O crescimento dos movimentos populistas, de esquerda ou de direita, justifica-se pelo aproveitamento do clima de incerteza, insegurança e medo, pois oferecem uma narrativa de pertença à tribo. Artigo da professora Patrícia Fernandes para o Observador:
Em Homo Deus. História Breve do Amanhã,
Yuval Noah Harari formula um argumento fundamental para a compreensão
da tecnologia algorítmica como ameaça ao paradigma liberal: “Um
algoritmo que analise cada um dos sistemas que constituem o meu corpo e o
meu cérebro pode saber quem eu realmente sou, aquilo que sinto e o que
quero. Uma vez desenvolvido, um algoritmo semelhante poderá substituir
os eleitores, os clientes e os observadores. Nessa altura, o algoritmo é
que saberá, e terá sempre razão e a beleza estará nos cálculos.”
Para
compreender o argumento de Harari, devemos clarificar o conceito de
Liberalismo-com-letra-maiúscula como o projeto filosófico que assenta no
seguinte pilar, legado por Immanuel Kant: a liberdade individual do ser
humano. De acordo com Kant, só o homem é capaz de se emancipar das suas
contingências e agir livremente, isto é, em conformidade com a Razão.
Ao postular esta ideia, Kant consagrou o espírito da modernidade
enquanto emancipação biológica: apesar de elemento da criação, o homem
apresenta uma dignidade especial face aos restantes seres por ser capaz
de se emancipar das suas condições biológicas. E aqui remontam todas as
construções políticas que caracterizam a civilização ocidental dos
últimos dois séculos: direitos humanos, limitação do poder político,
Estado de Direito, responsabilidade jurídica, direito de voto ou
liberdade de expressão.
O
segundo pilar do Liberalismo, ainda na senda de Kant, corresponde à
ideia de universalidade: todos os seres humanos partilham aquela
dignidade especial, independentemente do seu contexto histórico, social
ou político (é isto que justifica uma resposta política única:
considerando a especial natureza humana, o projeto liberal deve ser
aplicado universalmente). Neste sentido, o Liberalismo prossegue a
reivindicação de universalidade da mensagem cristã: há algo que todos os
homens partilham e que permite superar todas as diferenças. É assim que
Richard Rorty
defende a ideia de que o esforço liberal deverá ser o de “conseguir ver
outros seres humanos como sendo ‘um de nós’ e não como ‘eles’.”
Esta narrativa liberal foi eficaz durante duzentos anos, apesar das reações pontuais que a desafiaram, e permitiu a consolidação de um mundo globalizado e a declaração de direitos universais assentes no postulado do homem livre. Mas tem vindo a ser sucessivamente questionada pela dinâmica científica que denuncia as suas limitações biológicas: Harari demonstra como o algoritmo põe a nu um homem que se pensa livre, mas que é suscetível a controlo tecnológico; e os mais recentes conhecimentos ao nível da microbiota intestinal desafiam a ideia de processo puro de decisão racional. A narrativa liberal criou-nos livres, mas a biologia parece não concordar. E o mesmo acontece com o postulado da universalidade.
Na verdade, os estudos nas áreas da biologia e psicologia evolutiva
têm revelado o modo como os nossos cérebros evoluíram a partir da
colaboração de grupo e da oposição entre “nós” e “eles” enquanto
mecanismo biológico de sobrevivência (o trabalho de Robert Sapolsky
é particularmente relevante neste domínio). E se há períodos em que as
narrativas filosóficas nos fazem domar esse património evolutivo (como
aconteceu com o Liberalismo), o instinto biológico continua presente,
como Jack London tão bem retrata em O apelo selvagem:
“E
aprendia tudo isto não apenas por experiência, mas porque despertavam
nele instintos há muito adormecidos. Todas as gerações domesticadas
desapareciam dentro de si. De maneira vaga retrocedia à infância da
raça, ao tempo em que cães selvagens vagueavam em alcateias pela
floresta virgem caçando eles mesmos o seu sustento. (…) Eram eles que
avivavam dentro de si a vida de outrora; e as velhas manhas timbradas na
hereditariedade da raça eram as manhas atuais de Buck. Vinham até ele
sem esforço ou revelação, como se tivessem sido sempre suas.”
Como pensar a política atual a partir daqui?
Enquanto
o paradigma liberal se revelou capaz de melhorar materialmente as
nossas vidas, os impulsos biológicos foram silenciados. Mas a partir do
momento em que esse paradigma se fragilizou, regressaram os apelos
selvagens de que a modernidade nos tentou emancipar. Parece que podemos
colocar camadas de civilização sobre este bicho humano e, ainda assim,
os mecanismos biológicos continuam presentes – despertando em tempos de
incerteza, insegurança e medo.
E
é precisamente esse o contexto das duas últimas décadas: a sociedade
securitária após o 11 de setembro, a crise económica e a quebra da
confiança institucional, as evoluções tecnológicas que a maioria de nós é
incapaz de compreender e o sentimento de calamidade ambiental aumentam o
sentimento de incerteza, insegurança e medo. A consequência é a
ativação dos nossos mecanismos de defesa que nos conduzem ao apelo da
tribo. Não admira, por isso, o crescente tribalismo político.
A
esta luz, torna-se possível uma compreensão mais profunda de dois
fenómenos políticos atuais: a lógica agressiva das políticas
identitárias e o crescimento dos movimentos populistas. De facto, na
medida em que colocam no espaço público uma narrativa de pertença
tribal, as políticas identitárias, de esquerda ou de direita, geram
reações equivalentes do outro lado: o “nós” que nos é apresentado
atira-nos para um “eles” (trincheira sem redenção) e fomenta a
tribalização do espaço público. Já o crescimento dos movimentos
populistas, de esquerda ou de direita, se justifica pelo aproveitamento
do clima de incerteza, insegurança e medo, pois oferecem uma narrativa
de pertença à tribo que produz um sentimento de segurança e diminui os
níveis de ansiedade. Estes dois fenómenos tenderão a crescer num
contexto pandémico que promove o medo generalizado e que fomentará, por
isso, os fenómenos iliberais. Estes proliferarão rapidamente porque,
afinal de contas, a biologia não é liberal.
Professora da Universidade da Beira Interior
BLOG ORLANDO TAMBSI


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