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| Homero e seu Guia (detalhe), de William-Adolphe Bougereau. |
Temíamos que, sem defensores, a grande literatura da Grécia e de Roma talvez desaparecesse do ensino médio também. E aparentemente desapareceu mesmo. Victor Davis Hanson, via National Review, para a Gazeta do Povo:
Em meio à histeria de se derrubar estátuas e rebatizar as coisas, sem pensar continuamos dando força à cultura do cancelamento.
Agora
estamos vendo tentativas de banir clássicos da literatura ocidental e
norte-americana. Esses textos canônicos de repente estão sendo
considerados racistas ou sexistas pelos moralistas.
Ou,
como disse toda cheia de si uma professora de Massachusetts nas redes
sociais: “Tenho muito orgulho de dizer que conseguimos tirar a
“Odisseia” do nosso currículo neste ano!”.
Orgulho?
Há
mais de vinte anos, eu e John Heath escrevemos “Who Killed Homer?”[Quem
matou Homero?]. Dizíamos, em tom de alerta, que o racialismo, a luta de
classes e a ideologia de gênero – juntamente com a especialização
acadêmica – estavam matando as disciplinas clássicas formais nas
universidades.
Temíamos
que, sem defensores, a grande literatura da Grécia e de Roma talvez
desaparecesse do ensino médio também. E aparentemente desapareceu mesmo.
Mas por que deveríamos ler clássicos como a “Odisseia”, de Homero?
Os
clássicos nos falam sobre os grandes desafios da experiência humana — o
amadurecimento, o aprendizado com as adversidades, a persistência e a
aceitação trágica de que geralmente estamos à mercê de forças maiores do
que nós mesmos. Todos esses assuntos são temas da “Odisseia”, de
Homero.
Às
vezes, Odisseu precisa de algo que vai além da coragem e da
inteligência – como sorte e ajuda divina. Como o velho Odisseu, depois
de dez anos voltando para casa, em Ítaca, se diferencia de sua versão
jovem na Guerra de Troia? Quais habilidades velhas e novas permitirão
que ele derrote as forças humanas e não-humanas que tentam impedir que
ele volte para casa?
A
grande literatura ocidental também questiona, e até critica, a própria
paisagem que cria. Por que Atena, deusa durona, é mais astuta do que
deuses como Poseidon?
Como
a supostamente dócil e submissa Penélope consegue ser mais esperta do
que os melhores e mais inteligentes pretendentes de Ítaca?
Por
que escravos como o pobre Eumaeus são mais sábios, generosos e leais do
que os livres e ricos? A “Odisseia” não só revela o chamado patriarcado
branco como ao mesmo tempo o questiona.
Homero
também cria arquétipos e pontos de referência – não apenas para a
produção literária futura, mas para todos nós que amadurecemos e
envelhecemos e buscamos exemplos para nos aconselhar ou encorajar.
O
espírito inquebrável de Odisseu, as ameaças à sua volta para casa e as
habilidades necessárias para se vencer essas ameaças se tornaram modelos
para obras-primas futuras, desde o “Ulysses” de James Joyce e o poema
“Ítaca”, de Constantine Cavafy, até o filme “2001: Uma Odisseia no
Espaço”, de Stanley Kubrick, “O Vento nos Salgueiros”, de Kenneth
Grahame e o filme “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, dos irmãos Coen.
Quando
falamos da fragilidade da civilização, imaginamos uma distopia
assustadora na ilha dos Ciclopes. E, se agimos como porcos, talvez um
dia nos transformemos neles – como a bruxa Circe fez com a tripulação de
Odisseu.
Grandes
artistas não criam apenas grandes histórias. Eles também o fazem em
grande estilo. Os poemas épicos de Homero, a “Ilíada” e a “Odisseia”,
foram compostos oralmente em hexâmetros heroicos, métrica que enriquece a
narrativa e o diálogo.
O
vocabulário algo arcaico do épico, o estilo formulaico e as metáforas
exuberantes nos lembram de como as habilidades artísticas são forças
multiplicadoras da trama e da caracterização.
Homero
talvez tenha sido o primeiro poeta da literatura ocidental, mas ele nos
ensina magistralmente a arte de usar flashbacks, consequências
imprevistas, personagens incógnitos e identidades trocadas.
Grandes
obras de literatura, como a “Odisseia”, de Homero, a “Eneida”, de
Virgílio, a Bíblia e o “Inferno”, de Dante servem como referências
culturais duradouras que enriquecem a forma como falamos e pensamos. Se
ignoramos os nomes das pessoas, lugares e coisas da “Odisseia” — como os
deuses do Olimpo, o cavalo de Troia, Calipso, Hades, Cila e Caribdis –
não temos base para entender a lógica e a linguagem de boa parte do
mundo atual.
Por
fim, é com a literatura clássica que aprendemos valores, alguns
incômodos e outros que nos tranquilizam. Lembre-se do destino do pastor
Melântio e do pretendente Antino. Valentões arrogantes como esses dois
não têm um final feliz na “Odisseia”. Mas os humildes e gentis
geralmente têm.
Para
Homero, a lealdade, a responsabilidade, a coragem e a paz de espírito
não são opcionais, e sim virtudes que salvam vidas. Odisseu as têm e,
portanto, volta para casa apesar de perder a tripulação.
No
mundo pagão pré-cristão da Grécia, a modalidade se expressa por meio da
morte dos inimigos e da ajuda aos amigos, e não pela misericórdia.
A
arrogância leva ao castigo divino, o que é bem diferente do perdão
proposto no Sermão da Montanha. Mas para apreciar os valores do Novo
Testamento é preciso conhecer alguns dos preceitos que ele busca
substituir.
Nossa
crise cultural atual não advém do excesso de leitura, e sim da
escassez. A maioria das pessoas que vandalizam monumentos e destroem
estátuas não sabe praticamente nada sobre os alvos de sua ira.
Cancelar Homero não é sinalização de virtude. É ignorância explícita.
Victor Davis Hanson é classicista e historiador no Hoover Institution da Universidade de Stanford.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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