Não deve ter sido por acaso que Navalny decidiu regressar a Moscou três dias antes da tomada de posse de Joe Biden. Se for detido, isso poderá levar o novo Presidente dos EUA a aprovar novas sanções. José Milhazes para o Observador:
A
invasão do Capitólio de Washington por apoiantes de Donald Trump foi
uma verdadeira prenda para Vladimir Putin, pois, entre outras coisas,
permite à propaganda russa desacreditar a democracia norte-americana,
mas, ao mesmo tempo, constitui um pesadelo para o czar, que receia
qualquer tipo de “revolução colorida” ou de “veludo”.
Por
isso, o Kremlin preparou-se bem para a chegada de Alexey Navalny ao seu
país, não obstante Putin não se cansar de frisar, com gestos e
palavras, que um dos principais líderes da oposição extra-parlamentar
não existe para ele, nem sequer tem nome e apelido.
No
fim de 2020, o Parlamento russo aprovou e o Presidente assinou cerca de
cem leis que dificultam ainda mais a já complicada situação da
oposição. Será mais fácil para a “justiça russa”, multar, prender e
condenar políticos, cientistas ou bloggers sob a acusação de “agentes
estrangeiros” ou de “publicação de notícias falsas na Internet”. As
forças policiais viram os seus poderes reforçados na luta contra os
opositores do regime.
A
tentativa de envenenamento de Navalny é um sinal claro de que o regime
de Putin – (quando falo em regime de Putin não tenho só em vista o
dirigente russo, mas também a corte que concentra cada vez mais poder
nas suas mãos à medida que o czar envelhece e se refugia cada vez mais
no “bunker”) – está disposto a tudo para não permitir surpresas em geral
e nas eleições parlamentares, marcadas para finais de 2021, em
particular.
Claro
que será demasiado descaramento liquidar fisicamente o líder da
oposição, mas a agenda da sua neutralização política já está bem
preenchida.
Valentin
Stepanko, primeiro Procurador-geral da Rússia, anunciou que Navalny
poderá ser detido à chegada ao aeroporto de Moscovo. O Serviço Federal
Penitenciário solicitou a “anulação de prisão com liberdade condicional…
por não ter reparado uma ofensa ou ter cometido uma nova infracção”.
Navalny
foi condenado a três anos e meio de prisão com liberdade condicional
pelo desvio de 26 milhões de euros (cerca de 300 mil euros) de uma
filial da empresa de cosmética francesa Yvez Rocher, que reconheceu não
ter registado “qualquer prejuízo”. O Tribunal Europeu dos Direitos
Humanos considerou que Navalny e o seu irmão, condenado a prisão
efectiva, foram privados do direito a um julgamento justo.
Porém,
as autoridades prisionais consideram que o líder da oposição já está de
boa saúde e que, por isso, já deveria ter-se apresentado, mas continua
na Alemanha.
Alexey
Navalny está a ser também alvo de acusações por parte de alguns
oligarcas próximos de Putin. Por exemplo, Evgueni Prigojin, chefe da
organização de mercenários “Wagner” e “cozinheiro” do Kremlin, exige nos
tribunais pesadas indeminizações a Navalny por “difamação”.
O
líder da oposição arrisca a sua liberdade, mas não tem outra
alternativa se quiser continuar a ser uma peça importante na vida
política russa. Quem conhece minimamente a História da Rússia sabe que,
depois de emigrarem, os opositores são rapidamente esquecidos. Vejam-se
os casos do xadrezista Gary Kasparov, do oligarca Mikhail Khodorkovski e
de outros opositores ao regime de Putin.
Por
outro lado, não deve ter sido por acaso que Navalny decidiu regressar a
Moscovo três dias antes da tomada de posse de Joe Biden em Washington.
Se ele for detido, isso poderá levar o novo Presidente dos Estados
Unidos a aprovar novas sanções contra a Rússia e, por exemplo,
recusar-se a prolongar o Tratado sobre Armas Estratégicas, cuja vigência
termina a 5 de Fevereiro. Ou seja, poderá ser um forte obstáculo à
normalização das relações russo-americanas.
Não
é previsível que Navalny seja recebido no aeroporto da mesma forma que
Lenine foi recebido apoteoticamente na Estação Ferroviária de São
Petersburgo em 1917. A polícia, a pretexto da luta contra o COVID-19,
não irá permitir ajuntamentos e muito menos recepções calorosas. Não se
exclui a possibilidade de o avião ser desviado para outro aeroporto sob
os mais vários pretextos. Além disso, Navalny não tem estruturas
organizadas como os bolcheviques. E, como já escrevi acima, ele pode ir
directamente para a prisão.
Seja
como for, o seu regresso à Rússia significará o reinício da luta
política real e verdadeira, e é isso que incomoda Putin e a sua corte.
Afinal, David conseguiu derrotar Golias.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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