Já tivemos, nas federais, o uso de um sistema operacional brasileiro chamado Kurumin. Infelizmente o seu inventor, Carlos Eduardo Morimoto, virou hare krishna e largou a informática. Coluna de Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo (quanto ao blogueiro aqui, vai ser difícil largar o Chrome):
Quem
tem memória dos anos 90 e 2000 assistiu a uma mudança considerável no
conhecimento de informática que os usuários de computadores têm. Hoje
vemos os especialistas aconselharem os pais a não darem smartphones para
criancinhas. Ora, como espertofones (chamemo-los assim) nada mais são
que computadores de bolso, temos que os especialistas instruem os pais a
não fazerem aquilo que muitas vezes lhes é o mais cômodo, ou seja, dar
um computador para uma criancinha. Nos anos 90, uma recomendação dessas
pareceria bizarra. Um computador era, ao mesmo tempo, um objeto caro
demais e sofisticado demais para uma criancinha.
Nos
anos 90, existia o móvel do computador. Uma mesa invariavelmente feia,
com um lugar próximo ao nosso joelho direito para pôr o CPU, uma bandeja
debaixo da mesa para pôr o teclado e o mouse (este sobre um tapetinho
onde rolava a bolota na barriga do mouse), e acima a tela, igual a uma
antiga TV de tubo. Não tinha som nem tirava foto: caixas de som e webcam
eram firulas que só os mais arrojados comprariam.
Os
velhos em geral não aderiram à novidade, e internet foi por muito tempo
uma coisa de jovem. Os brasileiros que têm entre 30 e 50 anos terão
aprendido a mexer em computadores usando um desses sistemas
operacionais: Windows 95, Windows 97, e o Windows XP (lançado em 2001). O
Windows 95 foi pioneiro na introdução do computador doméstico. Quando
as pessoas passaram a ter um computador em casa, tratava-se de uma
máquina que vinha com um Windows 95 instalado, e até hoje muita gente,
ao comprar um computador, dá por óbvio que ele vem com um Windows.
A
difusão do computador doméstico deu origem ao império de Bill Gates,
dono da Microsoft, empresa dona do Windows. Coisa de vinte anos depois,
esse império começou a decair com a difusão de uma tecnologia ainda mais
nova. Era o espertofone, um híbrido de telefone com computador, que
acabou se tornando cada vez mais um computador com aspecto de telefone.
Em vez de botões de verdade, o espertofone traz uma tela com botões
desenhados, a qual pode ser manipulada como se fosse uma lousa. A
Microsoft ficou para trás: tentou o WindowsPhone, mas foi descontinuado.
Toda
essa intuitividade dispensa conhecimentos de informática, e hoje vemos
velhinhos usando esses computadores com naturalidade e desenvoltura. Um
octogenário, supostamente refratário a novas tecnologias, já me disse:
“Não uso internet para nada, faço tudo por WhatsApp!”. E daí estarmos
nesse estado de coisas: criancinhas, velhos, agricultores arcaicos,
todos de computador na mão, sem entender bem o que significa isso. Eu
tive aula de informática quando criança; hoje, as crianças conhecem as
telas desde bebês, e devem encará-las como parte da natureza se não
forem ensinadas do contrário.
Os
benefícios da difusão dessa tecnologia são inegáveis e incalculáveis. É
possível que o WhatsApp tenha feito mais pela alfabetização no Brasil
do que muita escola pública. Por outro lado, como esse processo
aconteceu acompanhado por muita ignorância, a população não faz ideia de
que tem em mãos um artefato sofisticado que pode ser usado contra si.
É como se aos poucos fosse se normalizando o porte de armas, sem que as pessoas soubessem atirar.
Windows para as massas, Apple pra meia dúzia
Mesmo
entre os letrados que, por força da profissão ou por gosto, aderiram à
computação desde os anos 90 ou 2000, há um grau considerável de
ignorância acerca do funcionamento e da história do computador
doméstico. Eu diria que o senso comum, nesse nicho, é o seguinte:
Windows é quase que sinônimo de computador, Apple é a alternativa dos
endinheirados prafrentex, e Linux é coisa de CDFs esquisitões. No
entanto, se você perguntar o que é Windows, o que é Apple e o que é
Linux, a pessoa que diz essas coisas tem grandes chances de não saber
responder. E esse desconhecimento é algo que causa falta de controle
sobre o seu próprio computador.
Esses
três nomes designam tipos de coisas diferentes. Windows é um sistema
operacional da empresa Microsoft, de Bill Gates. A Apple é mais confusa:
é o nome da empresa do finado Steve Jobs, mas o é nome usado para
designar os produtos da empresa, tal como Gillette designa lâminas de
barbear da marca Gillette. “Apple” está para “Microsoft” assim como o
“Windows” está para o “MacOS”, que é o sistema operacional dos
computadores da Apple. Enquanto a Microsoft se desvincula da fabricação
de computadores e põe seu sistema operacional (o Windows) em várias
marcas de computador (Dell, Positivo, Samsung, LG etc), a Apple vende
sempre tudo junto, ou seja, computador e sistema operacional.
Vamos
dar uma recuada. Que é um sistema operacional? É software, uma obra do
intelecto, que não tem existência material. Hardware é a matéria que
compõe o computador. Dito rudemente, hardware é o que você chuta e
software é o que você xinga.
O
mercado de computadores domésticos tinha tudo pra ficar assim: todo
mundo usando o sistema operacional Windows, pirateado ou original, em
computadores de qualquer marca, e meia dúzia de prafrentex usando o
computador da Apple que vem com o sistema operacional da Apple. Este
custa uma fortuna, e não é pra todo mundo. Steve Jobs ficou rico
explorando esse filão. Bill Gates levou o resto do mundo, tem o seu
sistema operacional ensinado como padrão desde a escola, e processa as
empresas que usarem cópias piratas. Fica, sem dúvida, mais rico ainda
explorando esse quase monopólio.
Era assim, até um cavalo paraguaio não-capitalista embaralhar a corrida e terminar nos espertofones do povo.
Faltou
explicar o que é Linux. A rigor, é um núcleo, o pedaço de um sistema
operacional responsável por ligar o intelecto à matéria. Todo sistema
operacional tem um núcleo. O MacOS e o Windows têm cada qual o seu
núcleo. O núcleo Linux foi inventado avulso, sozinho, por um cidadão
finlandês chamado Linus Torvalds, em 1991.
Do
outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, Richard Stallman
desenvolvia um sistema operacional chamado GNU desde o começo da década
de 80, e toda a sua dificuldade consistia em criar justamente o núcleo.
Linus Torvalds deixou Richard Stallman usar gratuitamente o seu núcleo
Linux, e assim surgiu o GNU/Linux – responsável também pela fama de
coisa de esquisitão. Do GNU/Linux surgiu uma família de sistemas
operacionais, sendo cada qual chamado “distribuição”.
Dois caminhos do desapego ao dinheiro
Linus
Torvalds (1969) e Richard Stallman (1953) têm em comum o desapego ao
dinheiro. Ambos dão valor à aventura intelectual por si mesma, e, ao
contrário de Bill Gates (1955) e Steve Jobs (1955-2011), não têm
interesse na carreira empresarial. Isso é especialmente importante em
programação, porque os códigos desses dois capitalistas são fechados:
são segredo comercial. Uma vez que você escolha divulgar seu código para
todo mundo, todos podem copiá-lo e aprimorá-lo. Stallman costuma
comparar a escrita de códigos à culinária: se você divide a receita, as
pessoas podem inventar mais coisas. E ainda na seara da culinária,
podemos tirar uma implicação moral: todo mundo deveria saber o que vai
na própria comida, para não ser envenenado. Assim, Stallman é um
ativista contra as Big Techs, desde antes de serem Big. Anticapitalista,
sua filosofia é a do software livre, que deve ficar sempre aberto sem
ser comercializado.
Linus
Torvalds não é um anticapitalista, e é o ícone do código aberto: ele
defende que os códigos sejam abertos para qualquer um poder fazer o que
bem entender com eles, inclusive fechá-los e ganhar dinheiro com isso.
Quem aproveitou isso foi ninguém menos que a Google.
Android para as massas, iPhone para meia dúzia
Em
2007, a Apple lança o primeiro espertofone tal como o conhecemos, ou
seja: um celular com internet praticamente sem botões, com tela sensível
ao toque. Trata-se do iPhone. Mantendo a sua tendência de vender as
coisas como um compacto, confundindo software com hardware, o iPhone é o
objeto físico que tem um sistema operacional chamado iOS.
Em
2008, a Google lançou o Android, um sistema operacional para variadas
marcas de espertofones, cujo núcleo é Linux. Assim, a Google ocupa no
mercado de espertofones o lugar que a Microsoft ocupa no de
computadores, com a diferença de que o conceito de pirataria não se
aplica ao Android, já que é código aberto.
A
Google se beneficiara do código aberto criando versões abertas, a serem
inspecionadas por quem quer que fosse, e em seguida inventando as
fechadas. Veja-se, por exemplo, o famoso navegador Chrome: ele é a
versão fechada feita a partir de um outro navegador, aberto, chamado
Chromium. Você pode experimentar baixá-lo e usá-lo no lugar do Chrome.
E eu com isso?
Dado
esse assanhamento todo das Big Techs, é prudente irmos nos tornando
gradualmente menos ignorantes em relação aos computadores, e nos
inteirarmos das opções. No universo do software livre e do código
aberto, sempre haverá alternativas ao código fechado. No espertofone,
pense na possibilidade de usar, por exemplo, um navegador que prometa
privacidade, como o Duck Duck Go e o Brave. Quer usar Facebook e
Twitter? Faça isso sem baixar os aplicativos.
No
computador há mais opções do que nos espertofones, que já nasceram
viciados por monopolistas. Os sistemas baseados em GNU/Linux não são
difíceis de usar como antigamente. (Costuma-se recomendar para
iniciantes o Linux Mint.) Uma das interfaces gráficas usadas no Linux é a
mesma do Android, a Gnome. Além das questões de privacidade (que são
menos prementes em computadores do que em espertofones), há duas razões
em favor dos sistemas baseados em GNU/Linux: uma é o aprendizado, porque
a imensa quantidade de opções termina por nos ensinar as partes que
compõem um sistema operacional, e outra é pecuniária. Se você tiver a
liberdade para escolher um sistema operacional enxuto, seu computador
vai demorar mais para obsolescer. O meu mesmo já tem 8 anos.
Por
fim, vale destacar a importância que o GNU/Linux pode ter para
governos. Já tivemos, nas federais, o uso de um sistema operacional
brasileiro chamado Kurumin. Infelizmente o seu inventor, Carlos Eduardo
Morimoto, virou hare krishna e largou a informática.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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