O confronto de Donald Trump com a lei democrática referendada pelo povo é supérfluo. A sentença que interessa hoje é a privada, e esta já está passada. Fernão Lara Mesquita, no blog Vespeiro:
As
decisões dos últimos dias que, em fulminante sequência, foram em poucas
horas do congelamento temporário ao banimento definitivo da conta do
presidente eleito dos Estados Unidos da América em todas as plataformas
do grupo Facebook, seguido do seu banimento definitivo do Twitter e do
Youtube e, finalmente, do desligamento da rede social Parler inteira dos
serviços de “cloud computing” da Apple, do Google e da Amazon, assim
como à expulsão do aplicativo dessa rede de suas lojas monopolistas, foi
sem duvida o maior golpe já assestado contra a democracia em todos os
tempos.
Como já tive oportunidade de dizer antes, não vai parar onde já chegou…
O
confronto de Donald Trump com a lei democrática referendada pelo povo é
supérfluo. A sentença que interessa hoje é a privada, e esta já está
passada. As grandes plataformas de internet não estão suficientemente
descritas como aquilo que realmente se tornaram na legislação americana
ou em qualquer outra de país democrático, mesmo porque tal quantidade de
poder acumulado não cabe numa ordem institucional descrita como tal. O
regulador, como o marido traído, é sempre o último a saber. O tempo que o
Estado leva para entender cada nova configuração do mundo em permanente
mudança que ele está mandatado para regular é o espaço que se abre para
os “robber baron’s” ocuparem na economia e na política, os dois “nomes
artísticos” do Poder, aquele que corrompe sempre e corrompe
absolutamente quando é absoluto, que vêm junto com toda grande inovação
tecnológica disruptiva. Mas já nem este é mais o caso ha um bom tempo.
Essas empresas violam dezenas de leis de todos os países onde estão
instaladas sob as vistas grossas da autoridade porque a corrupção que
esse hiato entre a realidade e a ação do regulador proporciona, gigante
nesta que é a maior de todas as disrupções já vividas pela nossa
espécie, trabalha freneticamente no sentido de perpetuá-lo…
A
Seção 230 do Telecomunications Act de 1996, contem as famosas “26
palavras que criaram a internet”: “No provider or user of an interactive
computer service shall be treated as the publisher or speaker of any
information provided by another information content provider” (Nenhum
provedor ou usuário de serviços de computação interativos deve ser
tratado como o editor ou a fonte de qualquer informação levantada por
outro provedor de informações). Ou seja, essa lei estabelece que, no que
diz respeito à responsabilidade legal, a internet deve ser tratada como
uma banca e não como um editor de jornal. Sem ela seria impossível, por
exemplo, qualquer site de critica de restaurantes ou de queixas de
consumidores contra o que quer que seja. Essa era a boa intenção a
justificar tal lei…
Mas
de boas intenções o inferno está lotado. Em 1996 não estava claro ainda
que a mesma rede a quem aquela lei dava, de passagem, direito de
veicular o trabalho de todos os jornalistas do mundo e revende-lo sem
pagar-lhes um tostão por isso, e que, empoderando-se politicamente e
municiando-se financeiramente com isto, não encontrou mais qualquer
obstáculo para transformar-se no canal monopolístico de armazenamento,
veiculação e comercialização de todo conhecimento escrito, gravado ou
filmado ao longo de toda a história da humanidade, seria a mesma que
iria estruturar a totalidade do comércio e da prestação de serviços
online, deter o monopólio dos sistemas de pagamento e processamento
financeiro de vendas, fornecer as únicas vias existentes de trabalho à
distância e o mais que nós já sabemos ou ainda vem por aí.
Aquela
peça de legislação não só propiciou a acumulação em velocidade
meteórica da fortuna desses quatro senhores, hoje maior, cada uma delas,
que o PIB da maioria dos países do mundo, dispensando-os de qualquer
responsabilidade, seja pelo que publicam, seja pelos crimes econômicos
que cotidiana e sistematicamente cometem (da exploração do trabalho vil
nas chinas da vida ao dumping selvagem em todo o resto do mundo; do
roubo sistemático de informações privadas à venda forçada de seus
produtos pela obsolescência planejada precoce), como condenou à morte
por competição desleal todo tipo de imprensa independente. E, como pá de
cal, pôs a perder a efetividade da 1a Emenda da Constituição Americana,
que não por acaso é a que abre o segmento conhecido como “Bill of
Rights” do documento que, pela primeira vez na história da humanidade,
pôs o povo em condições de mandar nos reis.
“O
congresso (dos representantes eleitos do povo no “governo do povo, pelo
povo e para o povo”) não deverá fazer qualquer lei a respeito de um
estabelecimento de religião, ou proibir o seu livre exercício; ou
restringir a liberdade de expressão, ou da imprensa; ou o direito das
pessoas de se reunirem pacificamente…”. Mas os quatro trilionários das
redes que animam as imitações do mundo onde realmente se vive hoje em
dia podem. Ao manter a definição das “empresas” desses senhores como
empresas privadas como outras quaisquer, dá-se-lhes o direito, como ao
dono da padaria da esquina, de proibir a entrada em seu estabelecimento
de gente sem sapato ou qualquer outra forma de discriminação que caiba
na lei que lhes der na telha estabelecer como “regra da casa”, aí
incluída a sua particular definição de verdade e de mentira.
Se
não se origina dentro do Estado, como pela primeira vez é o caso, a
força que detém esse poder transforma-se no Estado, isto é, “aquilo que
está posto pela força” ou, dito de outro modo, o grupo de homens (porque
tudo, sempre, não passa, no fim, de um grupinho de marmanjos) que detém
o monopólio do exercício da força e, sendo assim, decide quem continua
vivo e quem morre.
Não
me venham com a “discussão filosófica” que essa imprensa aliada ao novo
Leviatã – e que a qualquer momento será “cancelada” por um peteleco de
algum dos quatro triliardários – quer fazer acreditar que ainda cabe.
Essa é uma questão resolvida há mais de 200 anos. Não existe meio termo
que se tenha materializado na História. Ou cada um tem o direito de
decidir por si mesmo o que quer ouvir ou não, e de decidir o que é
verdade e o que não é, ou será dado a alguém o poder de faze-lo por
todos. E como, fatalmente, esse poder dado a quem quer que seja evolui
para o de decretar quem morre e quem continua vivo, a humanidade
aprendeu que é melhor dar ao imbecil o direito de publicar sua
imbecilidade que ao filho da puta o de decretar quem deve viver ou
morrer.
O
resto é o de sempre. O grande espetáculo da covardia, da cumplicidade,
da sabujice em relação ao poder que fez vomitar os Diógenes de todos os
tempos. Por maior que seja o seu poder, os chefes de todas as tiranias
da história precisam de uma corte que os aplauda, que os sustente, que
os ajude a vigiar e a reprimir o povo que todos ordenham juntos, e
compra essa corte com a distribuição de privilégios, ou seja, dando-lhe o
direito de sustentar-se do trabalho alheio.
Não
há nenhum grama de honestidade no discurso dessa imprensa que trabalha
para por e manter o Leviatã onde está. Democracia é o fim do privilégio.
Anti-democracia é a continuação do privilégio. Ponto. Assim como a
China ocupou espaço no mercado internacional até tornar-se
imprescindível e então mostrar sem mais disfarces o que nunca deixou de
ser com Xi Jimping, seu poderio militar, o genocídio Uigur, o
estrangulamento de Hongkong, a anexação de Formosa, a ocupação de ilhas
do Japão e o mais que está prometido e virá sob o silêncio cúmplice de
todos os vendidos aos “negócios da China”, assim também as grandes
plataformas da internet.
A
censura vem há anos de ensaio em ensaio. Um “cancelamento” aqui, outro
ali, “execuções” à Stálin, sempre envergonhadas, mantidas no porão para
não repercutir, foram atestando o óbito da liberdade de pensamento de
órgão em órgão da imprensa tradicional ao redor do mundo. Nos
periféricos primeiro e, na ausência de reação destes, nos próprios
órgãos centrais na sequência. Uma vez garantido que a morte da
democracia jamais dará manchete, os moleques dos trilhões sentiram-se
seguros o bastante para dispensar a máscara pegada à cara.
A
ver agora se e como a democracia americana, cuja essência e força estão
nos municípios e nos estados, conseguirá vencer a dependência das redes
para reagir à altura.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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