Sua
suspeita se tornou uma simples questão de lógica: o vírus teria
escapado de seu laboratório? “Isso perturbou minha cabeça. Não consegui
dormir por dias.” Mas logo o ministro da Educação da China baixou o
toque de silêncio. E a dra. Shi Zhengli, a “mulher-morcego”, negou o que
tinha dito à revista.
Independentemente
dos dados que a equipe da OMS possa recolher — ou não — de sua pesquisa
em Wuhan, existe uma lição a ser aprendida, enquanto há tempo. O artigo
de Nicholson Baker encerra-se com uma questão ética fundamental para
nossa sobrevivência. “Temos de parar de caçar novos agentes de doenças
exóticas na natureza, mandá-los para laboratórios e manipular seus
genomas para provar quão perigosas elas podem se tornar para o ser
humano. Os morcegos querem apenas ficar pendurados em suas cavernas e
não ser incomodados por gente carrancuda em roupa de astronauta que quer
enfiar cotonetes em seu traseiro.”
Uma
coisa é incentivar o avanço científico. Outra é cultuar cegamente a
ciência como uma deusa intocável, sem refletir sobre as consequências de
muitos de seus atos. Cientistas envolvidos no “ganho de função” estão
abrindo a caixa de Pandora dos segredos mais elementares da vida por
motivos fúteis e egoístas. Criar doenças para vender vacinas — ou
potenciais armas biológicas — não parece ser uma atividade exatamente
nobre. O espectro de quase 2 milhões de mortos pela covid-19 aguarda a
revelação dos responsáveis pela tragédia.


Nenhum comentário:
Postar um comentário