Impichado, sem Twitter, sem amigos, sem conta no banco e possivelmente sem futuro promissor, o presidente é sugado pelo buraco negro que criou. Vilma Gryzinski:
O
mundo de Donald Trump caiu. Até o banco que tem nele um cliente
preciosíssimo – 340 milhões de dólares de dívida na pessoa jurídica –
cortou relações.
Os
dois gerentes que administravam seu patrimônio no Deutsche Bank foram
demitidos. Envolvido em operações nebulosas no passado e, mais
recentemente, nas acusações não comprovadas de cumplicidade de Trump com
a Rússia, o Deutsche não quer mais saber das Organizações Trump.
O
Signature Bank, que cuidava de ativos pessoais dele e da família,
fechou duas contas de Trump, no total de 5,3 milhões de dólares, e
comunicou: “Acreditamos que a ação apropriada seria a renúncia do
presidente dos Estados Unidos”.
Bill
Belichik, gênio do futebol americano e dos seis campeonatos ganhos pelo
Patriots, recusou a Medalha da Liberdade que receberia de Trump para
festejar uma relação que ruiu com os acontecimentos da última
quarta-feira.
Depois deles, “foi tomada uma decisão de não ir adiante com a premiação”.
“Acima de tudo, sou um cidadão americano com grande reverência pelos valores de nossa nação, liberdade e democracia”.
A
porta na cara deve ter sido uma das mais dolorosas. Trump se jactava do
apoio de Belichik e de seu ex-pupilo, Tom Brady, o marido de Gisele
Bündchen que em algum momento ele sonhou ver casado com Ivanka.
Ver inimigos pedindo sangue é uma coisa, perder amigos é diferente.
Não
vai demorar para Trump protagonizar as sempre parodiadas cenas de A
Queda, o filme formidável sobre os últimos dias de Hitler no bunker de
Berlim.
O
site Politico reconstituiu momentos de abandono geral do navio, com
Trump cercado apenas dos mais fieis entre os fieis, como Rudy Giuliani, e
sem se preocupar em montar uma equipe de advogados como fez no seu
primeiro impeachment.
O
gabinete encolheu, com as renúncias das duas ministras, Eunice Chao, a
secretária dos Transportes casada com o “traidor” Mitch McConnell, o
presidente do Senado que resistiu ao golpe de mão, e Betsy DeVos,
secretária da Educação e milionária, além do interino do Departamento de
Segurança Interna.
O
próprio McConnell, através de “fontes”, disse ao New York Times que não
vai apoiar o impeachment, proposto pela Câmara, mas o processo
facilitará que Trump seja eventualmente expurgado do Partido
Republicano,
Em
tempos normais, o clima de fim de governo já seria melancólico. Nos
tempos anormais vividos atualmente, a coisa está mais parecida com um
Titanic político, sem orquestra tocando ao fundo.
Segundo o Politico, desde que foi cassado pelo Twitter, Trump passa mais tempo ao telefone “falando com as mesmas pessoas”.
Tudo
o que se refere a tarefas rotineiras de governo está parado. O
vice-presidente Mike Pence presidiu uma reunião do comitê do corona e
falou com Trump, mas ainda não vazou se fizeram as pazes.
Pence
se rebelou contra a contestação à última formalidade de reconhecimento
da eleição de Joe Biden e foi trucidado por Trump. “Você pode entrar
para a história como um patriota ou como um maricas”, ouviu do
presidente, segundo o New York Times.
“Depois de tudo que fiz por ele…”, reclamou Pence a um interlocutor na quarta-feira que mudou tanta coisa nos Estados Unidos.
O
vice-presidente teve uma das atuações mais importantes durante as horas
caóticas em que a multidão trumpista tomou o Congresso, tanto para
interceder por mais policiamento quanto para, em seguida, reinstalar a
sessão de votação da certificação de Biden, contribuindo para a vitória
da ordem democrática.
Trump,
em compensação, ficou paralisado na frente da televisão, distante dos
telefonemas desesperados. O senador Lindsey Graham ligou para Ivanka
Trump pedindo ajuda.
Graham
foi um dos republicanos que identificaram imediatamente o tamanho do
problema criado por um assalto da turba ao Congresso. Corajosamente,
resistiu às intimidações. Resultado: trumpistas mais exaltados passaram a
ofendê-lo por presumida opção sexual, uma canalhice antes exclusiva de
adversários democratas.
Outros entraram em contato com o marido de Ivanka, Jared Kushner, que estava voltando de uma viagem ao Oriente Médio.
Filha
e genro são considerados vozes racionais no universo Trump e estavam há
semanas tentando convencer Trump a aceitar a derrota eleitoral.
Durante
as quatro horas em que uma multidão de partidários tomou de assalto o
prédio do Congresso americano, Donald Trump ficou trancado na frente da
televisão.
Setenta
pessoas da turba que invadiu o Capitólio, um prédio marcante pela
cúpula neoclássica e pelo caráter icônico, só perdendo para a Estátua da
Liberdade como símbolo dos Estados Unidos, já foram detidas.
No
total, 170 foram identificadas, em geral por fotos e vídeos que os
próprios invasores postaram, convencidos de que não estavam fazendo nada
de errado; ao contrário, estavam numa missão patriótica.
O
processo continua. Muitos dos trumpistas verão da cadeia o presidente
em quem tanto acreditaram iniciar, desmoralizado e rejeitado, uma etapa
pós-Casa Branca em que não é impossível que venha a ser, via processos
na justiça criminal, um futuro companheiro de privação de liberdade.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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